domingo, 14 de junho de 2009

O precursor do jornalismo em Itabaiana

Arthur Coelho, afilhado do pai de Augusto dos Anjos, viveu nos Estados Unidos e foi um intelectual de altíssima qualidade.



Em março de 1973, falecia aquele que foi um dos maiores intelectuais paraibanos, precursor do jornalismo na cidade de Itabaiana, poeta, homem de letras, pensador e esteta de altíssima qualidade. Na América do Norte, para onde emigra, estabelece-se em Nova York, tornando-se crítico cinematográfico, vindo a trabalhar na empresa de cinema Paramount Pictures Co., a cujo serviço permaneceria por mais de 30 anos como assessor cultural, censor de scripts e tradutor das legendas dos filmes produzidos.
Esse brilhante cidadão do mundo nasceu em Sapé, criando-se em João Pessoa e Itabaiana, passando dois anos em São Paulo e um ano no Amazonas. Foi batizado na antiga vila de Espírito Santo, servindo-lhe de padrinho o pai de Augusto dos Anjos. Depois, dona Cândida, sua mãe, converteu-se ao protestantismo.
Escreveu uma espécie de português sem mestre, o “Brazilian Portuguese Self-taught”, saído durante a 2ª guerra mundial, de onde foram impressas cinco edições. Escreveu o célebre livro de contos, “Um brasileiro em Sing-Sing e outros contos da América”, cuja primeira edição saiu pela Editora da Universidade Federal da Paraíba. Sing-Sing é um grande presídio existente em Nova York. O conto principal do livro é a história de um brasileiro que se viu preso lá. “Quase autobiográfico”, afirmou Arthur Coelho, em carta ao amigo Guimarães Barreto, em 17 de julho de 1972.
“Arthur Coelho merece as homenagens dos paraibanos, pelo seu ilibado caráter, sua brilhante inteligência e extremado amor à terra natal, a quem serviu, amou e dignificou desinteressadamente durante sua longa, útil e proveitosa existência”, afirmou o mesmo Guimarães Barreto.

PRECURSOR DO JORNALISMO

Por volta de 1890, Arthur Coelho matriculou-se na escola da professora Alexandrina Nacre, na Rua da República nº 55, em João Pessoa, onde fez o primário. Teve como companheiros de escola Aderbal Piragibe e seu irmão Oscar da Silva, João Pessoa, futuro bacharel em direito e Presidente da Paraíba, e Mardokeu Nacre, filho da professora, que viria a ser um dos mais celebrados poetas paraibanos.
Foi aprender a arte tipográfica em uma oficina de João Pessoa, tornando-se tão competente em seu ofício que foi convidado pelo juiz de Itabaiana, Heráclito Cavalcanti, para editar o jornal O MUNICÍPIO, que fundara naquela comarca, sendo o primeiro jornal a circular em Itabaiana. Arthur Coelho virou tipógrafo, impressor e redator daquele periódico na terra de Zé da Luz, demorando uma temporada naquela cidade, onde exerceu grande influência, conforme registro no livro “Itabaiana, sua História, suas Memórias”, de Sabiniano Maia.
Em Itabaiana, onde ele passara os melhores anos de sua vida, conforme depoimento ao mesmo Guimarães Barreto, identificou-se com os itabaianenses mais ilustres daquela época, a ponto de se tornar genro de um deles. Constam de seu círculo de amizade na então próspera cidade paraibana, o desembargador Heráclito Cavalcanti, o prefeito Neco Germano, Firmino Cotinha, Padre Fileto, Major Nenéu, os Guarita, os professores Mendonça e José Maciel, a família Ribeiro Coutinho (Dr. Odilon, Dr. Flávio e Ribeirinho), Palu, Jurema Filho, Sotter, Lauro Melo, Zumba Monteiro, dona Candinha Meira de Vasconcelos, Dona Bela Resende, dona Sinhá do Hotel Avenida, a professora dona Marieta e outros nomes da sociedade local.
De Itabaiana, Arthur Coelho foi seduzido pelos mistérios da Amazônia, viajando daí para a América, onde se firma como influente intelectual, depois de muita luta pela subsistência em uma sociedade estranha. “É o mais espantoso fenômeno de aculturação jamais registrado por estudiosos do comportamento humano”, disse Guimarães Barreto. O escritor paraibano José Lins do Rego, comentando a capacidade de renúncia, de sacrifício e de entusiasmo do sapeense em terras americanas, até alcançar seus objetivos, disse num rompante: “Paraibano é danado mesmo!”
Com a auto-afirmação no meio, ao “fazer a América”, o escritor de Sapé ganhou status profissional e casou com uma americana, miss Katharine Rodger, transformando sua casa numa espécie de consulado do Brasil, onde recebia os brasileiros que viajavam à grande metrópole. Passaram por lá Érico Veríssimo, Osvaldo Trigueiro, Assis Chateaubriand e seu amigo íntimo, Monteiro Lobato, que dedicaria ao anfitrião um capítulo inteiro de um dos seus livros da série Dona Benta.
Ele foi um divulgador e entusiasta por tudo que representasse de bom, de nobre, de elogiável na terra e na gente paraibanas. Escreveu inúmeras cartas para os mais destacados políticos e intelectuais de sua época, sobre os mais variados assuntos e questões. Entre seus correspondentes, destacam-se nomes como Monteiro Lobato, José Américo de Almeida, Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Magalhães Júnior, Coriolano de Medeiros, Osias Gomes e inúmeros outros. Esse epistolário encontra-se na biblioteca da Universidade Federal da Paraíba, apresentando-se como um diário pessoal de inestimável repositório literário.

