segunda-feira, 31 de maio de 2010

Orlando Otávio é o “cara” do Ponto de Cultura


Meu estimado amigo e parceiro de batucada no “Ganzá de Ouro”, o poeta Orlando Otávio é o “cara” e a cara do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Ele é o “cara” porque atualmente está na mídia e na moda, com novo livro na praça, o maior sucesso literário em Itabaiana depois da Bíblia Sagrada. E é a cara do Ponto porque defende nosso patrimônio cultural, se apresenta como um genuíno artista da terra, além de trabalhar com a diversidade cultural, escrevendo livros, gravando canções, tocando seu pandeiro e compondo música.

Esse artista multifacetado é dono de um talento especial, que é o de cativar as pessoas. Agora é um criador muito mais amadurecido e, provavelmente, tal como muitos outros artistas, ainda procura pelo seu grande desafio artístico.

Orlando é autor da música “Carta ao mestre Sivuca”, classificada no Festival de Música Popular de Pombal no ano passado. Ele defendeu sua música com grande receptividade do público, e foi para a final. Na noite do encerramento do Festival, quando Orlando já se preparava para cantar sua canção, eis que uma trovoada disparou forte descarga elétrica, queimando todo o equipamento. Foi embora a energia e com ela a final do Festival, que até hoje não teve um vencedor. Para mim, o vencedor foi Orlando Otávio com sua canção positiva, de glorificação ao gênio de Sivuca, transmitindo as melhores emoções aos paraibanos.

Forrozeiro, compositor popular e, hoje, cada vez mais escritor, Orlando Otávio vem, desde pelo menos os anos 90, marcando decisivamente seu espaço, às vezes com guinadas surpreendentes. É com ele que estou tramando um projeto de gravar CD do “Ganzá de Ouro”, com o melhor da música de raiz nordestina e paraibana. Não duvidem da capacidade de realização do Orlando nem de minha pertinácia.

Orlando é um itabaianense que gosta de cultivar seu passado e tem orgulho de sua terra. Por lá nasceram e se formaram gênios como Sivuca e Vladimir de Carvalho. Orlando é um escritor que personifica melhor o espírito de altivez do itabaianense pelo seu passado de riqueza cultural e material, quando Itabaiana já foi considerada “centro literário” da Paraíba. Tivemos jornal diário e até uma revista. O livro de Orlando Otávio, “Itabaiana – seus valores e seus amores”, trata de um passado mais recente, um lastro de histórias e versos sobre nossos conterrâneos da geração 50, com a genealogia dos primos de Campo Grande. Merece ser lido especialmente pelos de minha geração, como um salutar exercício de lembranças de experiências já vividas; reminiscência de uma época boa que deixou saudades.

domingo, 30 de maio de 2010

Aventuras do Macaco Autino na guerra de Itabaiana



Laércio Becker é um estudioso do futebol paraibano, escrevendo retalhos históricos deste esporte, histórias e curiosidades deliciosas. Na parte que fala do meu Auto Esporte Clube, humilde time da capital paraibana, tem um trecho onde ele conta uma peripécia acontecida com o “macaco”, time fundado em 1936. Foi quando o Auto Esporte tentou chegar a Itabaiana para jogar uma partida amistosa contra selecionado local, no dia 1º de dezembro de 1959.

A “marinete” em que viajava o elenco sofreu uma pane nas imediações de Pilar, devido aos inúmeros buracos da estrada. Para quem não sabe, “marinete” era uma espécie de ônibus coletivo, quase uma van atual. A comitiva não teve outro jeito senão pegar a estrada a pé. Após um quilômetro de poeira, eis que aparece um ônibus “de linha”, o velho Mercedes Benz de Reimar, a “sopa” que carregava, aos sopapos, os passageiros de Itabaiana a João Pessoa. A delegação foi “acomodada” na parte superior do ônibus, no lugar da bagagem. Mais na frente furou um pneu traseiro, então os jogadores e comissão técnica tiveram que fazer o resto do percurso a pé até o estádio Severino Paulino, local da contenda.

Após esse “aquecimento”, começou o jogo. Pelo Auto Esporte, brilhavam: Agostinho, Gavião e Kleber; Marajó, Américo e Negrinho; China, Macau, Chiclete, Élcio e Piau. Na seleção de Itabaiana, os craques eram Peludo, Machinho, Toinho de Iracema, Índio, Vaqueiro e Joca, tendo Cabo Totô na direção técnica. Aos vinte minutos do segundo tempo, o goleiro do Auto Esporte machucou-se. Na regra antiga, só o goleiro poderia ser substituído. O juiz então aproveitou para marcar pênalti contra o Auto, alegando que o goleiro reserva havia entrado em campo sem autorização. Manifestações dos jogadores do Auto: “safado, pilantra, ladrão, ordinário!”. Da “barreira”, lugar estratégico onde ficava a torcida local, voavam pedras, sapatos, paus e outros projéteis. A segurança era feita pelo “João Guarda”, mas esse valente vigilante, aos primeiros sopapos, furou a cerca de avelós que cercava o campo e desapareceu para as bandas da estação ferroviária.

O jogo foi suspenso por falta de segurança com 0x0 no marcador. Pior foi o retorno, com os jogadores exaustos e demais membros da comissão técnica avariados pela refrega. A pé, retornaram ao local em que ficou a “marinete”. O juiz apitou descaradamente de forma tendenciosa e os torcedores rivais não foram nem um pouco hospitaleiros. Foi a pior partida jogada pelo Auto Esporte em seus setenta anos de existência. Depois dessa sapatada em Itabaiana, o Auto perdeu o rumo, nunca mais se aprumou.

sábado, 29 de maio de 2010

O homem que inventou Zé da Luz


Bastos de Andrade e Zé da Luz, no Rio de Janeiro

Impressionante constatar como a vida é o eterno retorno, como nos conta Nietzsche. Vida longa ao poeta Jessier Quirino! A visibilidade midiática do bardo campinense é uma forma afirmativa de divulgar nossa nordestinidade, criando uma arte pulsante que continua viva por causa de outros artistas que o antecederam.

De Itabaiana, recordamos o poeta declamador Bastos de Andrade, o homem que ensinou Zé da Luz a fazer versos matutos desde menino. É que os dois são irmãos, sendo que um ficou famoso e o outro não alcançou a divulgação que sua arte merece.

Lá pelo início da década de 50, um homem com o olhar calado e manso, bem vestido com terno e gravata, um tal de Bastos de Andrade, inaugurou um programa na Rádio Tabajara intitulado “Mensagem para o rancho”. Dali em diante, por uma década, diariamente ele contava causos e declamava poesia para os milhares de ouvintes aonde chegava o sinal da potente rádio do Governo. A Paraíba toda se acostumou a ligar o rádio pontualmente às 18h05 para se deliciar com o humor e a rima fácil de sua poesia, num linguajar matuto que conquistou grande contingente de apologistas, tal qual acontece hoje em dia com o festejado declamador/cantor/compositor/poeta Jessier Quirino.

Na capital, Bastos de Andrade montou o Café Agável, na Maciel Pinheiro, centro nevrálgico da zona boêmia de João Pessoa. Todos os dias, ao sair dos estúdios da Rádio Tabajara, após o programa, ele ia colher os frutos da popularidade, recebendo amigos e continuando a contar suas estórias, todas elas saídas de suas memórias itabaianenses, com toda a humanidade nelas contida.

Querido e respeitado por todos, Bastos de Andrade fez história na radiofonia paraibana. Fala-se tanto em Zé da Luz, mas, embora reconhecendo a beleza e originalidade da obra do poeta, ouso dizer que seu irmão foi quem rompeu os limites da literatura oral e escrita em nossa terra, popularizando a poesia regional. Hoje tem analfabeto que declama Jessier Quirino de cor, por causa do CD e do rádio. Há 60 anos atrás, Bastos de Andrade seguia a mesma trilha, com a mesma verve e talento. Sem Bastos de Andrade não haveria Zé da Luz, e talvez nem Jessier Quirino.

No dia 30 de julho de 1984, morre Bastos de Andrade no Prontocor, vítima de ataque cardíaco. Fertilizou as raízes da árvore frondosa da poesia regional. É a roda da história. Cada um que abre seu próprio caminho nessa vertente artística, de uma forma ou de outra está bebendo na fonte de poetas como Bastos de Andrade, esse artista que é mais uma estrela, mesmo semioculta, na constelação dos astros de primeira grandeza de Itabaiana.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Resgatando a cultura popular



É preciso começar a perder a memória para perceber que é justamente esta memória que faz toda a nossa vida. Uma vida sem memória não seria uma vida, assim como uma inteligência sem possibilidades de se exprimir não seria uma inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada.
E o que dizer de uma comunidade sem memória? O projeto Meninas do Rio pretende registrar a memória musical e as danças da comunidade itabaianense com uma coletânea de toadas de caboclinhos, boi de reis, nau catarineta, coco de roda, ciranda e outras manifestações folclóricas, através de gravação de DVD. As músicas são interpretadas por brincantes da comunidade, que tem tradição centenária no coco e no caboclinho. Os destaques são as crianças bailarinas do grupo Meninas do Rio. Homenagearemos os falecidos mestres Mocó, Pabulagem, Chico do Doce, Arlinda Cirandeira, Biu da Rabeca e Artur Fumaça.

Especificamente sobre a cultura dos saberes da infância brasileira, as Meninas do Rio executam todas as jornadas do Pastoril, a Lapinha da tradição natalina do Nordeste, muito cultivada em nossa cidade em décadas passadas, hoje praticamente extinta como manifestação da cultura popular.

A partir das ações do Grupo de Danças Regionais Meninas do Rio, sob a coordenação da professora Sueli Joventino, pretende-se realizar ações em escolas públicas e espaços da periferia da cidade, além do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, proporcionando um resgate dos folguedos populares a partir do ensino da dança e da música regional, trabalhando com crianças na faixa etária de 8 a 15 anos. Concomitantemente, o projeto auxilia na divulgação e debates no meio estudantil, sobre políticas de atendimento, promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente, com o apoio do Conselho Tutelar.
As antigas brincadeiras infantis do Nordeste, que se via nas ruas das cidades do Interior, brincadeiras infantis como pega-pega, esconde-esconde, pular corda e elástico, pão-duro, amarelinha, bola de gude (bila), pião e soltar pipa (papagaio), serão resgatadas no projeto. Farão parte dos aquecimentos e outros momentos de lazer e descontração. São alternativas à televisão e aos jogos eletrônicos que deixam crianças e adolescentes sedentários.
Percebe-se que as tradicionais brincadeiras de rua permanecem no imaginário dos meninos e meninas. Se compararmos com um passado recente, as brincadeiras de ruas diminuíram muito, mas não acabaram. Essas diversões mantêm um forte aspecto lúdico.

