domingo, 28 de agosto de 2016

POEMA DO DOMINGO


Dramas e comédias da resistência

(Nos 40 anos de fundação do Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana - GETI) 


Com vigor imberbe
acordamos no meio da noite
tateando nas asas de graúna
dos bandoleiros encouraçados
atrás dos que assaltaram
nossa juventude e nossa coragem

E pintamos fracos cenários
de caveiras e armas toscas
passando pelo país de São Saruê
gritando palavras de desordem
e dançando um xaxado amedrontado
com cegos de feira e diabos ingênuos.

No meio do conflito
armamos nossa tenda
passeando pela corda bamba
assim como quem vai ao cadafalso
sem saber dos perigos
mas desconfiando do silêncio na praça.

E era como se o sonho
de arte engajada
nos desse uma estranha força
que não víamos nem perigo nem ruína
andando pela mambembagem
dos sertões e infernos afins
assim como quem vai ao céu
e não lembra de rezar
a oração de louvor
nem a Deus nem ao Diabo.

E nossa arte errante
armou batalhões das sombras
em que dois cabras perdidos
numa noite longa e suja
lembraram de Zé da Luz
e o ABC do calvário
dos doidos despossuídos
na sombra da poesia de feira
e seus volantes atores

Como fantasmas que voam
por sobre casas grandes e ocas
Dos patrões e coronéis
Em invenções de pré-artistas
Aprendizes de visionários.

           ** * 

"Belo registro poético de uma poética juventude, Fábio. Não foi à toa que lhe deram o nome de Mozart, que morreu jovem mas ouviu a flauta mágica."  -  W. J. Solha

sábado, 27 de agosto de 2016

O contorcionista Borrachinha




         Quando eu vejo na TV os ginastas brasileiros se apresentarem no solo, especialmente nas últimas olimpíadas, me vem à memória um sem número de atletas anônimos espalhados pelos rincões deste vetusto Brasil.
         A ginástica artística é diferente de outras modalidades esportivas, como o futebol -  este sim, esporte de massa em nosso País, pois a cada década surgem novos gênios como Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Neimar e tantos outros, independentemente ou não de apoio oficial.
         Já o ginasta olímpico exige dele uma  genética determinante para que desenvolva suas características fundamentais: força, flexibilidade,  coordenação motora, aliado a muito treinamento. A preparação, geralmente tem início muito cedo, ainda na infância, podendo chegar a um nível de excelência após dez anos ou mais de árduo trabalho. Envolve uma equipe multidisciplinar composta de treinadores, preparadores físicos, psicólogos e nutricionistas. Somente assim esses atletas são capazes de realizar piruetas, saltos mortais e acrobacias, isso em poucos segundos, tendo como palco um estrado de cerca de doze metros, feito de material elástico, destinado a amortecer os impactos das articulações e eventuais quedas. Usam roupas especiais de lycra, tipo collant, em forma de maiô.
         Não quero com isso oferecer aos leitores da Toca do Leão, uma aula sobre essa modalidade esportiva. Longe de mim.
         O que me move nesse introito é a lembrança de um artista do Brasil real, que se apresentava nas feiras livres do Vale do Paraíba na década de setenta e início dos anos oitenta. Era conhecido pelo apelido de Borrachinha, residia em Itabaiana, não sei se era de terra, não possuía o staff de um Diego Hipólito, não usava roupas collants, nem aparentava trejeitos femininos. Sua comida era à base de feijão, arroz e batata doce, quando dispunha. Ingeria como isotônico, de forma moderada, uma boa aguardente.
         Quando se exibia, especialmente na feira livre de Itabaiana, não por alguns segundos, mas durante horas, num espaço diminuto sobre o calçamento – seu tablado, atingia  sua performance de pés descalços e  usando apenas uma bermuda surrada. Variava seu espetáculo, que ia de saltos mortais e piruetas, além de um contorcionismo impressionante. Recebia como pagamento alguns trocados da sua fiel plateia. Das muitas vezes que vi suas exibições, uma peculiaridade me chamou a atenção: Borrachinha nunca caiu de nádegas nem de boca. Ele foi um belo artista anônimo e esquecido, sem direito a medalhas.

