segunda-feira, 5 de maio de 2014

Irene e Zenito


A dinâmica da vida é um tanto confusa. Planejo há mais de cinco anos um roteiro de documentário para contar a história do nosso grupo de teatro amador em Itabaiana, a partir da caderneta de anotações de Irene Marinheiro, a secretária do grupo. O título: “A lista de Irene”, com os nomes dos antigos companheiros de arte. A ideia seria ir atrás desse povo, saber onde estão, o que fazem e que lembranças têm daqueles momentos de puro delírio artístico. Momentos gloriosos pela singularidade do fato de que fazíamos teatro contestador em uma cidade interiorana em plena ditadura militar.

Irene e seu marido, meu compadre Zenito Oliveira, moram aqui pertinho, em João Pessoa. Já fiz entrevistas com eles e outras pessoas do grupo. Falta um sutil detalhe para completar o projeto do documentário: papel pintado da Casa da Moeda. Enquanto não ganho na loteria, mantenho o sonho de registrar essa história.

Lembrei do projeto ao ver minha ex-professora Irene em festa pelo seu aniversário. Parabenizando a mestra, mando um alô para seu companheiro, velho Zenito de antigas aventuras nas quebradas itabaianenses.



Hoje é uma pseudo segunda-feira.


Segunda-feira é dia de ressaca, trabalho e lembranças dos prazeres do fim de semana. Segunda-feira é dia neutro para quem não tem emprego, não bebe e não tem vida social. Daí passo meu olhar nulo sobre as páginas em branco de um dia sem textura. Mas, assim mesmo, tem demandas.

Por uma segunda-feira consistente, que dê notícias dos bons orgasmos juvenis, que dê vazão às antigas energias compulsivas. Uma segunda com gosto e um quê singular das disposições renovadas, sem ser isso monótono, frio e sem cheiro. Por uma segunda com sutis reentrâncias que possam ser vislumbradas por um ex-competente bom vivant.

Nesta segunda-feira errada, algo me diz, contudo, que não devo desperdiçar esses espaços pequeno-burgueses do ciclo lunar. Tenho, ou gostaria de ter metas a alcançar se fosse um sujeito organizado e metódico. Daqui para sexta-feira vou tentar consolidar um projeto de comunicação, lembrando que hoje é o Dia Nacional das Comunicações.

A verdade é que ainda padeço, embora me gabe de não padecer, da síndrome da segunda-feira, que é aquela imbecilidade de você achar que tudo recomeça. Problema é enfrentar o medo de abrir a porta e não ter segunda-feira nenhuma, e ver desolado esses restos de domingo que sobreviveram, todas aquelas baboseiras desconexas que a gente lê nos livros de poesia ruim com gosto de aguardente ordinária na boca ou qualquer remédio químico para o juízo meio demente dos não crentes que jamais fecham suas semanas.

Para começar a semana, vai este poema de Marcos Tavares:

“Acordo nas manhãs de segunda junto com memórias,
imagens de um passado que se juntam a mim,
personagens de espelhos que ousei inventar,
amores amanhecidos, palavras que jurei esquecer...”





domingo, 4 de maio de 2014

Arnaud do Sax no Jacaré Pôr do Sol


Esse rapaz por nome Arnaud Silva Costa Neto vem a ser meu filho, nascido na cidade Itabaiana do Norte, hoje com 28 anos de idade. Veio ao mundo trazendo o dom inato e incontornável da musicalidade. Aos seis anos, saía pelas ruas tocando numa corneta. Prazer e paixão que acompanhou o jovem pela vida afora, sendo hoje músico profissional. Toca quase todos os instrumentos de sopro, além de violão, guitarra e cavaquinho.

Sendo alguém que recebeu o apelo da vocação e dedicou a própria existência ao exercício de sua arte, ele é um dos muitos que tentam viver disso, ser músico profissional num lugar onde não se respeita a profissão, acham que é sacerdócio e por isso o cara se dê por feliz quando tem plateia para apreciar sua arte em troca de alguns vinténs.

