domingo, 10 de outubro de 2021

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Evangelho da saudade segundo Ofinho Costa

“Pois Deus me é testemunha de que tenho saudades de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus”. Filipenses 1:8


Mais bela do que qualquer canção é a melodia da saudade, pondera o poeta Bebé de Natércio, um dos personagens do livro “Contos de quarentena”, do engenheiro e radialista comunitário Wolhfagon Costa, professor aposentado da Universidade Estadual da Paraíba e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba, velho guerreiro nas lutas comuns pela democratização das comunicações através das rádios comunitárias. Ofinho, como é conhecido pelos amigos, teve a delicadeza de me visitar em Bananeiras para oferecer o livro “Contos de Quarentena”, onde ele reflete: “Em tempos de quarentena, um contista, querendo ser poeta, sem nem prosar direito, atreve-se: ‘aqui, eu navego sem ter mar, voo sem avião. Essa bolha é meu mundo. Esses livros me guiam. Essa nave me leva ao mundo’. E acordou, nem triste, nem alegre e nem poeta. Sabe que conta”.

A reforma tributária do governo pode aumentar em 20% o preço dos livros. No caso do contista Ofinho, seu livro me saiu a custo zero, mas sua lembrança de me surpreender no meu recanto no cocuruto da serra não se estima o valor, porque muito auxiliou na evolução de me reconciliar com o processo da vida, isolado que estou desde o começo da pandemia. Foi a primeira visita que recebi em mais de um ano, mesmo porque não conheço ninguém na região onde moro atualmente.

Ofinho é natural de Solânea, onde reside, e no seu livro de contos a cidade aparece em retratos rápidos, bem humorados e zombeteiros, mas dominados por aquela comoção das lembranças do passado. Gostei de cara, li desembestado as 110 páginas cheias de ironia e fino trato da forma. Ofinho me surpreende pelo talento de escritor. Eu diria que, para estar ao nível do humor do livro, Ofinho se apresenta à altura da alta literatura, mesmo porque Solânea, antiga vila Moreno, está a mil metros acima do nível do mar.

Rachel de Queiroz acredita que “essa capacidade de morrer de saudades só afeta a quem não cresceu direito, feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodando nunca à pele nova”. Mais lírico, o poeta Moacyr Félix: “Não tenho mais em mim a vida que levei, mas sinto o mundo caminhar em minha memória”. E é de saudade que fala o livro de Ofinho, nostalgia que às vezes é pura literatura fantástica, como observou o prefaciador Rangel Júnior, descambando em alguns contos para delírios criativos, que “o isolamento da pandemia perturbou o juízo de Wolhfagon Costa”, ainda conforme o apresentador da obra. Não se define o livro de Ofinho. Às vezes é crônica ligeira, às vezes contos, outras ocasiões ganha status de poesia, construída de retalhos de infância nos contrafortes do planalto da Borborema. As pequenas coisas e loisas do banal dia a dia em uma cidade do interior, com suas figuras simples e passagens dessa vida besta que encanta, enternece e surpreende.

Sobre meu compadre Bebé de Natércio, amigo e colega de trabalho de Ofinho, deu-se a história no ano dois mil, quando o novel escritor decidiu que seria candidato a vereador em Solânea e precisou dos préstimos do poeta e compositor Bebé para a feitura de um jingle de campanha. Passados muitos dias e a eleição às portas, nada de Bebé preparar o trabalho. Ofinho encontrou Bebé por acaso em mesa de bar, com seu violão criativo. Bebé pegou o instrumento e cantou o jingle. “Fiz agorinha mesmo, gostou?” Resultado: Ofinho ganhou a eleição com meio milheiro de votos e Bebé de Natércio ganhou mais um admirador de sua arte enquanto inserida no contexto social e político do seu tempo.