                                                                           
Joacir Avelino

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

ESTE CIDADÃO QUE ESTÁ DE COSTAS É O MISTER X DO MULTIMISTURA, AQUELE QUE NÃO PODE TER SEU NOME CITADO


--- Fábio Mozart, Bebé de Natércio, poeta Merlânio Maia, Beto Palhano e Mister D, aquele do qual não se pode falar o nome, fazendo o Multimistura no Estúdio Som Dumato.
--- Neste bloco, debate sobre o massacre que sofre a cultura popular no Brasil.
--- O voto é um direito ou um dever?
--- O Estúdio Som Dumato faz a produção do seu enterro. Trabalhamos com jingles funéreos e fornecemos carpideiras, aquelas choradeiras profissionais.
--- Madame Preciosa lança seu rock pauleira sobre as Olimpíadas.
--- No fim, Merlânio canta uma de suas belas toadas.
Ouça a gravação da galera multimisturada:

MULTIMISTURA TAMBÉM É CULTURA – POESIA DE QUALIDADE ABRINDO OS CAMINHOS NO ESTÚDIO SOM DUMATO


--- Manoel Xudu, glória da poesia brasileira de improviso, pra começar este bloco.
--- Comentários sobre o debate dos prefeitáveis de João Pessoa.
--- Bebé de Natércio protesta contra a lei seca no Parque Solon de Lucena.
--- Parada Gay: as inevitáveis piadas preconceituosas.
--- Multimistura recupera a memória e lembra a CPI da pistolagem.
--- O Mister D, cujo nome não pode ser mencionado, está presente nessa sessão com seu olhar pidão... atrás de votos.
--- O presidente do Corinthians disse, com a cara mais lavada do mundo: “Se não se comprar juiz, não se ganha nada...”
--- A mulher que gastou dois milhões só com embelezamento e não foi reconhecida nem por Deus.
--- Candidatos a vereador em João Pessoa, Arroz, Tomate, Salsicha e Colorau dão o tom da panela da eleição no comício de beco estreito.
Ouça o MULTIMISTURA no RadioTube:

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

SE VOCÊ OUVIR O MULTIMISTURA TODO DIA, CORRE O RISCO DE SE TRANSFORMAR NUMA SUBCELEBRIDADE


--- “Pra admitir que é corno, já é difícil, imagina a gente se admitir babaca!” - Bebé de Natércio, sobre a massa que gritava: “Somos todos Temer”.
--- Onde estavam os juízes quando os militares estupraram a democracia em 64? E onde estão agora?
--- Nadadores americanos desonraram os ladrões brasileiros. 
--- Merlânio declama poesia de Bertolt Brecht.
--- Voto nulo ainda é uma forma de protesto? Merlânio Maia ensina como votar com seriedade e discernir o profissional do voto do verdadeiro e vocacionado político.
--- As pessoas que escutam o Multimistura têm melhor desempenho sexual, dizem especialistas.


Olha o MULTIMISTURA aí, gente!

Merlânio Maia, direto do sertão da Paraíba para o Multimistura

--- O programa tem Merlânio Maia, multiartista, poeta da paz e declamador.  
--- Alô Dedé Arnô, Júnior de China de Mari, Ivaldo Gomes, João de Deus do Gai, Eudo Jansen, Natan Oliveira, poeta fescenino Vavá da Luz, poeta Pádua Gorrion e poeta Quelyno Sousa.
--- O programa teve a visita de um estranho personagem cujo nome não se pode falar. Este misterioso personagem teve seu direito de expressão vetado pela “ditadura judiciária”.
--- O estranho caso do candidato comunista que acredita em Deus e desacredita em Marx.
--- “Temer é um cão menor, mas o capiroto mesmo é o Eduardo Cunha”, garante Melânio Maia.
Primeiro bloco da semana do MULTIMISTURA está no ar:

