quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

DANÇANDO PARA A VIDA



O Ponto de Cultura Cantiga de Ninar abriga meninas que fazem parte de um grupo de danças liderado por Sueli Souza. Praticam dança contemporânea e do folclore brasileiro. São crianças de 10 a 14 anos, meninas paupérrimas que vêm de lares destruídos pela miséria e pelo vício. A dança vem mudando a relação delas com o corpo e com a vida. Praticam a dança e se autodescobrem.

Não usam sapatilhas de ponta, não fazem aquelas piruetas do balé clássico, suas roupinhas são feitas com retalhos de tecidos, papel ou materiais menos nobres. A professora Sueli é uma dessas pessoas essenciais na comunidade. Acredita que a expressão por meio do corpo melhora as pessoas. A dança fortalece músculos e articulações de garotas desnutridas que desabrocham para a vida quando descobrem que podem explorar as potencialidades do corpo, elevam a autoestima quando recebem os aplausos das pessoas, enfim, Sueli tem consciência de que seu trabalho tem um valor enorme para essas crianças e adolescentes. Por isso continua, mesmo sem quase nenhum apoio.


O Ponto de Cultura Cantiga de Ninar faz questão de apoiar esse projeto social criado pela professora Sueli. Essas bailarinas invisíveis da periferia têm agora um espaço para ensaios e apresentações. Queremos levá-las para a TEIA 2010, o grande encontro dos Pontos de Cultura da Paraíba que será realizado em janeiro próximo, para tirá-las da quase invisibilidade. A intenção é divulgar, mostrar fora das comunidades os trabalhos que são feitos nelas. Por enquanto, o grupo de danças das meninas de Sueli Souza já está na pauta cultural de Itabaiana. Para isso serve o Ponto de Cultura.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Anotações para a história do rádio em Itabaiana – (II)


Erasmo Souto foi locutor da Rádio Clube de Itabaiana

A tecnologia de transmissão de som por ondas de rádio chegou a Itabaiana por volta de 1948. Decidiram batizar nossa primeira estação de rádio com o nome de Rádio Clube de Itabaiana, certamente inspirado na congênere pernambucana, única emissora que se podia sintonizar naquela época. O estúdio funcionava na Rua da Lama, centro da cidade.

Transcorria a era de ouro do rádio, com seus ídolos, seus programas de auditório e as rádionovelas. Na pequena Itabaiana de então, notabilizaram-se os cantores e apresentadores. Fez época o programa “Surge um talento”, apresentado por Irapuan, tendo como locutor de resistência o Ismar, espécie de Lombardi do rádio itabaianense, anunciando os “reclames” comerciais nos intervalos dos programas. Os astros cantores eram liderados pelo fiscal de menores Antonio Ananias, “o garganta de prata”, o “sabiá da mata” dos versos de Zé da Luz no poema “Boa noite Paraíba”.

A Rádio Clube de Itabaiana durou pouco, mas fez história. No palco do seu auditório apresentaram-se tanto orquestras como “Marimba Mexicana”, como o pastoril da famosa Rubina e seu palhaço Bedegueba Pedro Cristóvão, igualmente lembrados pelo poeta Zé da Luz em suas reminiscências itabaianenses.

O escritor Erasmo Souto era adolescente e já impostava a voz de locutor, testando seu talento na porta das “Lojas Pernambucanas” e outras casas comerciais. Também foi locutor da Rádio Clube de Itabaiana. Hoje está radicado no Recife, bancário aposentado que nunca esqueceu sua vida de matuto em Itabaiana. Tanto que já escreveu vários livros contando com irreverência casos de figuras folclóricas, tipo: “Lula de Nevinha”, “Ferro Velho”, “Tonico Lero-Lero”, “Mário da Gelada”, “Zé Bodinho”, Cabo Totô, Índio, Machinho, Mane Salu e tantos outros. O primeiro livro de Erasmo saiu em 1980: “Um paraíba falando para o mundo”. Depois publicou “Paraíba & Pernambuco – um casal muito maluco”.

