sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

COLUNA DE ADEILDO VIEIRA




Já que não acabou, o samba continua!
Adeildo Vieira

Agora são sete horas da manhã, sábado, 22 de dezembro. Acordei sobressaltado e, desconfiando de que estava vivo, corri pra janela pra ver o mundo. Ainda bem que e vi um bem-te-vi cantando na antena de TV do prédio ao lado e um vizinho  murmurando no celular no andar de baixo do meu condomínio. Pois é, parece que ele não acabou. O senhor mundo estava inteiro. De tanto que foi anunciado, eu tinha medo da hipótese de Deus reeditar seu arrependimento na feitura do homem e promover um neodilúvio. E como seria fácil acabar o mundo, né? Bastava que fossem silenciados todos os celulares do planeta.
Como havia acordado aparentemente vivo, eu tinha medo de ser o novo Noé, aliás, com a proximidade do natal, talvez fosse eu o Papai Noé contemporâneo. No fundo, depois de dois casamentos, eu tinha mesmo era medo de saber quem seria a Mamãe Noé, pois poderia destruir a única possibilidade de renovar a humanidade discutindo uma relação. E o que me apavorava mais ainda era a fatídica pergunta: Teria eu performance sexual para repovoar a terra?
Passado o medo de atrasar o repovoamento do planeta, eu, já convicto de que os maias acertaram no calendário, mas erraram na previsão, fui assistir a TV, pois teria minhas dúvidas totalmente dirimidas quanto ao estado de (a)normalidade do mundo. De cara eu já vi a notícia de três assassinatos ocorridos naquela madrugada, acionados por escritório instalado dentro de um presídio.. Em outro canal vi uma igreja evangélica e sua aparente frustração por perder a oportunidade de apresentar concretamente a vida eterna a seus fiéis, ou, quem sabe, por não ter cobrado ingresso pra isso. Ah, o mundo não acabou. Num terceiro canal vi os craques de futebol ostentando suas fortunas e vi também os meninos do crack acabando seu mundo no leito da rua. Em seus sonhos pluviais, as crianças do sertão continuam empinando carros-pipa no céu na esperança de chuva. Em seus sonhos de poder, os políticos mantêm-se navegando os dilúvios da corrupção. Agora sim, eu tinha a certeza, definitivamente o mundo não acabou, tudo está na mais perfeita normalidade.
Mas daí um sentimento de revolta me tomou por inteiro. Convenci-me de que seria eu o mais negligente compositor do planeta, pois como é que eu fui capaz de perder a oportunidade de fazer um samba para este novo fim do mundo? Estaria hoje cantando a canção de uma nova era frustrada, como fizera Assis Valente em 1938. Imagina que perdi a oportunidade de fazer um samba para um amor eterno que se acabaria no mesmo dia. Ou estaria arrancando o mal pela Pura Raiz, na voz de Mirandinha, numa roda de samba que não daria um giro. Pois é, perdi o último trem das onze. Agora ficou a lição de ser menos irresponsável no próximo fim do mundo.
E pra continuar minhas elucubrações sobre o fatídico tema, me veio uma última pergunta. Já que o mundo não acabou, será que meu samba-de-fim-de-mundo constaria no repertório de algum sambista com sede de viver e com fome de respeito à cena cultural paraibana? Bom, aí seria o fim do mundo!


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