É melhor assim, eu acho. O cara saber do que gosta, definir seu estilo de vida e perseguir seu sonho desde sempre, do que sair por aí vagando à procura de um sentido para sua existência. Se vai ganhar dinheiro ou não, depende da sorte e do empenho, além de outras tantas variantes nesse mundo tão indiferente aos “chamados”, no sentido etimológico. A vocação é uma eleição espiritual que impõe uma mensagem e um papel e vai transformar definitivamente aquele que a recebeu. Cada um que pegue a sua cruz e siga adiante. No caso do músico, sua “cruz” é o instrumento que o leva ao paraíso, mas sem garantia de remuneração material.

Arnaud do Sax, como é conhecido no universo artístico, está anunciando seu novo local de trabalho na praia do Jacaré, em Cabedelo:

“É com muita satisfação que volto aos palcos da Praia do Jacaré, agora com a parceria da violinista, cantora e simpatia, Belle Soares. Estaremos diariamente no restaurante Jacaré Pôr do Sol a partir das 17:20h.”

sábado, 3 de maio de 2014

Projeto de produção de vídeo envolve estudantes de Itabaiana

Começa hoje, 3 de maio, a oficina de audiovisual dentro da programação do 1º Festival de Vídeo Estudantil de Itabaiana, promovido pelo Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. São 40 estudantes da rede pública da cidade que terão aulas de produção e edição de vídeo, para que as equipes possam montar seus próprios filmes após a capacitação, concorrendo a troféus, premiação e uma viagem cultural para a equipe vencedora.

“Nosso objetivo é incrementar nosso núcleo de produção de conteúdos e capacitar jovens em roteiro, leitura crítica da imagem e outras matérias”, disse Rosival Silva, do Ponto de Cultura.

Os melhores trabalhos participarão de mostra que será realizada no dia 23 de maio. Na próxima semana, os estudantes irão a campo com os técnicos para realizar as filmagens. As oficinas e demais atividades serão coordenadas por Jacinto Moreno, Marcos Veloso e Rosival Silva.


Músico de Itabaiana concede entrevista na Rádio Tabajara da Paraíba neste sábado

O programa “Alô comunidade” recebe hoje, dia 3 de maio, o músico e compositor Robson Albuquerque, de Itabaiana, Paraíba. O programa é produzido pela Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares, em parceria com Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, Coletivo de Jornalistas Novos Rumos e Sociedade Cultural Posse Nova República.

Robson tem uma música selecionada para o festival de música regional da TV Cabo Branco de João Pessoa, afiliada da Rede Globo.

“A música é um hobby para mim. Sou comerciante e complemento renda tocando em eventos de buffets e barzinhos. Sou violonista base, cantor e compositor. Me inscrevi ano passado no Forró Fest também, mas sem êxito. Este ano, consegui emplacar minha canção entre as escolhidas”, disse Robson.

O programa tem comando de Fábio Mozart, Dalmo Oliveira e Beto Palhano. Começa às 14 horas e pode ser ouvido em tempo real pelo site da Rádio Tabajara da Paraíba AM:


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Deus salve a Rainha


Essa cidade que se vê do céu viaja ao sabor das minhas melhores lembranças. Foi nesse lugar que cresci, adolesci e casei, criei meus anjos-curumins. No riozinho que lambe as bordas do lugar, pesquei piaba com gosto de robalo, pitu com cheiro de lagosta. Pelos fantasmagóricos confins dos seus becos, vielas, praças, estradinhas e campinhos de várzea, joguei, bebi, tramei, escrevi, sonhei, amei, lutei e desenhei estrelas no peito com a ousadia dos que nada podem, mas tudo acreditam.

Depois, pouco a pouco fui me afastando do meu lugar, tangido pela necessidade, nos caminhos do destino inexorável. A cidade não mudou muito, continua imutável seu traçado centenário, sua cultura da moléstia dos cachorros de linda e pura, embora latente, sem aparecer muito devido aos decibéis da estupidez desses tempos acidentais. Os da minha geração é que teimam em desencarnar. Ó que saudade que tenho da aurora de minha vida!