A barragem, o crápula e a ferrovia

Reginaldo Alves surpreende as novas gerações de itabaianenses com a biografia do comerciante e político Luiz Paulino, inserida no seu livro “No Remanso do Luar”. Grande administrador, Luiz Paulino teve um sonho grande na vida: ver a várzea do rio Paraíba inundada pelas águas da barragem de Acauã. Amigo de José Américo de Almeida, moveu céus e terra para ver fincada a pedra fundamental da obra redentora. O governo da Paraíba finalmente inaugurou a grande adutora. O deputado Wilson Braga foi um dos que defenderam o nome de Luiz Paulino para a barragem de Acauã, uma homenagem ao grande itabaianense que tanto lutou por ela. Acabou prevalecendo outro nome. Luiz Paulino, entretanto, será sempre lembrado por ter dedicado suas energias e luta política em prol daquela obra de tanta importância para esta região.

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Antonio Carlos Magalhães, o soba da Bahia, já falecido, andou titubeando e vieram a público algumas de suas safadezas no Congresso. Para se defender, insultou o também já desencarnado Senador Ramez Tebet, Presidente do Conselho de Ética que botou o baiano pra fora do Senado em nome do decoro parlamentar. ACM qualificou o colega de “rábula do pantanal”. Inversão de valores: meu pai foi um rábula, homem decente, inteligente e capaz. Sem ter curso superior, estudou Direito para ajudar os pobres injustiçados. O senador baiano foi médico sem jamais exercer a medicina, professor que nunca ministrou aulas e cujo maior mérito foi posar de cacique na política mais que viciada deste triste país.
Falando em Ramez Tebet, o senador foi agraciado com o título de Cidadão Itabaianense, por razões que ninguém soube e talvez jamais saberá. Tebet morreu sem ter visitado sua cidade honorífica. O homem morava no Mato Grosso do Sul.

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O escritor Marcos Odilon, em uma dissertação sobre ferrovias, deixa evidente que o trem no Brasil descarrilou às margens da História porque era operado pelo Estado. Passei 25 anos de minha vida servindo à Rede Ferroviária Federal, e teria muito a dizer sobre a importância do trem, e porque ele se tornou um dinossauro no Brasil. Só de passagem: o trem perdeu o bonde da História porque seu maquinista atende pelo nome de elite dominante, corrupta e sugadora das energias vitais da Nação. O Estado não tem nada a ver com isso.

