terça-feira, 4 de março de 2014

Prazeres inúteis

Taí um livro que eu gostaria de ler nessa quarta-feira de cinzas, depois de fazer um inventário dos prazeres digamos, alternativos, onde me refugiei da grande festa da carne. Já fui bom nisso, já brinquei, fui pastora e fui rei, hoje estou na moita, sem ao menos ver de longe essa onda alucinada de prazeres.

Mas eu estava falando de um livro cuja resenha li na internet. Trata-se de “O livro dos prazeres inúteis”, escrito pela dupla Tom Hodgkinson e Dan Kieran, escritores britânicos. Claro que eles não tratam de carnaval e suas loucuras coletivas. A obra apresenta-se ao leitor como “um antídoto contra a nossa cultura da velocidade e do trabalho”. Viaja em prazeres simples como passear sem rumo de noite, olhar estrelas, essas coisas. Sem faltar o gosto que é usar o sanitário lendo um bom livro ou mesmo um almanaque, fazendo palavras cruzadas ou pensando numa composição poética. São tão diversos os prazeres, não se gasta nada, alimenta nossa demanda de bem viver na simplicidade. De repente, a chuva nos apanha no meio da rua. "Não corra, ande devagar. Olhe para cima, sorria e saboreie a sensação da água vinda do céu a lhe refrescar a cara desgastada pelas preocupações”, diz o livro, recomendando que “quanto mais molhado ficar, mais livre irá se sentir.”

Susan Sontag pensou que um escritor precisa ser quatro pessoas: um louco obcecado, um idiota, um estilista e um crítico. “O louco cria o material, o idiota traz ele de dentro pra fora, o estilista é o gosto e o crítico é a inteligência. A dupla que escreveu “O livro dos prazeres inúteis” podem ser só loucos e idiotas, “mas eles são os mais importantes”, segundo Susan. Não são nada ambiciosos nas suas intenções, apenas mostram o óbvio que a gente esquece de ver: a beleza da vida está nos detalhes quase imperceptíveis que transformam momentos aparentemente comuns em algo mais profundo, poético – que dão alma a situações banais ou corriqueiras.

Então, nos dias de carnaval li o livro de Mário Prata, “Minha tudo”, gostoso inventário íntimo, “acontecimentos prosaicos que, por um mero acaso, transformaram-se em fatos marcantes.” Saboroso como sapoti maduro geladinho ou pirão de cabeça de peixe. Vi no Canal Curtas o filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, um puta documentário de  Marcelo Marzagão, “o contraste entre um mundo que se envolve em dois grandes conflitos internacionais, a banalização da violência, o desenvolvimento tecnológico, a esperança e a loucura das pessoas.” Recomendo o livro e o filme.

O mundo inteiro gritando que é pra entrar na folia e eu, só pra contrariar, cuidando de minha saúde mental e do joelho inflamado. Deitado na minha redinha, no silêncio da cidade Parahyba do Norte, cemitério do carnaval, curtindo pequenos prazeres como este de sonhar, mesmo acordado. Tem prazer melhor do que sonhar?  E de graça. Porque, afinal, sou um hedonista. “O hedonista anseia viver livre e lentamente, podendo assim apreciar com toda a calma do mundo todas as inúteis tarefas a que escolha devotar-se”, esclarecem os autores de “O livro dos prazeres inúteis”.




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