domingo, 6 de dezembro de 2015

POEMA DO DOMINGO



PÁTRIA ARMADA

F. Mozart

Vem da sarjeta, vem do gueto infecto,
Do cais do porto, das noites animais,
A horda insana que se joga em repto,
Infantes podres em tons espectrais
Formando assim um virulento aspecto
De uma vanguarda vã, passionais.
E ao “civismo” os cães declaram guerra
Já que ultrajados e párias da terra.

Sem ter raiz, a tropa suicida
Se veste de excremento e cheira cola,
Parteja a morte, come e bebe a vida
Que o capital lançou, granada-esmola
Do grande arsenal que é uma ferida
Olhando do buraco da sacola
Vazia, de aversão e fel inchada,
Assim caminha a minha pátria armada.

Essa epopeia vil, degenerada,
Dedico aos deuses e reis do império
Que alimentam a minha pátria armada
Com confiança e paz de cemitério.
Só vós, a cujos reinos a manada
Doa com fé a sua mente estéril,
Preparas, como perito soldado,
A bomba de efeito retardado.

A justiça de Deus tarda e não falha,
Diz o dogma cristão ocidental,
Por isso, enquanto aguarda sua mortalha
O infante vai traçando todo o mal
De que é capaz sua garra, e estraçalha
A divina formação piramidal
Das elites, celestiais pilares,
Comprometendo as forças regulares.

sábado, 5 de dezembro de 2015

MISSA DE CORPO PRESENTE


Personagens: o bebinho, o defunto, o prefeito, o candidato a prefeito, o padre, a multidão de babaquaras.

O bebinho chega na hora da louvação do defunto. Na cabeceira do caixão, o prefeito. Nos pés do defunto, o candidato a prefeito.

BEBINHO – (Entrando e parando ao lado do caixão) – O prefeito é um safado, cara de pau, malandro e enganador. Nunca foi com a cara do falecido, tolerava à força, pra fazer média. Agora, ta aqui choramingando.

PREFEITO – O senhor está querendo me desmoralizar?

BEBINHO – Desmoralizado o senhor já está, faz tempo. (Voltando-se para o candidato a prefeito) E o senhor, vivia falando mal do falecido, que ele era um traidor, vendido e desleal. Agora, vem aqui chorar suas mal disfarçadas lágrimas de crocodilo.

CANDIDATO – (Partindo para nocautear o bebinho e sendo contido pelos saca-trapos) Seu fela-da-puta, me respeite e respeite o extinto!

MULTIDÃO – (Murmura, zurra, uiva, assobia...)

PADRE - Meus irmãos, respeitemos esse momento solene da entrega da alma desse virtuoso irmão das almas.

BEBINHO – E você, vigário vigarista que só gosta de dinheiro, todo mundo sabe que seu deus é o vil metal, o numerário, os bens de capital.

PADRE – Perdoai, Senhor, que ele não sabe o que diz!

BEBINHO – (Olhando para o defunto) E você, também não era flor que se cheire!

MULTIDÃO – (Cai na gaitada gaiata, insultante das exéquias).

BEBINHO – E vocês, bando de hipócritas, sabem que 90% dos que estão aqui odiavam o falecido. Diziam que era um chato, um farsante, um irritante puxa-saco dos poderosos.

MULTIDÃO – (Assobia, matraqueia, apupa, berra e protesta)

No meio da multidão, um quase bebinho, não de todo um retardado mental, pensa, mas não recita a meditação: “Todo bêbado é um anjo de Deus, portador da verdade”.

(Babaquara: Que é fácil de ser enganado, que comete besteiras que prejudicam a si mesmo e a outras pessoas. Palerma. Tolo. Bestalhão. – Dicionário On Line)


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Não vai ter golpe, mas vai ter gripe! Virose do caray!


Aí, minhas comadres e compadres: devido a uma virose, estou sem poder escrever na Toca, por isso contratei um estagiário.
Eis sua primeira crônica:


“Eu aqui vou falar das grandes obras da humanidade, tirante aquelas obras faraônicas feitas pelos faraós nas areias do deserto, obras aquelas que até hoje são admiradas pela sua grande protuberância e pequeno fedor. Os faraós foram homens de antigamente, que depois de mortos se transformavam am múmias, enrolados na faixa de Gaza.

O Rio Amazonas foi inventado pelos Incas que precisavam obrar uma grande obra, pra concorrer com as pirâmides da Mesopotamia. Cleópatra era uma dona de cabaré que criava uma víbora, com a qual veio a assassinar o amante de Júlio Cesar dos Flamingos. Sua grande obra foi o Canal da Mancha e o casamento com Nabucodonosor. No tempo antigo, as mulheres velhas casavam por que os reis adoravam coroas. Esse Nabucodonosor era também ancião, porque no tempo antigo as pessoas eram muito velhas. É só comprovar vendo as fotos dessas pessoas nos livros de história.

Outra grande obra atual é a transposição. Eu acho errado essa transposição do São Francisco, porque em sendo assim, os outros santos vão ficar morrendo de ciúme.

