quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui


Wellington Pereira


É sempre assim: homens e mulheres negras, orientais e sul-americanos chorando.
Corpos desnudos, a adolescente vietnamita fugindo da paz norte-americana; estudante chinês de braços abertos na Praça Vermelha enfrentando tanques de guerra.

É sempre assim: a mulher pobre violentada por não ter direito ao seu próprio corpo.

É sempre assim: 174 o itinerário da morte dos excluídos.

É sempre assim: meninas virgens grávidas esperando o retorno do anjo e a bênção do bispo.

É sempre assim: a blasfêmia do apresentador de TV diante da limpeza do ano velho pelos garis.

É sempre assim: a corrupção escondida nas meias como presente de Natal.

É sempre assim: o ódio burguês dos intelectuais derramado na incontinência das frustrações materiais.

É sempre assim: a chacina mental patrocinada pelas “elites- neo-socialistas”.

É sempre assim: observar, confortavelmente, a miséria em TVs LCD.

É sempre assim: Haiti!

Dia do enfermo


Hoje é dia do enfermo, conforme consta na folhinha. Sem assunto para tratar na Toca hoje, apelo para o dia do enfermo, começando por confessar que, em virtude da falta de estudo e experiência, não sei por que comemorar o dia do enfermo. Quando o suplicante cai doente, os amigos desaparecem, os parentes cuidam de má-vontade do pobre padecente. Algumas raras visitas de caridade, cumprindo etiqueta.

No dia do enfermo, penso que todos nós somos doentes, frágeis. Achando que estou em perfeita saúde, de repente descubro o desamparo de nossa condição humana.

Mas no dia do enfermo, devo mandar um bilhetinho de felicitações ao cara que está na cama, vítima de derrame cerebral? É de bom tom enviar flores para a moça que teve cólera e hepatite?

Leio que o motivo da data é para sensibilizar governantes e sociedade para uma atenção especial ao enfermo, possibilitando assistência mais adequada. Essa informação está no site do Hospital do Açúcar, em Alagoas. Não recomendo esse nosocômio para os pacientes com problemas de diabetes. Tenho minhas dúvidas se os governantes vão se comover com isso. Melhor a lei formulada por um vereador besta aí do interior, que obrigava o prefeito e seus familiares a se tratar no hospital da cidadezinha, mais conhecido como “matadouro”.

De todo modo, repasso mensagem de um tal Cristian Gump: “Assim, eu venho lhe desejar o pior nessa data. Que você possa comemorá-la padecendo de uma bela gripe, síndrome da redução genital, pneumonia, insuficiência cardíaca congestiva, leucemia linfóide crônica, maldição de ondina, hematocele, ou uma tiriça qualquer”.

Mas não exagere! Guarde-se um pouco para outra data comemorativa. Dia 11 de fevereiro é o dia mundial do enfermo.

Adoeça com moderação!
São meus votos sinceros.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A paixão segundo Caju


A Fundação de Cultura de João Pessoa publicou edital para escolher o texto da “Paixão de Cristo” a ser encenado no Ponto de Cem Réis. Para ser selecionado, o texto deverá observar alguns critérios, entre eles “estar contextualizado com as questões da contemporaneidade, ser original e não ferir nem denegrir a reputação ou imagem de pessoas ou instituições”.

Nosso compadre Maciel Caju, dramaturgo dos melhores, imaginou um texto dramático que reflete toda sua originalidade e genialidade. Descartou logo a personagem de Pilatos e outros prepostos do império romano, para não impressionar desagradavelmente à pátria italiana, cujo povo tem ligação profunda com os episódios narrados na Bíblia. Criou um ambiente neutro, para não “denegrir imagens de pessoas ou instituições”. Waldemar Solha queria botar o estandarte nazista na cena da “Paixão”, o que foi motivo de severa reprovação de Chico César e demais mandatários da cultura tabajarina. Pensando nisso, Maciel tirou logo a águia, símbolo do Império Romano, que poderia muito bem ser confundida com a outra águia imperial, do velho e temido Tio Sam. Diferente de Solha, que insistiu em fazer paralelo entre a saga do Cristo e o totalitarismo moderno, Maciel não quis passar a imagem de um povo indignado, por isso perdedor. Todo mundo na cena da Paixão de Maciel parece ter saído de uma fábula, com seres que habitam o reino da fantasia, sem nenhuma referência a pessoas ou instituições. A traição de Judas ficou de fora, porque poderia ensejar similitudes com fatos recentes da política local.

Em sendo assim, criou-se um espetáculo deveras original, onde situações que poderiam estimular interpretações desconfortáveis tiveram que ser adaptadas. Os personagens são seres imaginários, míticos, possuindo elementos atemporais. Exemplo: foi banida a cena da expulsão dos vendilhões do templo, que bem poderia lembrar as desavenças do alcaide pessoense com alguns cabeçudos vendedores ambulantes. O pai do Redentor teve que trocar de antropônimo, justamente para não lembrar outro José cujo nome constrange e embaraça a trupe amarela.

