10 MINUTOS NO CONFESSIONÁRIO - Misoginia – Podcast com Fábio Mozart – Episódio 24
https://www.radio.diariopb.com.br/misoginia-podcast-com-fabio-mozart-episodio-24/
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“Pois Deus me é testemunha de que tenho saudades de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus”. Filipenses 1:8
A reforma tributária do governo pode aumentar em 20% o
preço dos livros. No caso do contista Ofinho, seu livro me saiu a custo zero,
mas sua lembrança de me surpreender no meu recanto no cocuruto da serra não se
estima o valor, porque muito auxiliou na evolução de me reconciliar com o
processo da vida, isolado que estou desde o começo da pandemia. Foi a primeira
visita que recebi em mais de um ano, mesmo porque não conheço ninguém na região
onde moro atualmente.
Ofinho é natural de Solânea, onde reside, e no seu livro
de contos a cidade aparece em retratos rápidos, bem humorados e zombeteiros, mas
dominados por aquela comoção das lembranças do passado. Gostei de cara, li
desembestado as 110 páginas cheias de ironia e fino trato da forma. Ofinho me
surpreende pelo talento de escritor. Eu diria que, para estar ao nível do humor
do livro, Ofinho se apresenta à altura da alta literatura, mesmo porque
Solânea, antiga vila Moreno, está a mil metros acima do nível do mar.
Rachel de Queiroz acredita que “essa capacidade de morrer
de saudades só afeta a quem não cresceu direito, feito uma cobra que se
sentisse melhor na pele antiga, não se acomodando nunca à pele nova”. Mais
lírico, o poeta Moacyr Félix: “Não tenho mais em mim a vida que levei, mas
sinto o mundo caminhar em minha memória”. E é de saudade que fala o livro de
Ofinho, nostalgia que às vezes é pura literatura fantástica, como observou o
prefaciador Rangel Júnior, descambando em alguns contos para delírios
criativos, que “o isolamento da pandemia perturbou o juízo de Wolhfagon Costa”,
ainda conforme o apresentador da obra. Não se define o livro de Ofinho. Às
vezes é crônica ligeira, às vezes contos, outras ocasiões ganha status de poesia,
construída de retalhos de infância nos contrafortes do planalto da Borborema.
As pequenas coisas e loisas do banal dia a dia em uma cidade do interior, com
suas figuras simples e passagens dessa vida besta que encanta, enternece e
surpreende.
Sobre meu compadre Bebé de Natércio, amigo e colega de
trabalho de Ofinho, deu-se a história no ano dois mil, quando o novel escritor
decidiu que seria candidato a vereador em Solânea e precisou dos préstimos do
poeta e compositor Bebé para a feitura de um jingle de campanha. Passados
muitos dias e a eleição às portas, nada de Bebé preparar o trabalho. Ofinho
encontrou Bebé por acaso em mesa de bar, com seu violão criativo. Bebé pegou o
instrumento e cantou o jingle. “Fiz agorinha mesmo, gostou?” Resultado: Ofinho
ganhou a eleição com meio milheiro de votos e Bebé de Natércio ganhou mais um
admirador de sua arte enquanto inserida no contexto social e político do seu
tempo.
Rádio Barata no Ar – Edição nº 219
ABC DE JOÃO
THEOTÔNIO, O POETA GENTILEZA
Agora
vou relatar
A vivência de um bardo
Nascido no Rio Tinto
Esse cidadão galhardo
Por noventa e três bons anos
Feliz, carregou o fardo
Bebendo
a água da vida
Com elegância e gentileza
Respeitando a humanidade
Proletária ou burguesa
De modo fino e educado
Essa foi sua nobreza
Conheça
João Theotônio
Que é da família Carvalho
Em 22 de janeiro
Neste cordel eu detalho
Nascia o nobre poeta
Da sua história me valho
Dentro
da literatura
Para fazer o folheto
Enaltecendo seu Theo
Neste humilde livreto
Aos nobres da Academia
O trabalho submeto
Ele
foi radialista
Foi atleta e foi ator
Grande líder operário
Cordelista de valor
Autor de versos gentis
Sonetista e trovador
Filhos,
ele deixou oito
Com mais dezessete netos
Antes de fechar os olhos
Conheceu cinco bisnetos
Deixou também a saudade
Nos seus amigos diletos
Gerando
vida e exemplo
João Theotônio viveu
Simples, humilde e correto
Grande lição ele deu:
A pessoa cordial
Parte e não envelheceu
Há
noventa e três janeiros
Nascia um homem gentil
Gente fina, de bons modos
Nesse mundo tão hostil
Ardente amante das artes
Com a alma juvenil
Inimigos,
João não tinha
Líder no bairro Bancário
Todo mundo respeitava
O citadino lendário
Recebendo até diploma
De cidadão honorário
João
Theotônio era ouvinte
Assíduo da Tabajara
Rádio que ele viu nascer
Como uma joia rara
Na usina São João
Teve uma vivência rara
Lá
ele botou no ar
No ano 45
Uma emissora AM
E trabalhou com afinco
Pela comunicação
Abrindo do rádio o trinco
Meu
contato com seu Theo
Na Tabajara se deu
Ele sendo entrevistado
A alma fosforesceu
O apreço e simpatia
Logo se estabeleceu
Na
nossa Academia
Seu Theo foi bem recebido
Se fez amigos de todos
Com amor foi acolhido
E sua doce figura
Jamais sofrerá olvido
Outra
faceta de Theo
Acrescento como aporte
Neste modesto trabalho
Como singular recorte:
Seu Theo foi um bom atleta
Do glorioso Auto Esporte
Pelo
Autinho do Amor
Foi seu Theo um campeão
Ganhando do Botafogo
Em distinta ocasião
Isso nos anos cinquenta
Quando o Auto era um timão
Quero
ainda ressaltar
Theotônio escritor
Foi autor de três bons livros
Com sonetos de valor
“Esta chama não se apaga”
Foi esta a última flor
Regada
no seu jardim
De poeta gentileza
Sendo este dote gentil
A sua maior riqueza
Construiu a trova e verso
Com toda delicadeza
Seu
Theo nos deu o exemplo
Que ser cortês não é patente
Não te faz um ser melhor
Nem mais bondoso ou valente
Apenas se sobressai
De muitos faz diferente
Theo,
receba dos confrades
O mais carinhoso abraço
Valeu por ter amarrado
Em nós o mais forte laço
De apreço e amizade
Ocupando o mesmo espaço
Uma
vida dedicada
À arte e urbanidade
João Theotônio nos deixa
Transvazando de saudade
Irrigando a flor da dor
No jardim da amizade
Viver
saudade é melhor
Do que caminhar vazio
Diz o poeta Peninha
Enfrentando o mar bravio
Da solidão dos amigos
Nesse viver arredio
Xodó
dos seus companheiros
E companheiras também
Partiu o amigo Theo
Para o Éden no além
Sempre humilde e educado
Porque assim lhe convém
Zelaremos
pelo nome
Do nosso nobre confrade
Tão simples de coração
Feito de pura bondade
Seu Theo, receba esses versos
Coroados de saudade!