O racismo na doutrina espírita

Allan Kardec, decodificador do Espiritismo, tinha idéias racistas. A Bíblia está também cheia de passagens racistas. As religiões, ao se considerarem superiores umas às outras, alimentam esse tipo de pensamento condenável sob todos os aspectos.
Enfocando particularmente Allan Kardec, vejamos o que ele diz em seu livro “A Gênese: "O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso(sic!). Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados."
(Allan Kardec, A Gênese, página 187.)
Mas ele também considerava os negros e chineses, como os orientais de modo geral, raças inferiores. E os índios então, estavam na escala bem inferior, na lógica do Allan Kardec. No “Livro dos Espíritos” ele sentencia: "6 --Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomarmos uma criança hotentote recém nascida e a educarmos nas melhores escolas, fareis dela, um dia, um Laplace ou um Newton?" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Instituto de Difusão Espírita, Araras, São Paulo, sem data, capítulo V, p. 126).
Já a pergunta denota um certo racismo, pois supõe que uma criança hotentote, ainda que educada nas melhores escolas, não teria possibilidade natural de alcançar o nível de um cientista branco. Allan Kardec explicita seu racismo grosseiro na resposta que dá a essa pergunta, por ele mesmo feita: "Em relação à sexta questão, dir-se-á, sem dúvida, que o Hotentote é de uma raça inferior; então, perguntaremos se o Hotentote é um homem ou não. Se é um homem, por que Deus o fez, e à sua raça, deserdado dos privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é um homem, porque procurar fazê-lo cristão?" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Instituto de Difusão Espírita, Araras, São Paulo, sem data, capítulo V, p. 127).
Na ótica dele, superior é o homem branco, caucasiano. Ele chega ao absurdo de duvidar que um selvagem pudesse ser um ser humano. Hitler aprovaria a doutrina racista de Allan Kardec. E olhem que a doutrina espírita de Kardec foi pretensamente revelada por "espíritos superiores".
O racismo não consiste em achar ou não que um negro tenha alma ou possa se salvar, mas em considerar que as raças sejam essencialmente umas melhores do que as outras. Isto é, que uma pessoa, por ser negra, é necessariamente menos capaz ou de menos valor do que uma pessoa de raça branca. Esse pensamento monstruoso, falso e contrário à justiça e à caridade é um dos germes da Eugenia e do Nazismo.

Rádio Comunitária

O jornalista pernambucano Dioclécio Luz escreveu um livro chamado “O que é rádio comunitária”. Essa espécie de manual de guerrilha da comunicação mostra que rádio comunitária é algo simples, prazeroso e também revolucionário. Diz também que rádio comunitária é o oposto de rádio comercial. Sua história está apenas começando no Brasil, por isso todo mundo é livre pra inventar novas formas de fazer rádio, fugindo dos padrões conhecidos, das velhas fórmulas usadas pelas emissoras comerciais para garantir audiência.
As rádios comerciais até parecem com as comunitárias, mas são muito diferentes. Primeiro, uma rádio comercial baseia sua ética no mercado. Se for bom pra garantir audiência tocar música desqualificada, que deseduca e desrespeita nossos valores morais, que se danem os valores! Na comunitária não deve ser assim. O respeito à vida, às minorias, ao ser humano em geral, à nossa cultura e ao meio ambiente está acima de tudo. Enquanto numa radio comunitária a prioridade é promover a verdadeira cultura e o desenvolvimento da comunidade, na rádio comercial o que se promove é o lucro dos proprietários. Jornalismo feito pelas rádios comerciais é voltado para os interesses dos ricos, das elites. Na comunitária, o povo é quem faz o jornalismo, debatendo os temas com a profundidade que cada um merece. Nessas rádios, a audiência é secundária, porque o mais importante é a integração da comunidade, a difusão da inteligência, da cultura e da arte.
A programação de uma rádio comunitária deve atender aos seguintes princípios:
1. preferência a finalidades educativas e informativas em benefício do desenvolvimento geral da comunidade;
2. respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família;
3. não discriminar religião, raça, sexo, preferências sexuais, convicções político-ideológico-partidárias e condição social.
Quem sai um milímetro dessa linha de conduta, está maculando os princípios da rádio comunitária.
E outra coisa fundamental é a democracia interna. A luta pelas rádios livres e comunitárias faz parte de um doloroso processo de democratização dos meios de comunicação no país. Muitos companheiros lutaram, se sacrificaram, foram presos e perderam patrimônio nessas batalhas. Até uma companheira do Piauí morreu em confronto com a repressão covarde, que invade residências, salas e outros ambientes como se lidassem com marginais perigosos, quase sempre de forma ilegal. Quem consegue a outorga, a licença para operar, deve saber que vai gerenciar um bem público que é o espectro eletromagnético, e que deve dar de retorno ao povo a promoção da arte, da cultura e da educação. Para isso é preciso fazer uma rádio diferente, fora dos padrões das rádios comerciais, com imaginação e acreditando na força criadora do povo, principalmente da juventude. É abrir as portas da rádio para a sociedade participar, que é um direito dela.
Na continuidade dessa série de croniquetas sobre rádios comunitárias, veremos a programação e como fazer um bom programa.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Uma heroína de Campo Grande