Renova-se a cena com essa versão nunca antes vista do espetáculo sobre os últimos dias de Jesus. O Ponto de Cem Réis, transformado em palco, será adaptado para a encenação inusitada, que certamente desagradará aos gregos, troianos e peemedebistas, extremistas salientes, veneradores das guerras e arengas inescrupulosas. A coisa toda será tão light que a trilha sonora foi desenvolvida para acalmar a ansiedade e o estresse da multidão, ao som de suave melodia.

Iludir e afastar o povo da realidade seria um sinal da era do anticristo? As profecias anunciam a morte dos “grandes príncipes”, que seriam os políticos, todos corrompidos. Essa passagem certamente não estará no texto de Maciel Caju, afinal um talentoso conciliador e adulador da nova corte.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mestre da autopromoção


Alguém duvida que esse cara seja o Rei da Autopromoção?

Rafert é um cidadão português de 51 anos que lê meu blog e interage com as mensagens ali postadas. Meu leitor de além mar informa que é “saudável no casamento e tem vivido bem até agora”. Escreve contos e crônicas. Lendo a matéria sobre Fatinha, que criticou de maneira deselegante meu jornal “Tribuna do Vale”, ele comentou que meus textos são bons, mas sou mestre mesmo em autopromoção. “Perdoe-me pela sacada”, acrescenta o cidadão de Portugal.

Finalmente descubro que sou mestre em alguma coisa, pelo menos na visão de outra pessoa. Embora peça vênia para discordar do Rafert, no que concerne à crônica citada, porque não sei como alguém que publica opiniões negativas a seu respeito esteja procurando autopromoção. Seria autopromoção se alardeasse meus próprios méritos ou atributos. Mas acho que fui honesto ao divulgar uma opinião desfavorável.

Outro leitor, esse de Itabaiana, respondeu rudemente à dona Fatinha, a mulher que odeia o “Tribuna do Vale”. Zé Luiz, o leitor, sai em defesa do jornaleco itabaianense recomendando que Fatinha “guarde sua língua na boca” porque nunca leu o jornal e não deveria ter feito uma crítica destrutiva à publicação “tão considerada na região de Itabaiana”. Para meu leitor, a madame Fatinha “não tem conhecimento técnico nem bagagem cultural suficiente para julgar a qualidade de um jornal”.

Voltando ao português, talentoso na ciência da autopromoção, não acho que sua observação tenha um cunho ofensivo ou calunioso. Publico vez em quando mensagens elogiosas dos meus raros leitores porque o artista, por mais medíocre que seja, necessita de aplausos. Sabe quem era considerado verdadeiro mestre da autopromoção, além de um genial artista e homem sagaz? O escultor August Rodin. O mestre guardava um vício de caráter: não divulgava a colaboração da sua amante e aluna Camille na feitura de suas obras. Sendo mestre na autopromoção como considera meu amigo português, pelo menos esse pecado não cometo: divulgo todas as mensagens dos leitores que são a razão de ser do blog. Eles fazem comigo esse espaço cibernético.

Conhecedor da vida brasileira, Rafert cita frase do editor Mino Carta, dono da revista “Carta Capital”: “Diogo Mainard é um infeliz e digno de pena. Ter um filho deficiente dá mais pena ainda, porque isso faz dele uma pessoa amarga, invejosa e sem escrúpulos”. Mainard tem um filho com paralisia cerebral. Sem comentários...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

QUERO SER ENTERRADO NU


Quando morto estiver meu corpo,
Evitem os inúteis disfarces,
Os disfarces com que os vivos,
Só por piedade consigo,
Procuram apagar no Morto
O grande castigo da Morte.

Não quero caixão de verniz
Nem os ramalhetes distintos,
Os superfinos candelabros
E as discretas decorações.

Quero a morte com mau-gosto!
(Pedro Nava)

Quando eu morrer, vou nu para meu próprio enterro. Na minha carta-testamento, estará explícito esse desejo: ser enterrado nu, conforme cheguei. Nasci pelado e espero ser enterrado peladão. Quando nada, para afrontar as convenções e afugentar as velhas carpideiras, prenhes de pruridos morais. Ninguém quer ver um defunto nu!
O danado é que muitas mulheres (e alguns homens) vão só espiar o tamanho da piroca do falecido. Aguentar risadinhas e comentários safados, é o fim! Atrairei muitos curiosos, escarnecedores do meu orgulho de macho.

Suzana Vieira disse que quer ser enterrada de mini-saia. Sem calcinha. Eu só vou usar um par de sapatos brancos e vermelhos, daqueles que era a moda nos anos 30. E uma gravata francesa.
Hundertwasser, artista multifacetário, acreditava tanto em reciclagem que pediu para ser enterrado nu, fora do caixão, e descansa em paz peladão na sombra de uma árvore na Nova Zelândia. Eu também dispenso o caixão.

Só não quero ser enterrado como deseja Rita Cadillac, de bruços. É que a dançarina do Chacrinha adora sentar numa manjuba.