Na nossa cidade praticamente não há equipamentos públicos, praças com quadras, áreas apropriadas para o lazer dos moradores, principalmente na periferia. Muitos brincam nas ruas. E é na rua onde pretendemos realizar as sessões de brincadeiras com os meninos do projeto e demais habitantes das comunidade.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

PROFISSÃO: COVEIRA


Depois de 20 anos sem qualquer modificação, a Classificação Brasileira de Ocupações foi atualizada oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Profissões como a de coveiro, que recebeu o nome de sepultador e a das prostitutas que passaram a ser chamadas de profissionais do sexo foram formalmente regulamentadas. Mas nos concursos públicos continuam classificando esse profissional como coveiro. E as putas continuam sendo putas. Pior, sem direito a concurso.

Em recente concurso da Prefeitura de Itabaiana, uma moça foi classificada para exercer o cargo de coveira no cemitério da vila de Guarita, entre a sede do Município e Salgado de São Félix. Pelos meus cálculos, o último falecido a ser enterrado no cemitério local já deve ter virado cinzas. Pouco se morre na vilazinha quase deserta, e se nasce quase nada.

No silêncio do deserto que é a nossa Guarita, escuta-se a Palavra que fala mais alto, do tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para plantar e tempo para colher. Só que o tempo naquelas paragens corre mais devagar, porque estão todos parados. O tempo ali se desloca mais lento, arrastado na temporalidade, no ritmo e ciclos das comunidades pequenas. Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema chamado “Cidadezinha”, extremamente representativo do ritmo lento desses lugares.

O coveiro sempre foi uma figura meio que sinistra, lúgubre. Conheci um coveiro na minha cidade por nome Cavalo Azul. Exercia a sua profissão com um zelo invejável, só ultrapassado pelo meu primo Azarias, um apaixonado por cemitério. Tem gente que nasce pra isso. Acho que quando ele nasceu, a notícia saiu no obituário. Aposentou-se, mas se recusa a deixar o campo santo, onde dá plantão todos os dias.

Tantos anos vivendo dentro de um cemitério o fizeram ver o mundo com outros olhos. Entre túmulos, coroas de flores, velas e velórios, Azarias teve o cheiro da morte como seu perfume, os prantos e sussurros dos funerais serviam de pano de fundo para seus escritos filosóficos, que era um coveiro pensador. Esse sim, um vocacionado, doutor em morte sem nunca ter feito concurso.

Não dá pra ficar escolhendo trabalho hoje em dia. A menina que passou no concurso de coveira, certamente quando era criança e lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse, é claro que ela nunca pensou em responder coveira. O trabalho é pesado, tem que ter bom preparo físico para carregar os caixões, colocar as lajes por cima dos jazigos. Acho que é por isso que não conheço nenhuma mulher coveira. Mas o ofício incomum tem o lado bom, que é trabalhar sem ninguém no seu pé e lidar diretamente com o público.

Como é conviver com “a velha Caetana” de forma usual, profissionalmente, com carteira assinada e livro de ponto? Esforçar-se-á para obter produtividade? É a forma como se encara a vida que faz também se encarar a morte. Então, como essa jovem profissional sepultadora vê o fenômeno do fim da vida? E a própria vida, que significado terá para a feliz ocupante do cargo de coveira? E a posse no cargo, terá festa, família presente, roupa nova?

Outra: será emotiva essa nossa coveira pioneira? Uma regra de etiqueta seguida pelos coveiros é não demonstrar emoção durante os sepultamentos. Mas há exceções, como quando um funcionário acaba sendo, ao mesmo tempo, responsável pelo sepultamento e amigo do defunto. Azarias enterrou a própria mãe de forma profissional, sem nenhuma emoção. O coveiro é igual a um médico na sala de cirurgia. É preciso controlar os sentimentos

Lembrei do coveiro no cemitério do “Bem Amado”, obra principal do corrupto Odorico Paraguaçu que nunca inaugurava por falta de defunto. Se depender de um extinto, nossa coveira vai levar uns tempos para ter seu primeiro desempenho na função.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Flagrante de um bailado popular


Em 1938, o Departamento de Cultura da cidade de São Paulo enviou um grupo de pesquisadores ao Norte e Nordeste do Brasil em pesquisa idealizada por Mário de Andrade, então Diretor do Departamento. Batizado de Missão de Pesquisas Folclóricas, o grupo formado por Luís Saia, Martin Braunwieser, Benedicto Pacheco e Antônio Ladeira tinha por objetivo registrar nossos cantos e danças. De fato, entre fevereiro e julho daquele ano a equipe gravou, fotografou, filmou e estudou as melodias que homens e mulheres usavam para trabalhar, se divertir e rezar.

Essa expedição veio a Itabaiana colher material sobre nossa cultura. Isso foi entre 23 de março e 30 de maio, portanto há 72 anos. Foi na ocasião que o fotógrafo da equipe, Luiz Saia, fez esta foto de um grupo de moradores da zona rural de Itabaiana dançando o coco de roda.

Mário de Andrade travou, portanto, conhecimento com nossa identidade cultural. Entre palmas de mão, esse folguedo foi registrado em sítio de Itabaiana. A zabumba e o ganzá chamando para a dança do coco, o ritual lúdico de corpos e ritmos, uma das raras atividades de lazer dos nossos antepassados campesinos. Seus cantares perderam-se nos toscos equipamentos de gravação de áudio daquela época, suas identidades jamais serão dadas a conhecer. Esses anônimos brincantes itabaianenses ficaram apenas na foto de Luiz Saia, essa que publico na capa do meu livro “A Voz de Itabaiana e outras vozes”.

O coco de roda é originário de Alagoas, conforme ensina o mestre Altimar de Alencar Pimentel, e foi introduzido na Paraíba a partir de Cabedelo. No começo do século, muita gente de Itabaiana foi atraída para Cabedelo, para vender produtos na feira, pescar ou trabalhar no porto, incluindo aí o serviço restrito à zona boêmia, destino do grande bandolinista itabaianense Artur Fumaça, animador em casas noturnas e cabarés da cidade praieira, com músicos da qualidade de Canhoto da Paraíba e Wilson do Bandolim.

Um itabaianense iluminado certamente trouxe a dança e a música do coco de roda para cá. Filhos e netos continuaram a tradição, que se instalou na zona urbana, sendo um dos mestres do folguedo o grande Pabulagem, devotado brincante que conheci na Rua das Flores.

Na foto, confirma-se a presença acentuada de negros e mestiços nessa dança democrática. Altimar afirma que não há data certa para a apresentação do folguedo durante o ano, mas é característico do ciclo junino. A foto foi tirada entre abril e maio de 1938. Folguedo de espírito comunitário, vê-se homens e mulheres na roda, de idades diversas. Dança do povo por excelência, representa na capa do meu livro o objetivo desta despretensiosa obra, que é focar a alma e a cultura de minha gente.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Culto à personalidade


Minha geração lia uma revistinha americana chamada “Seleções do Reader’s Digest”, uma compilação de matérias publicadas pela imprensa ianque, geralmente promovendo o estilo de vida americano e combatendo o comunismo, na época da guerra fria. Nela havia uma sessão chamada “Meu tipo inesquecível”, onde se enfocava uma personalidade que marcou a vida de alguém.

Pois meu tipo inesquecível morava em Itabaiana, um distinto senhor chamado Estevão, comerciante de grãos, pessoa bondosa que muito ajudou minha família em tempos difíceis. Meu pai adoecera gravemente, passou muitos meses no hospital. Quando saiu de lá, teve a ajuda do senhor Estevão para reerguer-se. Esse senhor foi padrinho de minha irmã Vasti, batizada na fé católica apesar de nossas origens protestantes, tudo em deferência ao nosso benfeitor, católico fervoroso.

Morávamos em frente ao coreto, nos fundos de uma antiga mansão com paredes cobertas de azulejos portugueses. Pertencia a dona Joana, uma matriarca do lugar. O passado é desfile que passa e não volta. Mas os abalos afetivos ou morais continuam refletindo em nossas vidas, para sempre. Naquela época tive um momento inesquecível aos olhos de um garoto de 12 anos. Nosso bom Estevão ofereceu-se para comprar uma roupa nova para o Fabinho, que andava meio jogado fora, com as calças curtas já gastas e ralas pelo uso constante, camisa imprestável para ir à escola.

Levado pelo meu protetor, fui à loja de Inácio Ramos Cavalcante, “A Barateira”, comprar roupa nova. Chegando lá, o empregado notou que se tratava de um caso de caridade, trouxe uma roupinha barata, de pano inferior, dessas que o povo chamava “rói rola”. O magnânimo Estevão protestou na hora, revoltado: “Você sabe quem é esse garoto? É o Fábio Mozart! Traga a melhor roupa que houver na casa, e o sapato mais caro.” O balconista olhou aquele homenzarrão de pele entre o pardo e o negro de través, certamente julgando-o um lunático. Passando por cima de seus preconceitos, o homem trouxe as melhores roupas do estoque para minha escolha. Saí da loja flutuando.

Passei muito tempo só meditando na maneira destacada como o senhor Estevão pronunciou meu nome para o cara da loja, e o espanto do homem olhando para mim, querendo adivinhar de onde vinha meu prestígio enfatizado por ele. Senti-me um forasteiro nas ruas de minha Itabaiana. Um personagem diferente, digno de consideração e apreço. Passei a olhar o mundo com outros olhos, embarcado que fui naquela canoa que me levou pelo rio da autoestima.

Desde esse dia, no meio de tantas fantasias que passaram na meninice, sempre retenho essa lembrança na memória, com um oculto desejo de procurar corresponder ao realce marcante com que ele pronunciou meu nome. Penso que esse episódio vem até hoje ajudando a neutralizar complexos e neuras do velho Fabinho.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

É de torar o eixo de centro!


Eu reclamo com razão! Quase fui assassinado pela mulher outro dia. Ela estava se queixando de que as roupas estavam gastas e precisava modernizar o guarda-roupa. Comentei: “Isso não é verdade. Você comprou avental novo na semana passada.”

Quando morava na Rua da Palha, Marcos Veloso botava uma placa na porta, na véspera da feira livre: “O dono desta casa costuma voltar tarde e embriagado. Não assume responsabilidade por qualquer dano ao seu carro”.

Biu Penca Preta bancando o amigo da onça: entrou na loja pra comprar uma peça, justo quando o fiscal estava monitorando. Pagou e saiu rápido. O dono gritou: “Biu, esqueceu a nota fiscal!” E Biu: “Que nota fiscal? Você nunca me dá a nota, agora que tou apressado vem com essa conversa!”