 

domingo, 3 de outubro de 2021

10 MINUTOS NO CONFESSIONÁRIO - EPISÓDIO 24

 


Anjo da Guarda - “Dez minutos no confessionário” -  Podcast com Fábio Mozart – Episódio 24

https://www.radio.diariopb.com.br/dia-do-anjo-dez-minutos-no-confessionario-podcast-com-fabio-mozart-episodio-24/

 

POEMA DO DOMINGO

 



ABC DE JOÃO THEOTÔNIO, O POETA GENTILEZA

 

Agora vou relatar

A vivência de um bardo

Nascido no Rio Tinto

Esse cidadão galhardo

Por noventa e três bons anos

Feliz, carregou o fardo

 

Bebendo a água da vida

Com elegância e gentileza

Respeitando a humanidade

Proletária ou burguesa

De modo fino e educado

Essa foi sua nobreza

 

Conheça João Theotônio

Que é da família Carvalho

Em 22 de janeiro

Neste cordel eu detalho

Nascia o nobre poeta

Da sua história me valho

 

Dentro da literatura

Para fazer o folheto

Enaltecendo seu Theo

Neste humilde livreto

Aos nobres da Academia

O trabalho submeto

 

Ele foi radialista

Foi atleta e foi ator

Grande líder operário

Cordelista de valor

Autor de versos gentis

Sonetista e trovador

 

Filhos, ele deixou oito

Com mais dezessete netos

Antes de fechar os olhos

Conheceu cinco bisnetos

Deixou também a saudade

Nos seus amigos diletos

 

Gerando vida e exemplo

João Theotônio viveu

Simples, humilde e correto

Grande lição ele deu:

A pessoa cordial

Parte e não envelheceu

 

Há noventa e três janeiros

Nascia um homem gentil

Gente fina, de bons modos

Nesse mundo tão hostil

Ardente amante das artes

Com a alma juvenil

 

Inimigos, João não tinha

Líder no bairro Bancário

Todo mundo respeitava

O citadino lendário

Recebendo até diploma

De cidadão honorário

 

João Theotônio era ouvinte

Assíduo da Tabajara

Rádio que ele viu nascer

Como uma joia rara

Na usina São João

Teve uma vivência rara

 

Lá ele botou no ar

No ano 45

Uma emissora AM

E trabalhou com afinco

Pela comunicação

Abrindo do rádio o trinco

 

Meu contato com seu Theo

Na Tabajara se deu

Ele sendo entrevistado

A alma fosforesceu

O apreço e simpatia

Logo se estabeleceu

 

Na nossa Academia

Seu Theo foi bem recebido

Se fez amigos de todos

Com amor foi acolhido

E sua doce figura

Jamais sofrerá olvido

 

Outra faceta de Theo

Acrescento como aporte

Neste modesto trabalho

Como singular recorte:

Seu Theo foi um bom atleta

Do glorioso Auto Esporte

 

Pelo Autinho do Amor

Foi seu Theo um campeão

Ganhando do Botafogo

Em distinta ocasião

Isso nos anos cinquenta

Quando o Auto era um timão

 

Quero ainda ressaltar

Theotônio escritor

Foi autor de três bons livros

Com sonetos de valor

“Esta chama não se apaga”

Foi esta a última flor

 

Regada no seu jardim

De poeta gentileza

Sendo este dote gentil

A sua maior riqueza

Construiu a trova e verso

Com toda delicadeza

 

Seu Theo nos deu o exemplo

Que ser cortês não é patente

Não te faz um ser melhor

Nem mais bondoso ou valente

Apenas se sobressai

De muitos faz diferente

 

Theo, receba dos confrades

O mais carinhoso abraço

Valeu por ter amarrado

Em nós o mais forte laço

De apreço e amizade

Ocupando o mesmo espaço

 

Uma vida dedicada

À arte e urbanidade

João Theotônio nos deixa

Transvazando de saudade

Irrigando a flor da dor

No jardim da amizade

 

Viver saudade é melhor

Do que caminhar vazio

Diz o poeta Peninha

Enfrentando o mar bravio

Da solidão dos amigos

Nesse viver arredio

 

Xodó dos seus companheiros

E companheiras também

Partiu o amigo Theo

Para o Éden no além

Sempre humilde e educado

Porque assim lhe convém

 

Zelaremos pelo nome

Do nosso nobre confrade

Tão simples de coração

Feito de pura bondade

Seu Theo, receba esses versos

Coroados de saudade!