Importante obra foi o ovo de Colombo. Esse Colombo só botou o ovo em pé, o resto ficou pendurado mesmo, pois o Viagra ainda não havia sido inventado. Com isso, ele, inventou o filme pornográfico, que é aquele onde o artista trabalha nu, com as pornografias de fora. No Brasil, quem inventou o filme pornô foi o índio, que andava nu pra mostar o pau brasil.

Na Paraíba, a obra de destaque é o Viaduto Sonrisal, muito falado no tempo de um tal de Ciço Caboclo. Na verdade, esse nome viaduto está errado. Viaduto é um homossexual adulto. Os homossexuais são assim chamados por viverem vinte e quatro horas por dia pensando no sexo anual. Esses homens pensam em engravidar, mas nunca engravidam por viverem constantemente com as barrigas cheias de chopp ou cerveja.

Outra grande invenção foi a luz, inventada pelo dono da fábrica de fósforos Fiat Lux. A luz percorre trezentos e sessenta quilômetros por segundo. Por razões inexplicáveis, no escuro não percorre nem dez centímetros. E a vela de sete dias só dura sete dias, porque no sétimo dia acaba.”
 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Morreu o poeta Eliel José Francisco


Estes poemas lindos e debochados, mesclados com amor à sua querida Itabaiana, terra também do meu pai, estes versos são característicos do meu sempre cunhado, divorciado da minha irmã, sua primeira esposa. Eliel José Francisco foi o meu inspirador no gosto pela língua inglesa, por meu bacharelado em Direito. Agora, vamos sentir saudades porque ele se foi para descansar dos fardos terrenos em outro plano. Adeus, meu cunhado, amigo e ídolo”. – Regina Maria Queiroz de Lima.

Foi através desta mensagem que fiquei sabendo da morte do poeta Eliel José Francisco, a quem Itabaiana fica devendo uma homenagem.
Para relembrar, publico hoje resumo de duas crônicas que publiquei sobre Eliel aqui na Toca:

Nenhum poeta de Itabaiana cantou mais sua terra do que Eliel José Francisco. O afamado vate matuto Zé da Luz tem belos poemas sobre seu universo itabaianense.  Eu próprio escrevi um cordel com 380 sextilhas sobre a história de minha pátria adotiva. Entretanto, Eliel vence pela quantidade, sem nunca haver publicado um livro em sua vida. Quase todos os dias, Eliel se debruça sobre uma folha de papel almaço e escreve com letras de imprensa um poema de amor e saudade alusivo à sua Itabaiana querida. E isso ele faz a mais de trinta anos, quando foi morar no Recife, perseguindo o sonho de se especializar na língua inglesa. Hoje é professor aposentado, de inglês, na rede pública de Pernambuco.

Eu e Eliel fomos crianças e adolescentes juntos em Itabaiana dos anos 60/70. Lembro de Eliel dedicado ao estudo do inglês, uma obstinação extraordinária, dessas que fazem as pessoas se incluírem nessa designação geral de “malucos”, porque “quem tem idéia fixa é doido”, conforme o ditado popular. Lembro dele agarrado à gramática inglesa na beira do rio, dia e noite estudando e praticando uma pronúncia improvável, porque não havia com quem falar o idioma de Shakespeare. Até que apareceu um cidadão americano na casa da professora Nel Ananias. Eliel foi prontamente designado como intérprete.

Além dessas recordações, tenho pastas contendo centenas de poesias de Eliel. Uma pasta intitulada “Itabaiana” guarda a produção dos seus poemas de amor e saudade itabaianense. O poeta sempre enviava pelo correio, de sua casa em Paulista, Pernambuco. Há mais de dois anos deixei de receber os seus poemas. De alguma forma eu me sinto responsável pela guarda de um material valioso, e até me culpo por não ter me empenhado mais para divulgar a obra de Eliel.


A volta do poeta fluvial

Eliel José Francisco veio de Paulista para visitar Itabaiana, sua querida terra natal. Chegou trazendo debaixo do braço um catatau de versos que traduzem seu bem querer nativista, invocando o passado e tomando cachaça nas barracas do Carretel e do Cochila. “O passado é uma carga pesadíssima, e para carregá-lo tem que tomar cachaça com caju e pitomba”, acredita o poeta Eliel. De vez em quando ele sente a urgência de visitar Itabaiana, ver seu rio Paraíba onde nadou feito piaba nas cheias de antigamente. 

Como nas epopeias antigas, Eliel quer perpetuar em seus poemas, por todos os tempos, o destino de um povo sem muito destino. “Minha poesia é ‘Os Lusíadas’ do pé-rapado, do fuleiro que toma cana e leva tapa da polícia, do zé-ninguém que leva chifres da mulher e se vinga no mel podre da ponta de rua”. Mas ele é capaz de fazer versos tão bonitos como este:

“...foi em legítima defesa
Que eu matei a saudade...”