Amigo meu me passou um conselho que passo adiante: se precisa de um médico urgente, não chame a ambulância, mas a polícia. Chega mais rápido e é garantia de atendimento nos hospitais. Os médicos não têm coragem de recusar a internação.

Penca Preta trabalhava no Departamento de Estradas de Rodagem. No seu primeiro dia de trabalho, pediram para ele fazer a cópia de uma chave. Em menos de dez minutos o funcionário novato voltou com um papel tamanho ofício que entregou ao chefe. Era uma fotocópia da chave, frente e verso.

Sem grana no Recife, Biu Penca Preta aceitou um serviço de guia de turistas em museu. Ao avistar dois esqueletos, uma senhora perguntou: “De quem é esse esqueleto maior?” “É de Pedro Álvares Cabral”, respondeu Biu. “E esse esqueleto pequeno ao lado dele?” “Deve ser Pedro Álvares Cabral quando era menino”, disse Biu, sem muita convicção.

Eu tinha dezoito anos quando deixei minha terra pela primeira vez, pretendendo percorrer sozinho todo o Brasil, de carona. Antes da viagem, minha mãe aflita fez a recomendação final: “E lembre-se, não fale com desconhecidos”.

Biu Penca entrou numa agência de empregos e preencheu um formulário. À pergunta “por que deseja trabalhar aqui?”, respondeu: “para adquirir experiência para um emprego melhor”. Não sabia ele que o momento em que a pessoa mais se aproxima da perfeição é quando preenche um formulário de admissão a um emprego. Foi dispensado da entrevista.

Prova de admissão à Rede Ferroviária. Conhecido professor tinha boas amizades na empresa e arrumou para que a prova fosse feita em seu colégio, com tudo combinado para ajudar os jovens amigos, entre eles Biu Penca Preta. Foi sugerido que fosse entregue a cada um a prova preenchida para aprovação geral. Distribuídas as folhas, Biu falou: “Eu quero uma prova nova. Esta é de segunda mão e já está toda preenchida”.

Trabalhando na repartição da estrada de rodagem, Biu Penca Preta foi chamado ao escritório: “Quando erramos seu salário no mês passado, adicionando 200 reais, você não reclamou. Este mês em que reparamos o erro e descontamos os 200 reais do seu salário, você vem reclamar?” “É que um erro eu ainda tolero e deixo passar, mas dois já é demais!”, respondeu Biu.

Esse Biu é uma pessoa que, digamos, representa risco para o crédito. Tentando arrumar um empréstimo bancário, pediram-lhe uma cópia de conta de serviço público como atestado de residência. Levou um aviso de corte de fornecimento de água.

Se você conseguiu terminar este texto, tem um bom senso de humor. Parabéns e volte sempre. Amanhã tem mais. Se não conseguiu terminar a leitura, deve ser uma pessoa solitária. Solidão é quando você é a única pessoa na sala que não entendeu a anedota.

domingo, 23 de maio de 2010

24 de maio – decadência e abandono


O norte-americano Samuel Morse patenteou em 1840 o primeiro aparelho para comunicação à distância, o telégrafo. Guilherme Marcone criou o telégrafo sem fio em 1896, emitindo e captando sinais a centenas de metros de distância. Esse foi o passo decisivo para a expansão das telecomunicações. E eu fui o último rádio telegrafista da Rede Ferroviária Federal, aposentado em 1999.

Depois, Morse inventou um código: um sistema de pontos e espaços que, combinados, podem representar letras e números. Quando atingiu seu máximo aperfeiçoamento, o código Morse pôde ser transmitido a uma velocidade de dez palavras por minuto. Cheguei a transmitir até 13 palavras por minuto. Fui um bom telegrafista, trabalhando nas estações de trens, recebendo e transmitindo mensagens de licenciamento dos comboios e avisos de todas as estações ferroviárias do Nordeste.

Recordo com saudade dos meus tempos de ferroviário, neste dia 24 de maio consagrado ao telegrafista, uma profissão extinta.

Nesta data, a cidade de Itabaiana lembrava o movimento revolucionário de 1824, quando os moradores de Itabaiana tiveram parte ativa em sangrentos combates travados no riacho das Pedras, entre as forças legalistas do Presidente Felipe Nery, sob o comando do Coronel Estevão Carneiro da Cunha. Os revoltosos eram comandados por Félix Antônio.

Era na ponte do riacho das Pedras que os alunos das escolas se reuniam para relembrar aquele fato histórico, reverência à bravura e altivez dos nossos antepassados nesta legendária terra paraibana, de tantos heróis e artistas excepcionais. Nesta data, há doze anos, era inaugurado monumento aos heróis do 24 de Maio, na ponte do riacho das Pedras. O prefeito mandou construir o marco comemorativo, “resgatando de uma vez por todas a memória daqueles que deram suas vidas em defesa da liberdade em nosso país”, como afirmou em seu discurso o professor Israel Carvalho. Projetado pelo arquiteto Jessier Quirino e construído por Odilon Targino, o marco tinha gravado: “Neste local, a 24 de maio de 1824, Félix Antonio Ferreira de Albuquerque e seus comandados, coerentes com os ideais de cidadania e liberdade, aqui escreveram uma das mais belas páginas de nossa história, conhecida como a Batalha do Riacho das Pedras”.

Atualmente o local está abandonado. O marco da batalha desapareceu, o mato toma conta dos aceiros da rua. O sítio histórico abandonado, na Rua Monsenhor Francisco Coelho, dá bem a ideia da depedração e degradação do nosso patrimônio histórico.

sábado, 22 de maio de 2010

Vivendo em off-line


Perdi os meus arquivos do livro “A voz de Itabaiana e outras vozes” e não sei como recuperá-lo. Quatro anos de trabalho diário. É perfeitamente legítimo que eu fique agastado, irritadiço e meio que desesperado. Mesmo porque já assinei contrato com o Banco do Nordeste do Brasil para editar a obra. Meu precioso arquivo foi para algum lugar incerto e não sabido, como diz o chavão policial. Se existe alguma possibilidade de recuperar, aceito sugestões dos companheiros técnicos.

O computador requer do seu operador cuidados especiais. Tem que salvar a todo instante, não pode pressionar certas teclas misteriosas que parece estar no teclado apenas para ocultar os arquivos mais importantes. A traça antigamente comia nossos originais, a certidão de nascimento e as contas atrasadas. Mas consumia devagar, dava tempo para que o dono promovesse a restauração. No PC, o jogo é instantâneo. Num piscar de olhos, você fica sem os documentos.

Meu contato com o modernismo da escrita eletrônica sempre foi débil, embaraçado e inseguro. Sou dos que usam o computador mais como máquina de escrever, sem atinar para outras funções do bicho. Aqui e ali aprendo lentamente a usar um recurso. Trabalho sempre em regime de cooperação com alguém mais esperto nesta área, geralmente um dos filhotes. Mas acontecem acidentes como o de ontem, e fico aqui pensando em me retirar do mundo encantado dos blogs, retomar a velha Olivetti, os maços de papel e a caneta para anotações. Quando começava a adorar esse poder em minhas mãos, de sempre encontrar alguém disposto a ler os desarrazoados aqui postados, a máquina me dá essa rasteira.

Vivi transições como todo mundo. Passei da tipografia manual com tipos móveis para a linotipo, e depois para o sistema off set. Fui telegrafista, depois operador de telex e trabalhei como datilógrafo. Encerrei a carreira para surfar na onda da globosfera, que já vai me viciando como uma droga calmante. A interatividade com o leitor é coisa de louco! Dá até uma certa neura.

Vou aproveitar o acidente para me livrar do vício da internet. Comecei a terapia, sei que a qualidade de vida vai dar um salto. Em vez de ler os jornais na tela, vou sair e comprar meu jornal na banca do Lourenço, bater um papo com os desocupados da área, tomar um refresco no barzinho, ir ao banco para saber meu saldo e pagar as contas, se tiver grana. Se quiser me orientar na estrada, compro um mapa e esqueço o Google Maps. No lugar do MSN, passarei a utilizar os torpedos do celular. Deixarei de escrever nos blogs, voltando a utilizar o papel, o lápis e, eventualmente, a velha Olivetti que ainda dá no couro. Para os fiéis leitores, peço os endereços físicos e mando tudo pelo correio tradicional. Sei que os compadres e comadres ficarão deslumbrados por voltar a ter o prazer de receber cartas. Para os blogueiros a quem leio diariamente, mando selos destinados à remessa das suas matérias regularmente, também por via postal tradicional.

Assim vou voltando aos velhos e bons hábitos de cidadão livre do alucinógeno chamado internet. E de quebra me livro da frustração e sentimento de perda que sofri ontem, no eclipse total de minha produção de quatro anos. Viver em off-line será a mais nova terapia a correr na internet, vocês vão ver. Quando virem, me digam. Mas por carta, faz favor.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

No purgatório com dor no ombro


Mais de dez dias sem caminhar, bursite no ombro direito, tomando antinflamatório por conta própria, fui ao médico e ele me deu uma injeção local.

Tou desanimado. O livro não sai do canto na gráfica, o lançamento gorou, doença por toda parte, lamentos e gemidos de dor, parece o purgatório de Dante, que no inferno ainda não adentrei, como diz o chavão dos locutores de pista.

Falar em locutor, tenho que gravar um programa de rádio do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar que estréia dia 29 de maio. Falta estúdio, equipamentos de gravação de áudio digital e disposição para correr atrás da pauta.

A concepção do purgatório como uma montanha é idéia de Dante, esse poeta tão imaginativo. O inferno sempre foi associado com o mundo subterrâneo e o Céu sempre foi visto como a morada dos deuses e dos por eles escolhidos. Se estou no purgatório, tenho que subir uma montanha imensa, com dores no joelho e ombro bichado. As portas do inferno estão sempre abertas, o caminho é fácil, aparecem até umas moças caridosas para ensinar o trajeto.

Domingo, dia 23 de maio,o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar vai receber o Vladimir Carvalho, monstro sagrado do filme documentário. Palestra e exibição de filme do Vladimir, além de tocata com o grupo de violões dos alunos do Ponto. Não estarei lá. A saúde faz seu chamado de alerta. Talvez não interesse a todos saber, mas como eu sempre faço questão de dividir minhas alegrias com meus queridos amigos e leitores, também me sinto compelido a dividir momentos não tão alegres.