O filósofo pernambucano Pessoa de Morais afirma que “o brasileiro tem uma tendência para construir mitos, para a exaltação de certas pessoas”, inclinação explicada historicamente pela assimilação do caráter da cultura muçulmana deixada na Península Ibérica, de onde vieram nossos colonizadores. Na verdade, a nossa própria realidade tacanha e sem grandeza nos leva a buscar no passado nomes extraordinários por seus feitos nas artes, na política ou em qualquer área, que nos orgulhe, que nos ofereça dignidade pessoal em meio às insignificâncias do nosso dia-a-dia medíocre. Esses valores culturais, a necessidade de preservar o que temos de excelente, tudo isso é o que impele aos que fazem a Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba à exaltação do nome do poeta Zé da Luz, agora que comemoramos o centenário do seu nascimento.
Descendo às raízes mais recônditas de nossa cultura e história, para examinarmos em profundidade os condicionamentos históricos e sociais, teremos muitas surpresas, que, de certa forma, nos fazem elevar nosso conceito sobre nós próprios, ao vincularmos o hoje e o ontem, entre a História como depositária da tradição, e a sua seqüência inevitável no tempo. Se tivemos gênios literários da estirpe de Zé da Luz, certamente esses valores ainda sobrevivem em nossa geração, em algum lugar. Se tivemos homens dignos como o prefeito Alceu Almeida, procurando, encontraremos pessoas com autoridade moral e honestidade própria de estadistas.
No passado, Itabaiana foi berço de heróis, de revolucionários. Eu encontro alguma coisa de dramática paixão em descortinar véus, numa ânsia de descobrir fatos, valores, idéias ou acontecimentos do passado, num certo afã de quebrar as amarras de nossa tendência em termos em menos conta ou em pouco apreço tudo o que se refere a nós próprios. O retorno às origens, não como um saudosismo estéril, mas como afirmação de nosso caráter enquanto povo.
Tudo isso para informar sobre carta que recebi de Arlen Cezar Tavares de Oliveira, itabaianense residente em Juiz de Fora, Minas Gerais, que esteve recentemente em Itabaiana, leu o TRIBUNA DO VALE e nos confiou o resultado de pesquisa genealógica, feita para traçar perfis dos seus antepassados oriundos do distrito de Campo Grande, em Itabaiana. Arlen diz que naquele recanto itabaianense viveu uma “jovem sonhadora” chamada Leonilla Félix de Almeida, filha do seu bisavô, Antonio Félix Cardoso. Leonilla apaixonou-se por um “homem de cor”, e por isso foi desprezada pela família, em um tempo preconceituoso e discriminatório, já que recém saíamos do regime escravocrata. Abandonada pela família, Leonilla viajou ao sabor da aventura, indo encontrar seu destino na cidade de Natal, onde impregnou-se pelas convicções comunistas, dizem que por influência do marido, um idealista. Quando estourou a “intentona comunista”, Leonilla foi presa com um fuzil na mão, encarnando o ideal libertário de um movimento social combativo, sufocado pela fúria da contra-revolução.
Nessa “leva”, foi também preso o escritor alagoano Graciliano Ramos, viajando de navio com Leonilla e seu esposo para a prisão no Rio de Janeiro, permanecendo encarcerados por dois anos na Ilha Grande. Na cadeia, Graciliano Ramos escreveu o livro “Memórias do Cárcere”, onde faz menção dela e seu marido por quatro vezes, durante o relato de seu suplício na prisão. Leonilla esteve presa na mesma cela com Olga Benário, a mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, personagem de recente filme baseado na obra de Fernando Morais.
Leonilla é da família Félix Cardoso de Almeida, de Campo Grande. Arlen deseja que Itabaiana resgate a história dessa heroína do povo, preservando a nossa memória. “Leonilla saiu de Campo Grande para se tornar um personagem da literatura universal, com sua luta plena de entusiasmo pelos melhores ideais de justiça e igualdade”. É para nós, portanto, verdadeiro paradigma de heroína. Sua memória merece continuar permanentemente viva, para orgulho dos seus conterrâneos, exaltando a “solidariedade que faz da dor de um a dor de todos, e da alegria de todos a alegria de cada um”, como disse Antonio Mariz, outro herói no panteão dos homens e mulheres de boa vontade.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O poeta das caibreiras