Nesse último livro, Erasmo Souto conta o caso de Cardoso. Um dia disseram que ele cantava bem e o rapaz acreditou, passando a fazer parte de todos os programas de calouros da Rádio Clube de Itabaiana, para agonia dos músicos do conjunto “Os Vagabundos do Ritmo” que acompanhava os candidatos a artista. É que Cardoso, além de péssimo cantor, maltratava o ritmo e a pronúncia, trocava as letras das músicas. Um dia chegou ao programa e anunciou:

− Senhoras e senhores, é um prazer cantar para “vocezes”. Vou cantar, de Aderlindo Moreira, “Deusa do asfalto”. E castigou:

Um dia
Sonhei com um “poiquim” risonho
E coloquei o meu sonho
Num “senegal” bem alto
Não devia, num “comício” me condeno,
Sendo de “gorro” e moreno
Mamar na deusa do asfalto...

O “Cantor das Massas”, como era chamado pelo apresentador, sofreu uma vaia daquelas, mas aí que Cardoso abria o berreiro. O pessoal foi saindo, alguns atirando tampas de garrafa e até copos, a vaia comendo no centro. Ficou apenas um deficiente físico por nome “Vinte-e-nove-trinta”. Quando Cardoso resolveu parar, dirigiu-se ao rapaz:

− Muito bem, “Vinte-e-nove...” Apesar de aleijado, tem sensibilidade musical. Ficou pra me ouvir até o fim...

− Sei lá dessa “cunvelsa”! Quero saber é quem roubou minha muleta...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

É preciso paixão


“Sei lá... só sei que é preciso paixão”. (Tom Jobim)


Meu propósito como ativista cultural é ser simplesmente um facilitador. Gosto de abrir caminhos, estabelecer com meu trabalho possibilidades de outras pessoas brilharem, mostrarem seus trabalhos. Assim é que fundei associações culturais, jornais, teatros, rádios comunitárias. Nessa vida repleta de contradições, entretanto, muitas vezes sou mal compreendido, não fui bem em alguns relacionamentos com certas pessoas em determinado tempo, cometi equívocos, incorri um pouco nos pecados da irresponsabilidade e desmazelo.

Esse depoimento vai a propósito do Ponto de Cultura que acabamos de fundar em Itabaiana, sob a chancela da Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba, entidade que dirijo. A história é simples e a contabilidade idem. O projeto foi construído por mim, Marcos Veloso e Clévia Paz, em 2005. No dia 12 de setembro de 2007, o Ministério da Cultura enviou uma carta anunciando que finalmente o projeto “Cantiga de Ninar” foi selecionado para criação de um Ponto de Cultura. Só agora, em outubro de 2009, quatro anos após a feitura do projeto, o Governo Federal liberou a primeira parcela dos recursos, com 50% da verba carimbada para compra de equipamentos multimídia e o restante para pagamento de monitores e oficineiros, além de outras despesas de publicidade. Nossa contrapartida é de R$ 39 mil reais, sendo que não temos nem um centavo. Mas assumimos o compromisso de pagar aluguel de prédio, instalações, internet, edição de jornal, energia e todas as despesas de instalação, incluindo móveis e utensílios. Ainda achando pouco, o projeto prevê a instalação de biblioteca, teatro, cineclube e rádio on line, tudo fazendo parte de nossa contrapartida.

Além da defasagem monetária e técnica nesses quatro anos de espera, vem o natural desgaste das pessoas envolvidas que debulho aqui numa confissão mal escondida, revelação de uma certa amargura, um ressentimento por não ter o projeto aquele apoio institucional que esperávamos. Até alguns amigos mal informados, achando que estamos dormindo em cima de muita grana federal, ficaram aborrecidos porque não foram chamados para o “grande banquete”.

Não chamei ninguém para assumir, por exemplo, o aluguel do prédio e as despesas de pintura e retelhamento do espaço físico, que ficaram por nossa conta. Não me apareceu nenhum voluntário para pagar as altas multas da Receita Federal porque nossa documentação estava defasada. Nunca alguém me deu uma gota de gasolina para me deslocar durante quatro anos de João Pessoa a Itabaiana, para tratar do projeto e ensaiar o grupo teatral.