C’est la vie!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Com LER não se pode escrever


Minha gente da Toca, eu ando alquebrado de uma asa: bursite ou lesão por esforço repetitivo (LER) no ombro direito, que me impede de escrever. Quem digita essas mal traçadas linhas é meu filhote, com má vontade. O texto sai composto pelo entrecruzamento de dois elementos: minha falta de habilidade/hábito para pensar e ditar com a falta de interesse no serviço do digitador. Lembra meu tempo de datilógrafo, obrigado a bater na Remington as baboseiras do delegado Tenente Brucuta, no ofício de escrivão “adoc”.
Sou obrigado a escrever todo dia para este blog, sob pena de perder meus dois ou três fiéis leitores. Por eles faço esse sacrifício. Tenho consciência da desimportância desse espaço na blogosfera, mas continuo achando que o motivo real dessa perseverância é um número cabalístico que vi hoje na estatística do meu blog: 10.900 leituras. Pelé comemorou mil gols, Romário idem, se bem que os gols do baixinho são mais suspeitos do que os do rei. (O digitador ta fazendo caretas de desaprovação!). Por que não comemorar meus 10 mil acessos? Forçadamente registro essa consagração, sem poder digitar o texto, mas adorando ler o que os leitores mais distantes me falam, me escrevem.

Para poupar mais sacrifício do digitador impaciente, colo abaixo alguns comentários dos meus compadres e comadres leitores(as).

Jorge João – Florianópolis:
“Fiquei muito feliz em ler seu texto, Fábio. Peço autorização para postá-lo no site da nossa ONG aqui em Florianópolis, pois estamos trabalhando pela valorização e reconhecimento de alguns profissionais, e o Gari é um deles. Não tivemos nenhuma homenagem este ano pois não tivemos tempo hábil. Agora só ano que vem, mas assim mesmo vou trazer à tona esse debate, aproveitando esse esquecimento da sociedade da data comemorativa importante. Abraço e vamos em frente na missão de cuidar do planeta e das pessoas. Abraço a todos e todas garis do Brasil! (Sobre a crônica “Hoje é dia do gari”).

Djane – (Uma gari do Rio de Janeiro)
Parabéns Fábio, pela lembrança destes que são esquecidos, mesmo estando sempre na frente de todos que passam na rua. Pela coragem de escrever sobre aqueles que denegriram a classe dos garis. Pela oportunidade de eu poder colocar meus parabéns e me sentir agregada nessa luta em se tentar derrubar preconceitos. Aqui, fomos denegridos, humilhados em público pelo poder público, por tentar defender o direito a insalubridade correta. Pode?!


Marina Gentile ( Salvador-BA):

“Parabens por lembrar o dia do gari. Oportuno lembrar que as pessoas necessitam de educacâo. Exemplo: nao jogar lixo pelas janelas dos carros, dos transportes coletivos, nâo jogar lixo no chão, etc. A midia deveria pegar carona neste dia. Jogar fora os preconceitos tambem!
(Para o texto “Hoje é dia do gari”)

Heitor Dias – Austrália (78 anos):
Fábio, apesar de ser eu um protestante, concordo em parte com você quanto a essas igrejas, tipo Universal do Reino de Deus, propagadoras da chamada teoria da prosperidade (dos donos das igrejas, apenas) e, o que é absurdamente verdadeiro, é o fato de esses templos estarem localizados geralmente em subúbios pobres e periferias, cujos habitantes, convertidos, fazem milagres para esticar seus minguados salários e depositá-los nas igrejas. Isso é cruel demais, e não existe qualquer prestação de contas desses pastores e bispos, e muito menos vigilância governamental.

Afonso Rego – Belo Horizonte – MG:
Perfeitíssima e mais que oportuna crônica.Curriculo de encher os olhos, me aguarde que vou ler mais. Parabéns Fábio. Abraço amigo.
(Para o texto: “A subcidadania te olha do fundo do poço”)

Mirtes CASSIA – Vitória de Santo Antão – PE:
Esse é um bom exercício, afinal iremos envelhecer mesmo. Essa terapia de observar o comportamento das pessoas, sejam elas idosas ou não, dá para escrever um livro, viu? Pense nisso.
(Para o texto: “Caminhando e sonhando”)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vladimir Carvalho no Ponto de Cultura



Em 23 de maio, o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar recebe o documentarista Vladimir Carvalho, para inaugurar o cineclube que leva seu nome. Nossa capacidade de produzir homens do quilate de Vladimir constitui uma herança, explicada em termos de genética social. Com a missão sagrada de proteger, divulgar e promover nossa cultura, o Ponto de Cultura é emanação natural da arte genuinamente itabaianense, e por isso nosso orgulho em receber o Vladimir para inaugurar o cineclube.

Essa pequena “proeza” de trazer o monstro sagrado do documentário a Itabaiana deve-se ao empenho do poeta Antonio Costta. No conjunto, a programação do aniversário de Itabaiana não se frustra graças ao trabalho amoroso desse pilarense em favor da cultura e da arte. O fato de não ter recursos suficientes disponíveis para fazer uma festa à altura de nossas tradições culturais não o deixa amargurado. Do quase nada consegue construir uma programação digna, decente e rica em manifestações culturais.

Vladimir Carvalho vai falar para a nova geração de itabaianenses, uma juventude sensível e fecunda, generosa e sedenta de cultura. Desde os amadores do teatro ao movimento de músicos, na variedade de seus componentes. Do cara do hip hop ao artesão, ali naquele Ponto de Cultura se assiste ao início de um processo de renovação cultural muitíssimo saudável, cujo ritmo, ao que tudo indica, será acelerado com o Cineclube Valdimir Carvalho.

Temos todas as condições para acompanhar a explosão do áudio visual que se vê na Paraíba nos dias atuais. O Ponto de Cultura já estrutura seu estúdio, vamos oferecer oficinas de edição e de realização de filmes, até que a gente possa se orgulhar realmente de ser o berço de Vladimir Carvalho, o homem do “País de São Saruê”, esse cineasta inovador que já é cidadão do mundo.

Toca do Leão vai à barra dos tribunais


Hoje, 19 de maio, estarei comparecendo à audiência para responder ação de indenização por danos morais que me moveu a senhora Maria da Glória Pordeus Gadelha, por suposta mensagem ofensiva à honra, imagem e nome da autora da ação.

Os blogs estão ganhando mais autoridade e, com as buscas na web facilitadas, ganham uma voz amplificada. Nunca pensei que meu blog tivesse tanta importância ao ponto de uma senhora tão famosa, compositora, ilustre filha de não menos ilustre família paraibana, sair dos seus cuidados para exigir reparação na Justiça por causa de um comentário meu publicado no blog.

Hoje mesmo recebi mensagem de um tal TopBlog dizendo que meu blog estava sendo indicado para receber o Prêmio 2010. Vejam só onde foi parar meu despretensioso Toca do Leão! Meu compadre Virgolino, que não é o Lampião, mas se compara pela brabeza e firmeza de convicções, me manda mensagem de apoio, junto com mais uma dezena de leitores. Amanhã publicarei, depois de apresentar ao meu advogado, porque do jeito que a coisa vai, tem que ter esses procedimentos para evitar processos.

No mundo offline, o impacto do processo contra a Toca do Leão foi quase zero. Deve ser por conta do meu total desprestígio, a despeito da fama e talento da dona Maria da Glória.

O advogado Ivan Cezar escreveu sobre o caso: “Como advogado com longos 25 anos de ofício, sempre tenho prudência em opinar sobre casos que estão na mão de um Juiz, cuja decisão será revisada por um órgão colegiado em grau de recurso. De qualquer modo, opinando genericamente, vejo com muita preocupação um momento que enseja ensaios claros de retorno da prática odiosa da censura. Creio que se faz necessário, por primeiro resistir, porque nada pode ser pior que a censura”.

terça-feira, 18 de maio de 2010

José Bonifácio & Marcelo José


De Mari vem a notícia com imputação supostamente demeritória para o comunicador Marcelo José, acusado de receber como assessor de imprensa da Prefeitura sem comparecer ao trabalho. A garra, o empenho e a atuação do comunicador em defesa de Mari em todos os veículos dos quais faz parte não contam?

Burlar a burocracia faz parte do sistema político brasileiro, isso é fato. Vem da tradição portuguesa, origem de nossas traquinagens. Consta que o grande estadista José Bonifácio só consentiu no movimento pela Independência depois que Portugal suspendeu o pagamento dos empregos que desfrutava sem exercer. Em Portugal, Bonifácio cumpriu vários empregos simultaneamente. Foi inspetor de minas de carvão, professor da Universidade de Coimbra e outros cargos. O inteligente brasileiro falava e escrevia corretamente o latim, o grego, o francês e o inglês, além do alemão. Poliglota como era, José Bonifácio arrumou uma boquinha na Academia de Ciências, por onde comissionou-se para correr a Europa “a fim de adquirir por meio de viagens literárias e explorações filosóficas os conhecimentos mais perfeitos”. Fez turismo à custa do erário, portanto, e por essas e outras foi acusado de prevaricação. Seus inimigos, entre eles Gonçalves Ledo, Marquês de Olinda, Marquês de Sapucaí, Calógeras e o escritor Euclides da Cunha o acusam até de ladrão. José Bonifácio de Andrada e Silva passou à História como o Patriarca da Independência, sem que essas denúncias de que não fazia jus aos salários recebidos tenha manchado sua reputação.

O nosso compadre Marcelo José é dominado por três paixões: o futebol, o radialismo e o mariismo, esta última num plano mais alto. O amor à sua terra natal não o faz esquecer jamais a Pátria de Adauto Paiva. Sempre que pode, comenta notícias de Mari, fazendo o papel de embaixador do Município na capital do Estado.

Ganhar dinheiro sem trabalhar é um sonho de muitos que parece impossível. Para outros é realidade. São cabos eleitorais pagos para bater palmas para seus líderes e outros agentes públicos que recebem sem dar a contrapartida em trabalho. Não é o caso de Marcelo José. Ele beneficia a cidade quando promove o nome de Mari nos meios de comunicação. Está sempre antenado com a vida mariense. Recrutado para o serviço de assessoria de comunicação, recebe seus proventos em troca desse esforço na promoção do Município.

Alguns dizem que o fato atenta contra os princípios morais, mas não se esqueçam de que a palavra “MORAL” deriva do substantivo latino mos, mores, que significa costume. É costume brasileiro receber salários sem efetivamente trabalhar no setor público, isso desde os tempos de José Bonifácio de Andrada e Silva, que afirmou em uma de suas obras: “A política é a filha da Moral e da Razão”. Esses arrumados já não suscitam escândalo algum desde os tempos de D. João VI. E o que é a razão senão a faculdade de compreender e ponderar os fatos?

