sexta-feira, 16 de abril de 2010

Frei Damião em missão


Pio Gianotti nasceu em Bozzano na Itália. Veio para o Brasil e se transformou em Frei Damião, um capuchinho que é considerado quase santo pela população do Nordeste. O nosso santo padre já foi fazer suas pregações no andar de cima, defendendo seus rígidos conceitos de moralidade e apego à religião.

Lembrei de Frei Damião hoje quando voltava de Itabaiana e avistei um frade capuchinho ao sol do meio dia com seu hábito de fazenda grossa e os pés metidos em sandálias de couro cru. Recordei uma história que minha mãe conta sobre o Frei Damião, mas antes fui pesquisar no Google e fico sabendo que o nosso Frade serviu no Exército italiano durante três anos. No Brasil, acompanhado de outro frade, Fernando Rossi, organizou missões que percorreram quase todas as cidades do Nordeste. Costumava chegar à localidade escolhida às segundas-feiras no final da tarde. Às quatro da manhã de terça-feira, ainda na escuridão, a multidão já se comprimia para ver a procissão.

Foi assim que ele chegou no começo de 1956 na cidade pernambucana de Timbaúba. Como de costume, pregava contra os “nova seitas” e os amancebados, tipo de gente que tinha ingresso garantido no inferno.

─ O comerciante que vender a um nova seita vai pro inferno também! - gritava Frei Damião para a multidão arrebatada e seduzida pelo carisma do pregador.

Acontece que minha mãe era uma “nova seita”, evangélica da Igreja Batista. O leiteiro simplesmente deixou de vender leite para fazer minha papa, um bebê de pouco mais de seis meses, desmamado precocemente. Passei mais fome do que o normal. Foi preciso meu pai pedir ajuda ao delegado para forçar o aterrorizado leiteiro a entregar nossa cota de leite natural, que naquele tempo não havia leite em pó.
O pobre leiteiro deve ter passado maus bocados com sua consciência de ignorante e devoto de Frei Damião. Para o povo nordestino, a santidade de Frei Damião era provada por seus milagres, nunca reconhecidos pela Igreja Católica. Considerado sucessor de outro grande “santo brasileiro”, Padre Cícero, nosso Frei foi personagem de muitas histórias. Diziam que ele voava, ou que previa o futuro. Lampião respeitava muito o capuchinho. Toda vez que encontrava o bandido, Frei Damião abençoava e aconselhava para deixar a vida do cangaço, se casasse e acabasse com aquele pecado de matar.

Para mim, Frei Damião foi o homem que quase me matou de fome quando criancinha, com suas ideias conservadoras e antiquadas. A última visão que tive do velho Damião foi na cidade de Guarabira, Paraíba. Já muito velhinho, o Frei Damião era cutucado nas costelas impiedosamente pelo tal Frei Fernando para que ficasse mais ereto e visível à multidão de fiéis. Já não sabia o que dizia, esclerosado, em pleno declínio mental.

Um dia, um repórter mais afoito perguntou ao Frei Fernando:

─ Acompanhar Frei Damião dá muito dinheiro?

─ Longe de mim o espírito mercantilista e simoníaco. Sou apenas um homem prático, que sabe que ninguém pode viver de brisa - respondeu o precursor católico de Edir Macedo.

A propósito, simoníaco é quem pratica a simonia, que é a compra ou venda de coisas espirituais. Eu não sabia disso, quem me disse foi o Houaiss.

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