A gente só vive uma vez, mas pode morrer mais de uma. Na velha Rainha do Vale, a Itabaiana do Norte e dos meus cuidados, já viveu alguém que morreu duas vezes, conforme conto no meu livro “A Voz de Itabaiana e outras vozes”, livrinho que teve o mérito de ser publicado com patrocínio do Ministério da Cultura, sendo que a morte jamais permitiu novamente semelhante abuso. Foi o primeiro e único bi-defunto. Continuo olhando para minha pequenina Rainha com o olhar do realismo fantástico, apontando com o dedo filial os matricidas que teimam em transformar minha cidadezinha numa Macondo qualquer, onde tudo é possivelmente impossível. Entenderam?

Mas, o propósito dessa crônica é mais uma vez denunciar o desrumo dessa terra que serviu de berço para uma plêiade de heróis e gente mágica, por conta dos que, nos últimos trinta anos, encontram-se no tal “contexto fático probatório” de que fala o Barbosa, relator do Mensalão no STF. Uma turma que mamou criminosamente nos peitos generosos da Rainha, prostando-a quase sem vida no leito do descaso. A situação ficou além do controle. Só o povo do lugar para fazer a Rainha seguir o melhor caminho e entregar a chave da cidade a alguém que possa ajeitar as coisas, com carinho e generosidade, honestidade e respeito a essa Majestade de passado tão glorioso. Ainda não foi dessa vez, mas eu continuo acreditando numa redenção futura. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Homenagem a Azarias Costa

 

A vereadora Roseane Almeida está propondo título de Cidadão Itabaianense ao meu primo Azarias Costa, sobre quem escrevi esta crônica:

UMA VIDA DEDICADA À MORTE


          Uma vida inteira dedicada à morte. Esta frase sintetizaria a trajetória de um homem simples que se dedicou a cuidar dos mortos no cemitério de Itabaiana. Trata-se de Azarias Cunha da Costa, que durante muitos anos foi administrador do cemitério e aprendeu a conviver com os sentimentos de tristeza, de finitude, de medo, de abandono, de fragilidade e insegurança que acompanham o ato de sepultar alguém, e disso fez sua missão de vida. Passou o tempo todo cuidando do cemitério como se fosse sua casa.
          Diz um ditado: “teme mais a morte quem mais temeu a vida”. Azarias não teme a morte, porque durante toda a sua vida, até se aposentar recentemente, como pessoa inteligente que é, foi estimulado a profundas reflexões sobre a própria vida. No cemitério, Azarias teve um importante curso intensivo e saudável de balanço emocional, e hoje vê a morte com aceitação de paz, com dignidade e bem estar emocional.
          Azarias é um caso singular de alguém que amou seu trabalho e a ele se dedicou a ponto de, agora aposentado, ainda viver traçando projetos para melhorar nosso campo santo. Quem vai à sua casa, encontra-o debruçado sobre mapas e plantas baixas do cemitério, como um devotado amador.
          Quando não tinha de cuidar de nenhum sepultamento no cemitério de Itabaiana,  Azarias aproveitava o tempo livre para corrigir seus mapas ou ler sua Bíblia e seus velhos livros de filosofia. Cuidar de cadáveres é um ofício penoso, pelo menos para quem não tem o hábito. Azarias adorava, e adora, aquele ambiente de paz do cemitério. Para ele, o melhor lugar para trazer a filosofia para a prática é o cemitério. “A filosofia trata da existência e do ser. A morte está nesse meio”, afirma. “Eu não gosto de filosofia acadêmica. Prefiro estar com o povo. Fico vendo como as pessoas tentam adocicar a morte com eufemismos e como desejam a imortalidade. Veja esses túmulos: todos são grandes e têm o nome das famílias em letras garrafais. Mesmo mortos, querem ser imortais”, filosofa Azarias.
          Minha homenagem àquele que, no desempenho das suas funções no cemitério de Itabaiana, sempre o fez com enorme profissionalismo, dedicação e sobretudo na dignificação daquele espaço tão nobre que serve à nossa cidade.