Alguém escreveu em blog que o nosso comunicador deveria abrir mão do seu alto salário em prol dos cidadãos marienses que trabalham dia após dia com dignidade. Primeiro que não se trata de alto salário, tenho certeza, porque a Prefeitura de Mari tem um patamar salarial mais que modesto. Sei disso não por receber de lá, mas comparando com a realidade de municípios pequenos e pobres da Paraíba. Depois, o trabalho de Marcelo José merece ser remunerado pelo Poder Público e é digno. Marcelo recebe menos do que merece.

Existe a teoria da contraprestação com o contrato de trabalho, segundo a qual, o empregador remunera o empregado porque ele está sob sua subordinação, podendo ou não utilizar a força de trabalho deste, conforme os interesses da produção. Marcelo José é remunerado pela Prefeitura de Mari e presta seus serviços quando requisitado.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Enterrando as penas do passado


Dizem que se pode enterrar o passado, mas de alguma forma ele sempre consegue escapar. Não sei quantas vezes reli a coleção do jornal “A Folha” que pertence ao meu pai Arnaud Costa, antigo redator, gerente, repórter, cronista e tipógrafo deste que é o mais antigo jornal oficial do interior paraibano e que, no momento, encontra-se em estado de hibernação. Só agora percebo o pequeno anúncio publicado em 18 de julho de 1933:

“A fiscalização da Prefeitura avisa por nosso intermédio que serão presas todas as galinhas que forem encontradas soltas nas ruas e praças da cidade, e entregues ao Hospital São Vicente de Paula, onde ficarão depositadas para servir às necessidades alimentícias dos doentes ali internados”.

Era no tempo em que só se comia galinha quando um dos dois estava doente: ou a galinha ou o suplicante apreciador das penosas. As galinhas “capoeira” ou “caipira” também eram conhecidas por “pé duro” e “pé sujo dos terreiros”, resultado do cruzamento aleatório de várias raças. Sempre foram o pé de meia da população pobre, boas de criar soltas por serem rústicas e resistentes às doenças. Enchendo o papo, imagino que dezenas de galinhas viviam soltas pelas ruas da velha Itabaiana de 1933, sujando as calçadas da rua principal, cenário comum nas pequenas cidades. A partir do decreto do prefeito Coronel João Luiz Freire, os galináceos não tiveram vida fácil. Bobeou, ia pra panela do Hospital, servir de canja para os doentes.

Traçando uma breve e inconsequente leitura sociológica do caso, imagino que o prefeito anterior, o chefe político Fernando Pessoa, era um administrador liberal, que não se importava muito com a higiene da cidade. Compreendia as necessidades mais prementes do povo pobre de sua terra e deixava que criassem seus bodes, galinhas e porcos no meio da rua. Seu sucessor, Coronel João Luiz Freire, devia ser um sujeito mais autoritário ou, quem sabe, dotado de lampejos de modernidade e já pensasse em um projeto de código de postura para seu município pouco civilizado. Depois a proibição se estendeu a quem pisasse um canteiro público das praças bem cuidadas. Urinar ou defecar fora dos locais apropriados, jogar pedras ou arrancar frutos das árvores, tudo isso acarretava pesadas multas para os transgressores. Na época, conta-se que houve um pesado bate boca na Câmara Municipal, porque um vereador defendeu os cachorros da proibição de andarem soltos pelas ruas. “São os melhores amigos do homem, devem ter passagem livre”, defendia um vereador. Não se sabe o resultado de tão envolventes debates. Esse é o material com que é tecido o cotidiano das províncias. Fala-se até que um determinado vereador apresentou projeto proibindo os cães de latir depois das dez horas da noite.

Nos dias de hoje, percebe-se o vazio legal, ou a falta de autoridade, quem sabe o desinteresse puro e simples dos gestores públicos. Urina-se nas calçadas, ouve-se som altas horas da noite em altos decibéis, as praças e centro da cidade viraram feiras sem ordem, barracas espalhadas pelas calçadas e praças, enfim o caos urbano estabelecido, em pleno século XXI. Portanto, no ano de 1933, Itabaiana mostrava ter ordem e urbanidade. Regredimos?

domingo, 16 de maio de 2010

Hoje é dia do gari


Dia 16 de maio é o dia do gari, e no 21 de outubro comemora-se o dia do lixeiro. Oxente, e não é tudo a mesma coisa não? “O mais baixo na escala de trabalho”, segundo o boca de tabaco Boris Casoy, é na realidade o gari ou o lixeiro?

O psicólogo formado pela Universidade de São Paulo Fernando Braga da Costa, 27 anos, tornou-se figura notória na mídia, ao assumir a vassoura de gari por oito anos, “para estudar a vida desses trabalhadores”.

A profissão mais rejeitada pelas pessoas é a de gari. Meu pai dizia: “se não estudar, vai acabar varrendo a rua”. Dizem: “fulano não serve nem pra ser lixeiro”. Conheci um gari em minha cidade cujo nome era “Coceira”. Cidadão conversador e super preguiçoso, “Coceira” mantinha sua vassoura novinha em folha por falta de uso. Não me lembro quem foi meu primeiro professor, mas recordo do velho “Coceira” escorado na sua vassoura, conversando com todo mundo. Notabilizou-se pela preguiça e bom humor.

“Esses trabalhadores merecem nosso respeito”, discursam prefeitos corruptos. Mas pagam uma miséria, quando pagam, e deixam os pobres lixeiros serem comidos por todo tipo de doenças por falta de equipamentos de proteção. Bem fazia “Coceira”: mandava todo mundo se lascar, passava o dia fumando seu cigarrinho e rindo da humanidade. Como era uma figura popular e querida por todos, o fuleiro do prefeito não o mandava embora.

Com certeza não é só Boris Casoy que tem preconceito contra lixeiros. Imaginem o que muitas pessoas “famosas e importantes” deste país dizem e pensam dos mais humildes. O jornalista-canalha-patife-vagabundo-descarado-salafrário-cínico-hipócrita-nazista Borys é representante de classe daquela madame de imundo caráter que lava as mãos com álcool depois de apertar as mãos dos seus humildes eleitores.


Em concurso público para gari em São Paulo, até engenheiro fez as provas. O desemprego nivela todo mundo. No dia do gari, pense que gari não é lixo. Não sou dono da verdade, antes quero que ela seja minha dona. Mas gostaria de ter um encaminhamento para o problema do saneamento público. Onde jogar tanto lixo humano? Como descartar um sistema que nivela homens e detritos?

"O interrogatório é muito fácil de fazer, pega o favelado e dá porrada até doer. O interrogatório é muito fácil de acabar, pega o negão e dá porrada até matar. Esse sangue é muito bom, já provei, não tem perigo, é melhor do que café, é o sangue do inimigo". Esse é um dos cantos preferidos dos soldados do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro para incursões em favelas e comunidades pobres onde moram os garis e lixeiros. Esse lixo sistêmico não tem jeito de limpar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Você tem orgulho de quê?


Outro dia tomei um táxi com o pior motorista da Paraíba, terra que não é muito conhecida pela habilidade dos seus condutores. O cara mudava de pista sem aviso, colava nos outros carros, desatento ao que se passava ao seu lado. No tabeliê o adesivo: “orgulho de ser taxista”. O sujeito que quase me matou, desviando para uma via de saída no último momento, apertou minha mão quando chegamos ao destino, sorridente e orgulhoso.

Mais traumático foi outro doido do volante que atendeu ao meu sinal. Parou o táxi, entrei e anunciei o destino. O motorista seguiu pelo lado contrário. “É que nunca vou para onde os outros querem. Tenho personalidade”, explicou o rapaz, certamente orgulhoso não de sua profissão, mas de sua condição de piradinho da silva.

O sujeito se virou ligeiramente e lá estava escrito às suas costas: “Orgulho de ser gay”. Eu também gostaria de salientar, sem nenhuma falta de respeito, claro, que tenho orgulho de ser heterossexual, mas acho isso tão banal! Não presumo que a humanidade venha a querer saber o que eu faço da minha sexualidade entre quatro paredes. Aliás, a verdadeira medida de um homem não é o que ele faz quando está sendo observado, mas o que ele faz quando está sozinho.

À luz do fato de que todo torcedor é um imbecil, torço o nariz para as camisetas com a frase: “orgulho de ser corintiano”, ou flamenguista, ou vascaíno. Achei legal a camiseta com a frase: “Sou paraibano e não NEGO”. Para os estrangeiros: a palavra NEGO está escrita na nossa bandeira rubro-negra, aliás, uma das poucas bandeiras a ostentar palavras.

Quando eu era diretor de uma rádio comunitária em Mari, bolei uma frase legal e mandei fazer adesivos para automóveis: “Gosto de viver no melhor clima do Nordeste. Moro em Mari”. Fiquei orgulhoso de meu repentino talento para a publicidade. Depois descobri que a grande piada sou eu mesmo enquanto criador de frases de efeito.

Envelheceram juntos e o sexo tornou-se irrelevante. O coroa jamais deixou seu lado irônico. Mandou pintar na camiseta: “orgulho de ser brocha”. Outro gozador organizou um bloco carnavalesco com os amigos da rua: “Orgulho de ser corno”. Uma madame enfezada reclamou da falta de respeito na comunidade, sendo orientada a fundar seu próprio bloco: “Orgulho de ser puta”.

Por um fio de cabelo deixei de nascer na Paraíba. Poderia ter sido feliz no vizinho Pernambuco, mas acho ótimo ser feliz na Paraíba do Norte. Como todos os verdadeiros amantes, meu amor pela Paraíba jamais caiu na rotina. Meus cabelos se tornaram grisalhos, a velha Paraíba adquiriu flacidez em volta dos quadris, mas o tesão continua. Antes de ficar completamente metafórico, abro minha faixa: “Orgulho de ser paraibano”.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Memórias do futebol


Fui fantasiando, fui vivendo todas aquelas vidas que eu gostaria de ter vivido, enquanto meu pai hesitava entre um nome e outro, um fato histórico, uma data, sem admitir que estava ficando velho, com as lembranças meio que desordenadas. Seu testemunho não denotava tanto uma nostálgica saudade. Parece que aqueles personagens foram vistos hoje pela manhã descendo a rua, vestidos nos seus paletós de linho branco, com seus chapéus de massa comprados na loja de seu Mazu. Meu pai falava daquelas pessoas com uma espécie de esnobismo. Quase todos estão mortos, ele é um sobrevivente daquela geração de ouro.

Tentei levar a entrevista de acordo com o planejado, com perguntas em relação cronológica, conforme a ordem de ocorrência dos fatos. Um tanto desconcertado, acompanhava seus longos saltos, ligando figuras a episódios sem quase nenhuma ordem de distribuição no tempo.