Itabaiana era uma cidade florida no começo do século vinte. Famosos os ipês, as caibreiras, os fícus benjamins por sob os quais passava o bondinho puxado a burro, “onde a vida ia e vinha”. O bondinho saía da Praça da Indústria, sendo a vida social marcada pelo trajeto desse meio de transporte e pelas árvores frondosas. Debaixo do pé de gameleira que dava nome à rua da beira do rio, rolou por muitos anos a feira dos cavalos, até que a centenária árvore veio ao chão.
A velha Itabaiana era rica de árvores e de poetas. Por aqui passou um dos grandes, chamado Antonio Maia Neto, desses que sabem os segredos da beleza artística das palavras e das coisas simples de sua aldeia. Por causa de uma celeuma com o prefeito, também poeta, Maia Neto ficou conhecido como o “poeta das caibreiras”.
Aconteceu do prefeito José Augusto Pinto Ribeiro mandar cortar as caibreiras para alargar algumas ruas, “dando espaço ao progresso”. O poeta Maia Neto protestou com belos poemas publicados nos jornais de oposição. Naquele ano, as caibreiras não amarelaram muito, certamente porque a natureza estava avisando que no ano seguinte não haveria bom inverno. Mas o poeta entendeu que as árvores estavam tristes, pressentindo seu destino iminente. E tascou esses versos:

“Eras alegre, altaneira,
Com teu verdinho de cana,
Caibreira, linda caibreira
Do povo de Itabaiana!”

José Augusto Pinto Ribeiro prontamente respondia n’A Folha, o órgão oficial do Município:

“ Velha caibreira, velha carcomida
Tombastes aos golpes de um machado
Levando a morte e renovando a vida.”

O poeta Maia Neto perdeu a batalha contra Pinto Ribeiro, mas ficou na história como um precursor dos modernos defensores da natureza. Dizem que o poeta gostava de tomar uns goles sob as frondosas árvores, e numa dessas viagens recebeu a visita da Deusa da Floresta, que veio saber por que o poeta estava chorando, debaixo das caibreiras na Praça Álvaro Machado. A Deusa veio na forma de uma majestosa mulher, enrolada em galhos de videiras, tendo na cabeça um arranjo florido. Consolando-o, a Deusa da Floresta recitou:

“Vim ter contigo, vim quase às carreiras,
Invocar tua musa predileta,
A mesma que chorou junto às caibreiras
Aos golpes de machado, meu poeta!”

“Molhando a palavra” com a autêntica garapa “Beba Ela”, produzida e engarrafada em Maracaípe, o poeta Maia Neto “desapareceu noite a dentro, abraçado à Deusa, cantando essa canção tão triste e evocativa:

“Adeus Itabaiana das caibreiras
Dos fícus benjamins de braços dados.
Debaixo dessas sombras altaneiras
Eu tive belos sonhos embalados.