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Crônica do cara que perdeu o dinheiro da feira


Não tem braveza e valentia que não se acabe quando a gente está sem dinheiro. Nesse mundo do lucro, da vantagem, do valor monetário acima de tudo, “só se vale pelo que se tem”. “Há o tempo de viver e há o tempo de morrer”. No meio, há o tempo de se ficar liso. Minha pobreza de aposentado não me permite grandes manobras de consumo. Meus haveres monetários são mais contados do que os cobres do filósofo Karl Max, o cara que fundamentou a filosófica comunista. Em carta ao Engels, ele chora: “Minha mulher está doente com uma espécie de febre nervosa. Não posso chamar o médico por falta de dinheiro para os remédios. Há oito dias que alimento minha família unicamente com pão e babata, e não sei se vou poder comprar pão e batata hoje.”

Não estou nessas privações do pai do comunismo, mas é aquele queixume de sempre do cara aposentado que não tem outra fonte de renda. Porém, e sempre há um porém, essa exiguidade de recursos pode acabar de forma muito frutuosa na probabilidade de eu ser um gênio prestes a construir minha obra prima. Porque tem a teoria de que os grandes criadores só foram capazes de conceber sua glória artística porque passaram muitas provações no plano material. Cervantes só escreveu “Dom Quixote” porque vivia na miséria e depois de passar anos na cadeia. O indivíduo rico, que não tem preocupações com nada, nunca terá inspiração. Quem não sofreu no couro a aspereza da vida, não será jamais eterno no panteão dos capas pretas das artes.

Toda essa conversa pra relatar aqui o pequeno desastre de hoje pela manhã. Às cinco horas, saio em minha byke para o passeio matinal, levando no tênis duas notas de dois reais para comprar maçãs no retorno, ao passar no mercado. Depois de gozar os prazeres de rodar cinco vezes a lagoa, acumulando dores lombares e espasmos nos joelhos, além de câimbras e dormência nos países baixos, descubro que perdi os quatro reais. Volto para casa sem a luz que irradia dos felizes, mais apagado do que a tocha das olimpíadas dos mofinos, os desgostosos competidores batidos, os derrotados, os prostrados e exaustos medalhas de latão, os que chegaram por último. Dessas figuras ninguém fala. Não tem mérito algum a ser reconhecido. Foram apenas escadas para os vencedores.

Desculpem, estou tergiversando. O que eu quero dizer é que quando se perde o dinheiro da feira, dá-se uma ligeira conturbação na cabeça conservadora. A gente fica puto. Irritado e indignado, o sujeito acha que sempre estará condenado a ser escravo. Todos os sentimentos de decepção vêm à tona por causa do extravio de quatro irrelevantes reais. E tome filosofia de boteco rodando na mente do provecto ciclista: os homens são regidos pela lei da necessidade, e a liberdade não passa de uma ilusão.

Quando você dá aquela topada na quina do pé da mesa, um palavrão é muito mais eficiente do que qualquer analgésico. No tocante à perda dos vinténs essenciais, aceitei o acaso e desejei francamente que o dinheiro seja encontrado por alguém que necessite mais do que eu. Como a vida é um produto das circunstâncias, fui andando e pensando que aquela mulher gordinha que caminhava com dificuldade no calçadão topa com as notas, apanha, na volta para casa joga na milhar do porco, ganha uma boa bolada, passa a achar o mundo mais aconchegante e equitativo, paga a operação do marido, compra roupas para o neto, quita a conta da quitanda e abre um largo sorriso quando eu chego ao consultório do médico. Ela, por acaso, é a enfermeira responsável pelos procedimentos básicos de uma operação que eu iria fazer. Graças ao seu estado de espírito, fico achando que a vida seja apenas a simplicidade das trocas, mesmo involuntárias, de pequenos/grandes dados aleatórios. E sinto paz. Que não tem preço. Ou pode custar apenas quatro reais que, sabe-se lá por quais desígnios, seriam investidos na compra de frutas contaminadas cuja putrefação me levaria à morte.