Falávamos de futebol, sua e minha paixão. Dava para sentir o orgulho do velho cartola, uma das suas mais fortes identificações com a Itabaiana querida. Não gosta de falar de si mesmo. Modéstia que não impede o prazer de falar dos amigos e dos fatos passados. Entre as ocorrências mais importantes da história de nossa cidade nesses últimos 50 anos, lá está Arnaud Costa disponível para redigir o jornal, fundar o partido, organizar a escola de samba, erguer os alicerces do clube carnavalesco e promover o futebol. Nas horas vagas, defendia-se patrocinando a causa do amigo, do pobrezinho que não tinha advogado, como ótimo rábula que sempre foi.

No recuado ano de 1948, o mundo assistia a fundação do Estado de Israel; a tomada do poder na Checoslováquia pelos comunistas; a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos; o assassinato de Mahatma Ghandi, líder espiritual e dirigente da luta pela independência da Índia e a vitória do meu glorioso Botafogo Futebol e Regatas contra o Vasco da Gama por 3 a 1, diante de mais de 50 mil torcedores no Estádio de General Severiano, no Rio, na decisão do título carioca daquele ano. Em Itabaiana, reuniram-se os senhores Adonias Cabral, Olívio Luiz da Silva e João Cavalcante para organizar uma nova agremiação de futebol que recebeu o nome de União Esporte Clube.

Isso se deu no dia 20 de abril. Essa lembrança detonou um impulso instantâneo e irresistível na memória do meu pai. Não precisou formular nenhuma pergunta, ele já listava os nomes das pessoas envolvidas na fundação do time. O primeiro presidente foi Neco Frizo, um rapaz franzino que queria imitar Zé da Luz, declamando poemas de pé quebrado nas esquinas. Muito querido na sociedade de então, Manoel Leite de Melo, seu nome, foi aclamado para dirigir o novo esquadrão recém-nascido. De forma que chamou para ser o vice-presidente José Batista de Lucena, e para Presidente de Honra foi convocado um homem rico, o fazendeiro Arnaldo Maroja. Entre tantas incertezas diante do futuro de um time de futebol amador interiorano, é sempre bom garantir apoio financeiro para as horas de aperto. Para secretariar os trabalhos, por unanimidade foi escolhido o jornalista José Cecílio Batista Filho, redator do jornal oficial “A Folha” e político atuante. Como sócios benfeitores, constavam os nomes do oficial de cartório José Bandeira Júnior, José Dias Pacheco e o senador Rui Carneiro, grande líder da política naquela época. Para o cargo de técnico do time, foram chamar Antonio Bezerra Jácome nas fileiras das Forças Armadas, um cabo corneteiro que entendia de futebol, o afamado Cabo Totô, figura imortal da velha Itabaiana.

Esse acontecimento superou os demais naquele ano, para a sociedade itabaianense. Afinal, não era todo dia que se reuniam figuras de escol do quilate do jornalista Emerson Souto Camilo, o também jornalista Arnaud Costa, os comerciantes José Nunes Machado e João Luiz Freire, o prefeito da cidade, Luiz Paulino da Silva, os empresários José Aurélio da Costa, Sebastião Miranda e Severino Araújo, além dos líderes políticos Coronel João Luiz Freire, Dr. Ivon Rabelo, Dr. Antonio Batista Santiago e deputado Janduy Carneiro, anotados como os primeiros sócios beneméritos da nova associação de futebol itabaianense. Assim nasceu o União, rodeado da elite da cidade, apoiado pelos homens mais ricos do lugar e organizado pela fina flor da intelectualidade local.

Entre beneméritos, benfeitores, comissão fiscal e diretoria, houve uma espécie de similitude e harmonia entre as pessoas da elite local, no intuito de formar uma equipe de futebol forte e promissora. Meu pai foi o orador oficial da primeira diretoria. Anos depois, dirigiu o time por diversas vezes. Era, no meu entender, a maneira natural e lógica do viver do meu progenitor. Empenhava-se profundamente em tudo o que abraçava com entusiasmo e gosto intenso. Ao lembrar o seu União, ainda hoje os olhos do velho cartola ficam visivelmente molhados de lágrimas.

Parei a entrevista porque por um momento tive a impressão desconcertante de que meu pai interrompeu de forma brusca suas lembranças. Há muitos anos fora de sua terra natal, ele olhou para mim com solenidade: “Quando morrer, quero ser enterrado com a bandeira do meu União Esporte Clube”. Nem perguntou se o time ainda sobrevive ou se é apenas um conjunto de imagens felizes no seu pensamento de ancião.

Viva Zumbi!


No dia 13 de maio de 1988, foi abolida oficialmente a escravidão no Brasil. Mas passaram-se anos até que esse aleijão moral do País fosse definitivamente banido. Depois do 13 de Maio, foram precisos mais 80 anos até que os tribunais decidissem finalmente que a Lei Áurea estava conforme os ditames legais. Enquanto rolava a briga jurídica, nos confins desse imenso Brasil os negros continuaram sendo escravizados, o tráfico seguia sua lógica mercantilista.

Se a Inglaterra não pressionasse, o cativeiro teria mais longa vida. Depois que a regente assinou a lei, o Barão de Cotejipe estava entre os que foram cumprimentá-la. Ao beijar-lhe a mão, o barão teria dito: "Vossa Majestade redimiu uma raça, mas acaba de perder o trono". Não deu outra: a Princesa caiu com toda a Monarquia.

Antes, foram aprovadas algumas imposições contra a escravidão, entre elas a lei do ventre livre e a lei que concedia liberdade aos cativos maiores de 60 anos e estabelecia normas para a libertação gradual de todos os escravos, mediante indenização. Na verdade, a Lei dos Sexagenários voltaria a beneficiar os senhores de escravos, permitindo que se livrassem de velhos "imprestáveis". Era a nossa burguesia infame treinando para chegar à UDN, Arena, PFL e Democratas.

Os brasileiros descendentes de africanos, aqueles que têm consciência política, não festejam o 13 de Maio. Em 20 de novembro lembram Zumbi, o líder negro do Quilombo dos Palmares. Serve como um momento de conscientização e reflexão sobre a importância da cultura e do povo africano na formação da cultura nacional. Nesse 13 de Maio, é bom procurar saber se nas escolas já foram incluídas disciplinas e conteúdos que visam estudar a história da África e a cultura afro-brasileira. É obrigatório, mas, igual à lei da abolição, pode ou não “pegar”.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Edmilson Batista


Meu pai Arnaud Costa foi companheiro e amigo íntimo de Edmilson Batista, falecido recentemente em Itabaiana. No terreno da política, os dois marcaram época nas fileiras do antigo PSD, depois MDB. Edmison foi um homem público cuja elevação de caráter o distinguia como cidadão digno de confiança e respeito.

Edmilson Batista foi um dos que gerenciaram em certa época o jornal oficial do município, nosso esquecido “A Folha”. Escrevia bem, sempre voltado para os interesses de sua Itabaiana, objeto do seu amor por toda a vida.

No fim das contas, grande parte daqueles cidadãos ilustres de um passado recente em nossa terra está desaparecendo, cumprindo o ciclo natural. Fica para as novas gerações o exemplo de amor pela terra onde nasceu e viveu e a ética no trato das coisas da política. Sim, porque já se disse que antes, a política era arena de homens de bem, e hoje é antro de gangsters, propensos à degeneração moral. Mas isso é outra história.

Fica aqui nosso adeus a Edmison Batista, nesse momento histórico em que se sai pelas ruas com uma lanterna na mão procurando um cidadão digno e honrado, imitando o grego Diógenes.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Peixe fresco, nem na praia


Porque esta vida
É sempre um desfilar safado de idéias
E neste jogo, eu não escondo o jogo
Tem sempre alguém
Vendendo o mesmo peixe
Dizendo que é fresco
Será que alguém já desconfiou
Como eu desconfio
Que sempre se repete, se repete, se repete
Mas pouca gente cria? (Ednardo)


Amigo meu me tem na conta de bom escritor, poeta, memorialista e cronista. Não concordo. Sou um escritor que ainda não existe. É trágico e engraçado, mas verdadeiro. Ando me construindo como escritor há uns 40 anos, quando comecei a editar jornais e escrever uns poemas tão ruins que não passam de crimes infanto-juvenis premeditados. Copiando o poeta Naldo Velho: “Crime premeditado/de quem assumiu a condição de poeta/e que sendo por natureza um tolo/fez da palavra um consolo/pois a sentença final é: culpado!”

Sobrevivo de imitar os textos dos outros, dos caras realmente bons, que sabem criar conteúdos mais ou menos originais. Desconfio, como o grande compositor cearense Ednardo, que todas as obras de arte são geminadas. Alguém que copiou de alguém, que copiou de alguém...

Tentei ser um poeta moderno, ultrarromântico e depois ultracínico. Mergulhei na poesia de protesto, escrevi um poema chamado “Pátria armada” que rendeu um livrinho magro e desidratado. Acabo de afundar nas rimas do cordel, com muito gosto. Ensinaram-me que não devia me meter em poesia popular, que é seara alheia. Trata-se de uma espécie de aviltamento da arte dos poetas repentistas ou de gabinete, como costumam designar o trovador que escreve os chamados folhetos de feira. Eles, os menestréis de rua, violeiros e versejadores do povo, que me desculpem, mas passei a gostar de construir sextilhas. Dou-me o prazer de fazer meus versinhos de pé quebrado, conforme aconselha Mário Quintana: “Todos deveriam fazer versos, ainda que saiam maus. É preferível para a alma humana fazer maus versos a não fazer nenhum. Qualquer poema é uma aventura, boa ou má”.

Uma ideia que povoou meu imaginário de infância: só considerava escritor o cara que editava livros de capa dura. Conforme fui crescendo e vendo como se joga o jogo do rato, passei a ter a certeza de que o verdadeiro escritor é aquele que não paga para imprimir seus livros e ainda ganha dinheiro. Nunca mercadejei com minhas obras recalcitrantes, mas tenho o orgulho besta de afirmar que também jamais tirei dinheiro do bolso para editar meus cinco livros que aos trancos e barrancos vieram à luz. Mesmo porque, nem sou mágico para tirar capital excedente dos meus mal providos bolsos. Para ser mais exato, é no tesouro do Estado onde busco recursos para as publicações. O Governo financia meus livros, que são distribuídos quase de graça.