Adeus Itabaiana dos currais
De gados soltos pelos marmeleiros,
Das gameleiras belas, colossais,
Que ornamentavam meus sonhos brejeiros.

Adeus Itabaiana da harmonia
De mágicos encantos naturais,
Do perdão, do amor, da poesia,
Dos áureos tempos que não voltam mais!...”

A propósito, me lembrei de uma música que o mestre Sivuca criou com Humberto Teixeira, falando dos vegetais, talvez inspirado nos campos e jardins de sua amada Itabaiana:

“Adeus, Maria Fulô,
Marmeleiro amarelou,
Adeus Maria Fulô,
Olho d’água esturricou,
Adeus, vou embora meu bem,
Adeus Maria Fulô.”

Recursos para a cultura

AUMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA
Artistas vão propor lei à Câmara de Vereadores de Itabaiana


Um grupo de artistas de Itabaiana, arregimentados pela Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba, estão buscando audiência com vereadores itabaianenses para apresentar proposta de lei determinando que as empresas concessionária de serviços de telecomunicações e de energia elétrica paguem uma taxa mensal relativa à instalação da infra-estrutura no município. A cobrança é justificada pelo uso do solo, subsolo e espaços aéreos, implicando em uso de áreas públicas em detrimento da vegetação arbórea e do livre trânsito das pessoas.
Segundo Marcos Veloso, da Sociedade Amigos da Rainha, seria assim criada uma nova fonte de renda para o Município, recursos que seriam destinados a um fundo de incentivo à cultura. “Teríamos então recursos para fomentar atividades culturais no Município custeadas por esta taxa, e seria uma resposta da sociedade à empresa concessionária de energia elétrica que aumentou de forma exagerada o preço do fornecimento de energia”, esclareceu. Segundo ele, os lucros obtidos pela Energisa, empresa que comprou a Saelpa, alcançaram mais de 70 milhões de reais no 1º semestre de 2008 na Paraíba, e mesmo assim os consumidores foram atingidos por um aumento de mais de 15%, maior do que a inflação.
Marcos Veloso disse ainda que a sociedade precisa responder a esses abusos das empresas concessionárias, e uma das formas é a criação dessa taxa pelo uso do solo urbano. “Vamos nos reunir com os vereadores de Itabaiana, e esperamos o apoio de todos para a aprovação desta lei. Vamos falar com a prefeita Dona Dida para que ela aprove também a lei e assine decreto para que a Prefeitura realize a contagem dos postes da cidade mantidos pela companhia de energia elétrica, e cobre por cada poste usado pela empresa”. Para ele, o preço a pagar é muito pequeno, diante dos lucros da empresa, “mas esse dinheiro será muito útil à sociedade, já que vai ser revertido em benefício dos produtores culturais que poderão editar seus livros, montar suas peças teatrais e desenvolver outros projetos culturais para o bem da comunidade”, frisou.

LEI É CONSTITUCIONAL
Segundo Marcos Veloso, a lei que será proposta não fere a Constituição Federal, pois não será criado nenhum imposto, mas cobrará apenas a locação, pelo uso, do terreno onde está implantado o poste de iluminação. Por outro lado, a Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece que os prefeitos não podem abrir mão de receita, sob pena de crime de responsabilidade. Com isso, as prefeituras não podem deixar de cobrar o uso do solo urbano. “Não será criado nenhum imposto e o consumidor não será atingido com essa medida”, esclareceu.
Marcos garantiu, portanto, que a iniciativa tem amparo no Código Civil, endosso da Constituição e é uma exigência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Por outro lado, ele vê como promissora a possibilidade de se utilizar essa verba em projetos culturais, através de uma lei de incentivo que também será proposta aos vereadores de Itabaiana. “Acho que os prefeitos de pequenas cidades devem encampar essa idéia. Essas empresas rasgam nossas cidades, embutem tubulações, não pagam nada e ainda cobram de forma abusiva as taxas de energia elétrica”, disse Veloso, acrescentando que as empresas devem incluir em suas planilhas de reajuste o que deveriam pagar pelo uso do espaço público, “só que nenhum prefeito cobra o que é devido à sociedade”.