Mas agora convoco as pessoas de bem de Itabaiana para apoiar o Ponto de Cultura, que é da comunidade. Fazemos questão de transparência. Todos os meses, o demonstrativo financeiro estará no mural e na internet. Por enquanto, pedimos esmolas. Em outras palavras, estamos solicitando cadeiras, mesas, estantes, livros e armários para o Ponto de Cultura. Dia 12 de dezembro, vamos receber o Centro Cultural Piollin, de João Pessoa, para uma agitação cultural na cidade. Vamos precisar de lanche e jantar para 21 artistas que nos visitarão.

Não há nenhuma humilhação em se pedir para um equipamento público de difusão cultural. Haveria absurdo em procurar nas questiúnculas políticas a explicação para a omissão institucional. Mas certamente, para um sujeito se meter em tamanha aventura nesse mar de indiferença, é preciso paixão.

domingo, 29 de novembro de 2009

Glossário arcaico


Estou construindo glossário de termos regionais que não constam nos dicionários. Quem se lembrar de palavras que ouvia na infância, vocábulos que se perderam por falta de uso, agradeço a colaboração.

Infitete, por exemplo, o que é? E mandrião? Minha vó Biu costumava nos chamar de mandriões. Alguma coisa a ver com preguiçosos. Infitete é um termo mais pesado, que ela nunca usou. “Tem gente que ainda quer esse infitete no Governo”, escreveu um internauta sobre José Maranhão no blog “ClicPB”. A palavra pode significar infeliz, uma corruptela. Tem a grafia infiteto, que é o sujeito macambúzio, triste, aborrecido.

Pior é ser chamado de “pudrura”. Corruptela de podre. Quatro palavras que colhi nos interiores por onde passei: esguei, esbrungue, farnizim e cabrunco. O que significa esguei pra você? Eu acho que tem a ver com algo torto, enviesado. Esbrungue é termo muito usado pelo poeta e declamador Sanderli Silva, puxando o verbo esbrunganhar. Não tem nada a ver com esbregue, que significa bronca ou reclamação pesada, barulho. Esbrungue é o sujeito desmantelado, o tipo jegue. Farnizim é termo catalogado no Dicionário Informal, com o significado de mal estar.

Cabrunco, uma palavra que ouvi pela primeira vez no sítio Entroncamento, município de Cruz do Espírito Santo. Segundo o tal dicionário, o termo cabrunco deriva de carbúnculo, doença que afetava gado bovino. O termo pode ser um palavrão, elogio ou significar espanto. Se palavrão, relaciona-se ao diabo; se elogio, vale como superlativo; se expressão de espanto, serve para demonstrar um susto.

Minha avó paterna, de origem rural e analfabeta, costumava usar um termo que só depois vim a entender: aruvai. “Menino, cuidado com o aruvai”, dizia ela a caminho do roçado. Era o orvalho da manhã acumulado nas plantas rasteiras, molhando as nossas calças curtas. Essa avó, Joana Cândida da Costa, era uma pessoa tão querida e popular na velha Itabaiana que hoje é nome de rua.

sábado, 28 de novembro de 2009

Rádio Rainha prestigia artistas locais


Wagner Lins, radialista Clévia Paz e o músico Jonatas

Com menos de um ano de funcionamento, a Rádio Comunitária Rainha FM, da cidade de Itabaiana, Paraíba, já é a coqueluche da cidade por manter estreita ligação com os ouvintes e prestigiar os artistas da terra. Como exemplo, temos o poeta, cantor e compositor Wagner Lins, cujas músicas tocam regularmente na programação da Rainha FM. Eis algumas manifestações dos ouvintes:

“Nunca na minha vida pensei que ainda iria escutar boa música em rádio, mas uma certa manhã, ouvindo a rádio comunitária Rainha, escutei uma linda voz acompanhada de uma belíssima melodia. Era um rapaz que já me serviu como garçom e para minha surpresa revela-se um ótimo cantor: Wagner Lins (Norma).

“Wagner, estou torcendo pra que você consiga logo a gravação do seu CD, que Deus te guie”. (Norma).

“Simpatia deveria ser o nome de Wagner Lins. O cara é muito simpático e boa gente, além de ser um fenômeno cantando”. (Lucas).

“Sou cantor de brega da cidade há mais de 10 anos e sinceramente, tenho que admitir: esse tal de Wagner é muito bom mesmo! Parabéns, cara, e boa sorte na sua carreira”. (Galego do Brega).