Creio que o Governo criou projetos de inclusão social dos escritores medíocres, e é nesses que me encaixo. Agora mesmo a União Editora lança um livro meu, o “Biu Pacatuba – Um herói do nosso tempo”, o que já é motivo de sobra para algum excesso de amor-próprio, algo creditável de valor e honra. O livrinho deve ter passado por algum crivo. Alguém apreciou e aprovou sua publicação. Algum mérito deve ter a obra que fala de lutas do povo e heróis anônimos.

O projeto gráfico é assinado pelo meu filho Helder Mozart. Elegi a poesia de cordel para falar de um homem notabilizado pela coragem e determinação na luta contra os senhores da terra. A saga de Biu Pacatuba, sua família e seus companheiros martirizados pelo latifúndio estará brevemente na caixa postal dos meus amigos e raros leitores, a custo zero. Enfrentei com destemor a construção de mais de 500 sextilhas para contar essa história, com paciência e, o mais importante, sem repugnância por estar copiando o estilo ou enredo de terceiros. Enfim, sou original entre os simples!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Hiato memorialístico


Em fevereiro de 1992, o jornal “A Folha” publicou crônica de minha autoria, onde exaltava este jornal, mais antigo em circulação no interior da Paraíba. Foi por ocasião dos festejos dos 65 anos do nosso jornal oficial. Eu dizia que num país que conta 40 milhões de analfabetos, a simples existência de um jornal do interior só é possível pela dedicação de uns poucos e pelos raros clarões de lucidez dos homens públicos. Na crônica, os votos para que “A Folha” se robusteça e vá em frente impávido. Aproveitando a efeméride, nós leitores temos que fazer carga positiva para o pessoal lá de cima, prefeito, secretário e demais responsáveis, para não deixar a peteca cair.

Com o tema “a verdade acima de tudo” escrito em latim no cabeçalho, “A Folha” participou de todos os grandes acontecimentos de nossa história. Teve seus dias de glória quando circulava semanalmente. Itabaiana nunca foi tão cultural, tão ciente dos seus valores como naqueles dias de apogeu do nosso jornal oficial. É preciso repetir até a náusea que temos 40 milhões de analfabetos e mais outros tantos vivendo em estado de pura pobreza. Naquela época de ouro havia um futuro. Hoje, diante do descalabro desses tempos sombrios de ignorância e menosprezo aos nossos valores culturais, dá aquela vontade de se agarrar ao passado, quando Itabaiana era comparada à própria capital em cultura e progresso econômico.

Continuando a crônica: “Estou escrevendo para você, leitor do ano 2.050. Aqui, em 1992, ainda sobrevive um jornal da imprensa matuta. Você certamente deve estar rindo de nossa fragilidade tecnológica, mas quero dar testemunho de que, numa pequena cidade do interior da Paraíba, o jornal “A Folha” articula um novo número após 65 anos de existência, sempre resistindo e mantendo a tradição de revelar novos valores como esse André Ricardo Aguiar, que está escrevendo como gente grande”.

Eu falava do poeta itabaianense André Ricardo Aguiar, filho do redator do jornal, Geraldo Aguiar. Trata-se de um talento em potencial. Seu microconto “Vida de circo”, publicada no nº 21 d’A Folha, é uma preciosidade. A literatura é o espelho de nossa sociedade e de nosso tempo. Se ainda existe um Ricardo Aguiar amadurecendo sua vocação neste jornal, a luta tem que continuar sendo travada porque vale a pena. A recompensa maior será a de celebrar o talento. Mesmo que “o circo dos nossos sonhos continue nos nossos sonhos, porque o circo está em crise e só falta pegar fogo”, como bem diz o Ricardo no seu conto antológico.

Hoje, dezoito anos depois de publicada esta crônica, um dos maiores patrimônios culturais de Itabaiana já não circula. “A Folha” espera passar a mediocridade desses tempos inexpressivos culturalmente para voltar a vingar, como uma plantinha resistente e renitente que já tem 83 anos de vida. Seria um hiato memorialístico a sua desativação, como bem escreveu o redator neste mesmo número de fevereiro de 1992.

domingo, 9 de maio de 2010

A mãe taurina


A cartomante Mãe Preciosa analisa para a Toca do Leão, com exclusividade, o signo de Touro - 21/04 a 20/05 – com referência à mãe, sendo hoje dia das genetrizes, conforme a linguagem formal do meu compadre Romualdo Palhano.
Quem tem genetriz nascida entre 21 de abril e 20 de maio, confira aí o perfil da mulher que lhe deu a luz.
A mãe taurina é aquela que se esmera para fazer uma comida gostosa e deixar a vida bela. Ela capricha na arrumação da casa, da mesa e da vida, além de dar uma forcinha na hora de atualizar o guarda-roupa dos filhos, ensinando-lhes como causar a melhor impressão possível.

Depois, seu prazer é exibir os rebentos com orgulho. Se não toma cuidado, transforma-se em mãe coruja e, com o passar do tempo, torna-se possessiva. Ela faz até cara feia quando suas belezuras saem pelo mundo destruindo corações.
Segundo os astros que não mentem jamais, a mãe taurina é sociável, amável, compreensiva, elegante e voltada para o mundo. Ela educa seus filhos por meio do diálogo e do respeito à diferença, com uma atitude despojada em relação às outras mães do Zodíaco.

Ela recebe seus amigos muito bem, encoraja você em suas andanças pelo mundo. A taurina conquista pela conversa. Educação, bons modos, cosmopolitismo e capacidade de controlar os sentimentos são suas armas no papel de mãe.

Para presenteá-la, prefira objetos de arte para que ela possa mostrar aos amigos que você tem bom gosto e sabe entender sua alma sensível.

Já os filhos taurinos são desconfiados, vingativos, obsessivos, rancorosos, vagabundos, frios, cruéis, antiéticos, sem caráter, traidores, orgulhosos, pessimistas, racistas, egoístas, materialistas, falsos, maliciosos, mentirosos, invejosos, cínicos, ignorantes, fofoqueiros e traiçoeiros. Enfim, um canalha completo. Só ama sua mãe e a si mesmo. Aliás, alguns deles não amam nem a mãe. Conheço um que é capaz de vender a mãe e não entregar, só pra vender de novo. São imprestáveis e deveriam ter vergonha de ter nascido. Pelo mapa de Mãe Preciosa, taurinos são tiranos por natureza. São ótimos nazistas ou fascistas. Uns filhos das putas.

Preciosa pegou pesado! Desconfio que é por causa de uma antiga despeita com seu empregado Sonsinho, que é do signo de Touro e tem uma mãe que é uma “mãe de leite”.
Tema de hoje: “Eu amo a sua mãe”, canção breguíssima com Lindomar Castilho.

sábado, 8 de maio de 2010

Seria José Bezerra filho de Itabaiana?


Na nossa busca incansável dos valores da terra, que a atual geração tem o dever de reconhecer e destacar, pinçamos o nome de José Bezerra, que é para a cultura paraibana um extraordinário homem de teatro, além de jornalista. José Bezerra é autor da peça “Enquanto não arrebenta a derradeira explosão”, um marco da dramaturgia paraibana.

Não afirmo peremptoriamente que José Bezerra seja itabaianense, mas desconfio que Itabaiana seja seu berço a partir de crônica publicada no jornal O Norte, de 8 de setembro de 1992, onde o jornalista Benedito Maia transcreve um diálogo com o ex-governador Ernani Sátyro:

“Todos os dias, ao ver um dos seus assessores de imprensa, o jornalista e dramaturgo Gilvan de Brito, o governador perguntava:

─ Amigo velho, como vai Itabaiana?

─ Não sou de Itabaiana, Governador. Quem é de lá é o seu fotógrafo José Bezerra.

─ Muito bem, amigo velho.

E no dia seguinte, ao ver Gilvan, perguntava:

─ Amigo velho, como vai Itabaiana?”

Daí a dedução sobre a “pátria” deste homem de teatro. A verdade é que José Bezerra cultivou um teatro de alta qualidade, com alguns textos de sua autoria publicados com patrocínio do Estado, quando a Paraíba se dava ao luxo de financiar a cultura.
Uma das mais ricas e complexas formas de arte, o teatro teve em José Bezerra um criador indispensável para a evolução do universo cênico na Paraíba. Hoje, José Bezerra já não escreve nem atua plenamente, e infelizmente seus textos desapareceram de nossos palcos tão pobres de forma e conteúdo. Mas aqui fica a incógnita: seria José Bezerra filho de Itabaiana?

Sobre o assunto, recebo mensagem do companheiro teatrista Osvaldo Travassos Sarinho: “Mozart, acho que o Zé Bezerra de Ernany Sátiro é outro. O nosso cineasta dramaturgo, diretor, ator, cantor, escritor e bancário do BB aposentado deve ter nascido no bairro da Torre. Pelo menos sua infância se passou assistindo as "fitas" do Cine Metrópole, segundo seu último romance. Um abraço a ele extensivo a você”.

ISSO SIM É LIÇÃO DE VIDA!


Muito Obrigado pelo Ensinamento...Sr. HAROLD

Uma filosofia de vida!

"Muitas pessoas me perguntam: ‘O que os velhos fazem quando se aposentam?’
Bem, eu tenho sorte de ter uma formação em engenharia química, e uma das coisas que eu mais gosto é transformar cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas em urina "


Harold deverá ser uma inspiração para muita gente.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Deixem-nos no quartinho dos fundos

Daciano Alves de Lima foi um homem imprescindível em Itabaiana. Houve época em que Daciano era presidente de tudo em sua terra: da banda 1º de Maio, da União de Artistas e Operários, da escola de samba, do Clube Carnavalesco Taiobas, da Câmara de Vereadores, da rádio comunitária e do time de futebol. Era tão meritória sua vida em nossa província que mereceu reportagem de página inteira na revista “O Cruzeiro”, a maior publicação da América Latina naquele tempo. Famoso maestro compôs um dobrado em sua homenagem. O título: “Dobrado Presidente Daciano”.

Em memória do seleiro Daciano, mestre também na arte de trabalhar o couro, o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar tem a honra de trabalhar com seu neto, o violonista e compositor Vital Alves, um artista incomum. Como um rio crescente de artistas que se unem, ameaçando se tornar um Amazonas de criatividade, o Ponto de Cultura sofre por falta de um espaço digno para acomodar seu teatro, a biblioteca e o futuro museu de arte popular.

Ainda não se dimensionaram, corretamente, a importância de um Ponto de Cultura numa cidade como Itabaiana. Houve uma grande expectativa em torno do projeto do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Os agentes que trabalham nas mais diversas áreas da cultura seriam reconhecidos pelo governo e passariam a receber recursos para ampliar as atividades de acordo com suas conveniências: recuperar espaços físicos, contratar oficineiros, criar informativos. Mas isso não se comprovou na prática. A grana do Governo só pode ser empregada no pagamento de oficineiros e compra de equipamentos. Resultado: não temos onde morar.