Professor de inglês, Eliel José Francisco fala mesmo é a língua da Maloca, do Cochila e do Apertado da Hora. “Passei a escrever versos fesceninos, porque em geral o povo gosta de sacanagem”, explica o poeta. “A prova disso é que votam sempre nos mesmos políticos feladaputistas”, raciocina. Eis alguma coisa nesse gênero:

Que saudade da Quixola
Lá do alto do Cochila
Aonde eu jogava bola
Com o nome de “Quizila”.

É a ausência do gosto
Da boceta de Maria
Que esfregava no meu rosto
O bocetão todo dia.

Eu que não era um jumento
Era apenas um menino
Até hoje inda lamento
Dessa boceta o destino.

Porque eu amo a xoxota
E o gosto do perino!
Como qualquer poliglota
Que não é fresco ou cretino.

Também em louvor à dona vulva, Eliel gosta de declamar:

Diz Eliel lá na feira:
Não és tu, Deus, que governas,
É essa caranguejeira
Que a mulher tem entre as pernas.

Rezando na matriz da Conceição, o poeta pediu:

Ó milagroso Jesus!
A vós só peço justiça.
Fazei com que minha cruz
Seja feita de cortiça.

Nessa última visita, o poeta mandou ver umas estrofes me elogiando, que eu fiquei até tomado por sentimento de gratidão pelas palavras do Eliel, pois o Estatuto do Idoso permite ao velho receber bajulação explícita e caridosa sem ficar acanhado. 

Disseram que eu sou poeta
Amante da poesia
Um rimador e esteta
Perfeito na ritmia.

Entretanto, ao ler os versos
Do grande Fábio Mozart,
Nos ritmados processos
E de rima singular,

Pensei: sou meio poeta
Das liras de Itabaiana
Ou, na verdade, um pateta
Que com versalhada engana.

Mas seja lá como for,
Na limitação da lida,
Eu canto com muito amor
Itabaiana querida.


domingo, 29 de novembro de 2015

POEMA DO DOMINGO


ALGUÉM

É um boi que passa
clínico
metafísico
por dentro do ônibus

Pasta uma baba lepra
lambe um silêncio triste
e um chuncho
e um baque

Quantos quilos?
Rabo ou pata?
Tratar com Biu de Malaquias
preço a combinar.


Pedro Osmar

sábado, 28 de novembro de 2015

Poeta de Araruna está no “Alô comunidade” de hoje

Jairo Lima desce a serra hoje, sábado, dia 28 de novembro, para participar do programa “Alô comunidade”. Jairo é autor do livro “Versos cinzentos” e vários folhetos de cordel, metido em performances de poesia visual, agitador cultural da terra das araras negras, no Curimataú da Paraíba do Norte.

“Alô comunidade” é um programa da Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares em parceria com a Rádio Tabajara da Paraíba AM – Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, Coletivo de Jornalistas Novos Rumos, Sociedade Cultural Posse Nova República. Começa às 14 horas. 

Ouça em tempo real pela Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares:
Ou pelo site da Rádio Tabajara da Paraíba AM (1.110 KHZ):


sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Crise? Que crise?


Um tal Wilson Cano, que nem sei de quem se trata, disse que “estamos numa crise que já conta 35 anos de idade”. Presos no auge da glória de sermos pobres de marré marré, temos a honra e o poder de afirmar que não conhecemos crise, porque nossas vicissitudes vêm do berço desvalido. Perder tudo de um dia para o outro, cair no fosso da escassez tendo experimentado a riqueza, isso sim é desgraceira digna de um salto para o aniquilamento. Pobre vive faceiro e exultante no seu mundinho humilde, onde cada pequeno triunfo se enche de brilho.

No decorrer do ano da graça (ou da desgraça, para muitos) de 2016, esse que aqui vos fala, retirado do mundo do consumo por força de sua aposentadoria ínfima, planeja altos esquemas e mira grandes vitórias no seu universo austero, porém honrado. Começando por me dar um presente de fim de ano. Com a bufunfa que irei receber do Sesc por ter ministrado oficinas de cordel, pretendo comprar uma bicicleta de segunda mão, 18 marchas e de alumínio. Quando chegar o ano de 2016, vou ver se arrumo arame emprestado do Governo para montar uma gráfica, um estúdio de rádio e um auditório. É pouco? Já tenho quase garantida a publicação de um livro de poesias, outro de fofocas e cinco edições de jornal literário. Nessa economia vacilante, ainda quero montar uma peça de teatro para comemorar os quarenta anos do Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana e bancar várias exposições do pintor Otto Cavalcanti.

Não é por acaso que me chamam “o vitorioso”. Pobre, porém dinâmico e arrojado. Fale quem quiser do meu jeito um tanto assim pretensioso. Os rancorosos, os bandalhos que ladram atrás de nossa caravana, que voltem a bater o ponto no seu mister de subservientes e incapazes. Eu seguirei em frente, com um ou dois companheiros devotados e firmes em nossa missão de vida.

Pode faltar numerário, mas aqui nesta Toca não falta aspiração e inspiração. E de que é feito esse mundo, senão de sonhos?