“Fiquei muito feliz em saber que meu amigo Wagner Lins teve seu talento reconhecido em sua terra amada que é Itabaiana. Parabéns querido” – Ariane Teixeira.

“Muito bom esse ponto de cultura pra nossa Itabaiana. Quero dizer que sou admirador das artes e gostei muito das músicas, dos quadros e muito mais do espaço que vai dar oportunidade aos artistas da terra”. – Sandro Arruda.

“Estive na inauguração do Ponto de Cultura e achei o máximo. Destaco em especial o violonista Vital Alves e o cantor Wagner Lins”. – Valdísia Almeida.

“Talento em itabaiana é o que não falta. Conheci um cara que é um cantor e compositor que trabalha numa lanchonete. Wagner é gente fina, parabéns”. (Michael).

“Vocês precisam conhecer o Ponto de Cultura da nossa cidade. É o máximo. Lá está o Wagner Lins pra nos receber e também o artista plástico Diego e tantos outros. O local é lindo e bem central. Adorei”. (Adriana de Souza).

Comentários publicados no blog “Itabaiana Hoje”. É como bem diz o grande músico brasileiro Francis Hime: “as estações de rádio deveriam mostrar a diversidade de nossa música. O que se toca nas rádios comerciais é um absurdo. Pelo menos as rádios deveriam mostrar os dois lados da moeda, dando espaço à boa música e às coisas que não têm qualidade, deixando as pessoas fazerem sua escolha”.

Fatos pitorescos da minha terra


1. Tem gente que jura que é verdade, outros duvidam. Mas o fato é que o prefeito da cidade de Inglis, na Flórida, Estados Unidos, assinou decreto proibindo o diabo de se manifestar no perímetro urbano. Na minha cidade, um vereador foi autor de projeto proibindo cachorro latir depois das dez horas da noite.

2. O pai do meu amigo Aguinaldo Pabulagem, do grupo parafolclórico Acauã da Serra, comprou um bode para matar quando o filho passasse no vestibular. Dizem que o bode bodejava, irônico: “Tou morrendo de medo...” De fato, Aguinaldo passou oito anos fazendo vestibular, até que foi aprovado. Mas o bode havia morrido. De velhice.

3. O grande Biu Penca Preta com mais três bêbados bateu à porta de uma casa na Rua da Palha, em plena madrugada. Biu falou: “Madame, qual de nós quatro aqui é o seu marido, porque os outros três tão morrendo de sono...”

4. Negociante porreta no ramo de amendoim, Severino Mundubim candidatou-se a vice-prefeito de Itabaiana pelo PSD. Era a atração dos comícios pelo seu linguajar solto, espontâneo:

--- Povo de Itabaiana, se nós for eleito, vamos botar lenha encanada aqui na cidade.

O candidato a prefeito deu-lhe um empurrão, e ele corrigiu:

--- Lenha eu não garanto, mas Coca-Cola a gente bota...

5. O cidadão chegou ligeiramente embriagado para se consultar com o Dr. Dedé. Sentindo o bafo de cachaça, o médico disse que não receitava bêbado. E o bebinho: “Tudo bem, quando o senhor melhorar eu volto”.

6. Dizem que o governador José Maranhão mandou fazer uma pesquisa sobre sua popularidade junto ao funcionalismo público estadual. O resultado: 90 por cento acham que, com ele no governo, o funcionário vai acabar comendo merda; 10 % acham que a merda não vai dar pra todo mundo.

7. Caiu no vestibular: se um inseto vive 72 horas, a missa de sétimo dia em memória dele se dará em quantos segundos?

8. Sujeito era tão tarado que vivia dando em cima da secretária eletrônica.

9. O ex-prefeito de São José dos Ramos, nosso compadre Antonio Caxias, ficou arretado com um padre que passou por lá e mijou em cima de uma estátua de São Severino. O padre respondeu na bucha: “E você não vive cagando em São José?”

10. Tem um rapaz por nome de Enoque que morou em Itabaiana, famoso pela burrice. É do tipo que faz pesquisa de preço em loja de 1,99 e anda procurando a receita pra fazer gelo. Dizem que ele passou sete dias comendo um pote de iogurte, onde estava escrito: “consumir em uma semana”.