Voltando ao mestre Daciano, foi ele quem criou a União dos Artistas e Operários de Itabaiana, pelo menos foi quem deu vida, estruturou e dirigiu por muitos anos. Com sua morte, aos poucos a União foi sendo abandonada, só restando os escombros de sua sede. A prefeita atual, dona Dida, recebeu o prédio por comodato, onde instalou um telecentro. Ficou a área dos fundos, onde bem poderíamos construir a sede do Ponto de Cultura. Vai daí nosso apelo à prefeita e ao Secretário de Cultura, Dr. Pedro: cedam o quartinho dos fundos para o “Cantiga de Ninar”, que o mestre Daciano certamente aprovaria tal gesto de favorecimento a um projeto tão meritório e determinante para nossa vida social e cultural.

Dom Quixote de Mari


Não há como negar: Mari é um dos municípios que mais investem em cultura na região do baixo Paraíba, além de Sapé e São José dos Ramos. Com um dado curioso: em Mari, o investimento vem a custo quase zerado para os entes públicos. Como se dá esse milagre? Pela fé e entusiasmo de um sujeito, emérito filho da terra do folclorista Adauto Paiva, que dedicou sua vida pela difusão e preservação da cultura popular.

Pouco importa que a insensibilidade de alguns não permita o investimento em cultura como seria razoável. Raros são os gestores públicos que compreendem o efeito das ações culturais na imagem de uma comunidade e a respectiva contrapartida em desenvolvimento. Mari, pelos seus artistas e produtores culturais, constrói sua fortaleza de proteção aos bens imateriais e faz com que as novas gerações consumam produtos culturais de qualidade. Sob o amparo do galego da cultura, Neneu Batista, nomeado diretor de Cultura do Município.

Ele não fez como muitos, que pegam o cargo apenas para garantir seu salário. Ganhando pouco e sem quase nenhuma grana para seus projetos, Neneu Batista usa a imaginação, o poder de aglutinar as pessoas em torno de ideias comuns e o amor pela cultura de sua gente para promover cinema, teatro, artesanato, artistas e expressões culturais do povo em inúmeros projetos em benefício do seu centro do universo, que é Mari.

Para ser honesto, tenho também na maior consideração o poeta Antonio Costta, subsecretário de Cultura de Itabaiana, mas este já trabalha com mais autonomia, tem panos pras mangas, como se diz. Graças a ele e a mais alguns perseverantes sujeitos na terra de Zé da Luz, a cultura do lugar ainda não sumiu na voragem do engodo institucional e da irresponsabilidade de quem tem o dever de zelar pelo que é nosso, notadamente o bem maior de uma comunidade, que é sua própria cultura.
Neneu Batista é assim uma espécie de Dom Quixote a acreditar na vitória dos bons contra interesses mesquinhos e mercenários que vêm acabando com nossas tradições culturais mais nobres. Foi graças ao seu empenho que tivemos aprovado o Ponto de Cultura Ligas da Cultura, do assentamento Tiradentes. Mergulhado na ciranda burocrática, o pessoal do “Tiradentes” jamais seria vitorioso na conquista desse importante equipamento de fomento cultural sem o auxílio do Neneu.

Sem comodismo, o galego Neneu Batista segue batalhando pela cultura de sua terra. Sempre na esperança de que a comunidade saia da letargia e os poderes públicos despertem para a necessidade da proteção e difusão da cultura e arte. Nas pequenas ações cotidianas junto ao chamado Terceiro Setor, a Diretoria de Cultura de Mari vem dando conta do recado. É assim que se constrói política pública cultural, com humildade, ouvindo as pessoas. Osvald de Andrade, na “Marcha das utopias”, disse que “no fundo de cada utopia não há somente um sonho, há também um protesto." A luta de pessoas iguais a Neneu Batista é uma forma de indignação pela indiferença dos que poderiam fazer muito pela preservação do conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos e costumes do povo e nada fazem de concreto.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Romualdo Palhano finaliza obra sobre o teatro em Itabaiana


O Doutor Romualdo Palhano está finalizando o livro "O Teatro em Itabaiana - Da União Dramática ao GETI". Para quem não sabe, o GETI é o Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana, que fez história na arte cênica a partir da década de 70 nessa cidade. Ele pede os originais das peças que encenamos nesses mais de trinta anos de atividades do grupo teatral para incluir na obra. Romualdo fala do grupo amador e suas peripécias até 2008 e pede a quem possuir fotos ou qualquer material sobre o tema para colaborar com esse apanhado histórico, enviando para seu e-mail: palhanojp@gmail.com

No dia 27 de junho vamos receber nosso amigo Romualdo Palhano, que chega de Roraima onde reside atualmente, ensinando na Universidade Federal de lá. Ele me pede para prefaciar sua obra sobre nosso grupo teatral, julgando-me um privilegiado porque testemunhei todas as fases do grupo, como um dos fundadores e principal dramaturgo. Vou fazer então um breve histórico do GETI e dos seus principais componentes.
Considero Romualdo um mestre supremo do teatro na Paraíba. Poucos pesquisaram tanto e dominam o assunto como o nosso dramaturgo. Fez doutorado em Cuba, sempre enraizado na temática do teatro paraibano, até chegar aqui na sua Itabaiana querida, terra onde aprendeu a compreender os refinadíssimos códigos do fazer teatral, no mesmo Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana que agora expõe em livro. Descobriu que Itabaiana já fazia teatro no final do século dezenove, na Rua Treze de Maio, onde funcionava um teatro com o nome de “União Dramática Itabaianense”. Será uma obra de fôlego, como se diz. O livro será utilíssimo para atores, críticos de teatro, encenadores, autores, professores e alunos. E na estante do itabaianense, não poderá faltar.

Tinha a idade de 20 anos quando fundei o GETI. Romualdo é mais novo uma coisinha. Na máquina do tempo onde viajamos em direção ao futuro, o tempo saltou de repente e nos vemos hoje maduros, com uma espécie de responsabilidade moral de contar nossa história para as gerações que virão. Não como valorização de nossos méritos, que isso é coisa vã. Não devemos ter a presunção de sermos notabilizados pelos feitos. Só a tenacidade e abnegação de alguns é que merece realce nesses mais de 30 anos. Hoje, outros jovens empunham a mesma bandeira da cultura e da arte. É para eles que Romualdo conta nossa história, não para servirmos de modelo, mas no intuito de valorizar o que fazem, porque tem substância e marcou um período histórico.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Diálogo improvável


─ Você não tinha morrido?

─ Ah! Mas isso foi há muito tempo... Não há morte. A vida é contínua, ilimitada, eterna.

─ "Viver acaba nos fazendo morrer", bem disse o ator Paulo José. Considero a frase irretocável.

─ O destino ordenou que eu viesse lhe ver.

─ Pois é... Estamos todos velhos. Você, por exemplo, só não assistiu ao dilúvio porque não foi convidado, mas ainda pisou na lama.

─ Gracioso! Você, sempre de uma estupidez congênita. E onde anda Jacira?

─ Jacira, tão presente na minha saudade. Só tenho este retrato dela.

─ “O retrato é apenas uma mentira que as pessoas emolduram de verdade, com medo da velhice”.

─ Mas como vai você?

─ Eu vou às vezes bem, às vezes mal, conforme a lua. E você?

─ Continuo como fiel depositário das dores do mundo.

─ Verdade...

─ “O que é a verdade?”, perguntou Cristo a Pilatos.

─ Mas, Jacira? Tenho sonhos recorrentes com ela. Sonhos eróticos.

─ Sempre soube que ela foi sua amante.

─ Desejei-a muito, mas nunca adulterei com ela.

─ Quem olha uma mulher para desejá-la, já adulterou com ela em seu coração.

─ Fala como um pastor tradicionalista. Se não há um homem que não tenha olhado para uma mulher para desejá-la, então somos todos violadores da fidelidade conjugal. Penso que se desejo uma mulher, recai sobre mim o mesmo delito de a ter possuído.

─ É lógico. Assim, podemos todos nos entregar sem medo do inferno aos prazeres do sexo.

─ Reúna suas mais distantes lembranças para imaginar esses prazeres. É o que nos resta...

─ Jacira. Era uma mulher e tanto. Apenas um pouco insolente. A petulância daquela mulher lhe trouxe a antipatia de todos, menos a sua.

─ Gosto das mulheres prepotentes.

─ Acho que você a amava.

─ O amor, como a medicina, é tão somente a arte de ajudar a natureza. Não foi o nosso caso.

─ Um ciclo foi cumprido. Eu sou inferior a ela hierarquicamente na escala da humanidade.

─ O grande canalha Arnaldo Jabor garante que o amor “é uma bobagem inventada pelos poetas provençais do século XIII e traduzida pelos irmãos Campos”. Antes não havia amor, só sacanagem e sólidas amizades.

─ Isso é como sífilis: quando você acha que já foi embora, a coisa volta.

─ O amor é um barato que já foi legal, mas está superado. Há outros esportes mais modernos. Isso também é do Jabor.

─ Amigo, como desabou seu gosto literário!

─ Você nem sabe, mas sou autor de notáveis proezas sexagenárias! Tenho uma amante mais ou menos estável.

─ Vou considerar como verdade o que diz. A verdade tem muitos nomes e atende a quem chamar mais forte. No seu caso, a capacidade de evocar imagens do passado é admirável. E muito robusta.

─ Ironias à parte, pra aumentar meu cacife literário, cito Maciel Melo: “Não sei se morrendo vivo, mas sei que vivendo morro.”

─ Onde mora atualmente? Saiu do seu lugar naquele subúrbio?

─ Aquele lugar é muito grande, só cabe em mim. Meu universo pessoal. Foi lá onde conheci Jacira. Onde eu estiver, terei sempre meu universo, que independe do geral.

─ Eu moro entre flores, no campo santo. Gosto daqui. Não lhe dou meu endereço para evitar a aflição de esperar cartas.

─ Mas como é que é? Você já foi ou ainda é?

─ Tenho uma timidez que vai comigo ao túmulo. Nunca me declarei a ela. Hoje eu navego por instrumentos. O céu está nublado, acho que vai chover.

─ Acredito hoje nos fantasmas que me habitam. Vou embora, então. E levo o inabalável propósito de nunca mais voltar.

─ É uma coisa capaz de me enternecer: a prosódia dos mortos. Você fala bem. Eu vou gastando o meu latim para explicar a Jacira que estou falto de vida, mas pleno da arte de excitar as almas.