11. Getúlio Vargas dizia que “os políticos são uma praga: a metade não é capaz de nada e a outra metade é capaz de tudo”.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

João Pessoa é minha casa


João Pessoa era apenas uma imagem de cidade grande aos olhos de um menino, cheia de mistérios emaranhados entre velhos sobrados e rios mansos, o desconhecido de uma cidade exótica, ao mesmo tempo aristocrática e primitiva. Guardo a constituição daquelas imagens antigas, resgatadas sempre que puxo o filme dos meus primeiros anos, um encontro sedutor e desafiante. A cidade deixando-se descobrir na distância e no desconhecido, o menino germinando a fascinação pela urbe provinciana que aos seus olhos parecia a grande metrópole berço do desconhecido.

Essa distância íntima viajava no velho jipe do meu pai, fazendo o percurso Itabaiana-João Pessoa nas esburacadas estradas dos anos 70, uma viagem que não chegava nunca, que voltava eternamente ao desconhecido, como um calidoscópio vertiginoso, produzindo um número infinito de combinações que mergulhavam nas retraídas águas do Sanhauá. Desmistificada anos depois, João Pessoa veio a me propor novos modos de percepção estética. Mas não deixei para trás a cidade dos sonhos, elevada e comoventemente poética. Esse ambiente quase mítico ainda mora em mim, quem sabe uma resposta ao impacto alienante da vida moderna, da desumanização, do crescimento desordenado. O espaço urbano limpo, o silêncio e a simplicidade das pequenas aglomerações urbanas, o retrato imaginário que ainda hoje carrego comigo, foto 3x4 do meu mundo dos sonhos, o sublime das imagens de antigas igrejas, velhos faustos, vetustas riquezas.

Assim eu me deixei envolver por João Pessoa, e esse namoro infantil se estendeu à vida adulta. Quarenta anos depois, volto aqui para morar definitivamente, no bucólico bairro de Jaguaribe, ganhando o estatuto de cidadão pessoense por força de exercitar o timbre, a cadência e o ritmo dessa urbe, e de saborear sua qualidade de vida.

Aquele vulto arcaico de poeta escrevendo a epopéia de João Pessoa teve que se distanciar dos assuntos grandiosos e heróicos e aproximar-se do fato sangrento referente à Revolução de 30, apontando ainda as dores, sofrimentos, sonhos e agonias da cidade contemporânea, mas sem esquecer o que provém da história no que há de mais profundo nela.

Houve um recuo brutal no nosso estilo de vida. Um amigo afirmou que o único prodígio de João Pessoa é haver chegado tão longe com uma classe dirigente tão ruim. Isso pode se aplicar também ao Brasil, e é uma longa e constante preocupação dos que verdadeiramente amam esta cidade. É assustador o desnível social, a precariedade da saúde e da educação. Em meio a isso, ainda bem que temos a ação fecundante, purificadora e iluminadora de homens como o livreiro Heriberto Coelho, o compositor Fuba, o comunicador Cardivando de Oliveira e tantos outros homens e mulheres que simbolizam o intelecto e a consciência desta velha cidade, em sua forma evolutiva.
João Pessoa pertence a uma linhagem nobre das cidades brasileiras, e isso nem seus mais afoitos inimigos podem desdenhar.

O Sebo Cultural anuncia concurso literário sobre aspectos relacionados à cidade de João Pessoa, como uma forma de homenagem à capital paraibana. Mário Quintana já dizia que preferia ser alvo de um atentado do que de uma homenagem: o atentado é mais expedito e não tem discurso. Mas não tem jeito: vai aqui meu discurso sobre essa cidade, porque falar é emergir paixão.

Hoje, João Pessoa é minha casa. Na casa da gente, é onde acendemos o fogo, simbolizando esse lume a purificação e a regenerescência. Na nossa casa, queremos ordem, paz, respeito, beleza e espiritualidade. Da nossa casa observamos os vizinhos, na ânsia da mais feérica conversação cosmopolita. Porém, sem perder a ponte com o interior, um interior que se abre generoso para a exuberância da nossa mais autêntica paraibanidade.

(Crônica publicada na coletânea “Sonho de Feliz Cidade”, lançada pelo Sebo Cultural em 14 de dezembro de 2007)