O defunto naturista não quer, entretanto, ser enterrado nas areias de Tambaba. Nada contra os naturistas. Uma frase anti-naturista: “Ficar nu é perder toda a humanidade de ser mais do que um corpo, de ser uma idéia no azul cobalto da roupa, no vermelho carmim dos lábios; de ser maior sobre o salto, de ser mais largo e lânguido no tecido que voa na brisa do mar. Ninguém pode ser mais do que o animal castrado, que está nu e não se vê nu”. Discordo. Ficar desnudo é mais que uma prática subversiva, seria um simbolismo para recuperar nossa dignidade aviltada pelos padrões de consumo que regem, orientam e definem nosso comportamento, a começar pelas nossas próprias roupas, já definia Juca Fix, um maluco beleza de São Paulo.

Comerei a terra nua e ela me comerá também despido, numa suprema, inocente e última orgia fecundando a natureza, completando o ciclo vital. Deixado no tranquilo abandono de um terreno qualquer, poderei esticar minha velha ossadura e dormir esquecido do mundo que me viu passar vestido para, depois de morto, zombar de minha carne inerte e compassiva. A imagem horrível de um cadáver nu com mãos enclavinhadas e os pés hirtos será o pior pesadelo daquele canalha que foi para o velório, confirmar se realmente morreu um homem decente e idealista. Viveu como se nunca fosse morrer...e morreu como se nunca tivesse vivido.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Prostitutas de Deus


No dia 18 de outubro de 1974, chegou a Itabaiana uma comitiva da Igreja Católica comandada pelo padre Alfredo Barbosa, de Cabedelo, com a missão de fundar aqui a Pastoral da Mulher Marginalizada, “dedicada ao atendimento das vítimas da prostituição”. Era um encontro de formação com a assistente social Maria de Lourdes Carvalho e as voluntárias Raquel de Vasconcelos e Teresa Neuma. A tentativa fracassou, porque não foi encontrado ninguém para assumir a pastoral das prostitutas. Itabaiana é uma cidade muito preconceituosa, e para se dedicar a esse tipo de serviço é preciso ter paciência, compreensão e atitude fraterna para com os marginalizados.

Esse padre Alfredo Barbosa foi um santo homem. Cuidou dos pobres e oprimidos, lutou pela cultura e deixou seu nome gravado no panteão dos vultos ilustres e generosos da Paraíba. Sua luta era contra a tradição e o preconceito com relação às chamadas “mulheres da vida”. Brandindo o livro das contradições, a Bíblia, os pastores protestantes citavam Provérbios 5: 3 para condenar o trabalho do padre: “Os lábios da mulher licenciosa destilam mel, mas o seu fim é amargo como o absinto; afasta-te dela antes que chegues à ruína completa”. Já padre Alfredo também citava a Bíblia em Mateus 21, 31, onde se lê que as raparigas chegarão ao céu primeiro do que os pastores. Hebreus 11,31 esclarece que Deus pessoalmente concedeu a salvação a uma prostituta por nome Raab.

A própria Igreja Católica sempre teve um sentimento de ódio e rancor contra as mulheres. Começa por proibir o casamento aos padres. A mulher não tinha direito à própria alma. Só ganhou por uma maioria de três votos no Concílio de Marcon. A Bíblia culpa a mulher pelo pecado de Adão. São João Crisóstomo bradava sua misoginia nos púlpitos, acusando a mulher de ser a causa do mal, “a pedra do túmulo, a porta do inferno”. Santo Antonio foi outro a difundir sua aversão ao sexo feminino. Para ele, a mulher “é a cabeça do crime, arma do diabo”.

O certo é que as prostitutas acreditavam em Deus e não em preservativo. Por isso as mães com muitos filhos de pais diferentes, filhos menores nos cabarés, desnutrição, doença, exploração, fome, violência, analfabetismo e carência de tudo. Essa era a realidade encontrada nas zonas do meretrício pelas freiras e voluntárias da Pastoral da Mulher Marginalizada.

Durante muito tempo, Itabaiana foi um dos maiores centros de prostituição do Nordeste. Os cabarés daqui eram famosos, atraindo prostitutas de muitas regiões. A Igreja Católica combatia esse negócio com vigor. O padre não aceitava as putas na igreja. Delegados de polícia proibiam-nas de andar pelas ruas depois das dez horas, raspavam as cabeças das pobres mulheres e causavam todo tipo de constrangimento às hoje chamadas “profissionais do sexo”. Com a decadência econômica, acabou a zona. Ficou o preconceito contra essas mulheres e cidadãs. Tanto que a própria Igreja até hoje não conseguiu formar sua Pastoral para cuidar dessas mulheres infelizes na antiga “capital da putaria”.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Pé-sujo no Geisel


Continuando minha série “os notáveis pés-sujos de João Pessoa”, hoje abordo o Bar do Domingos, no Conjunto Ernesto Geisel (com licença da palavra!). Esse “pé-sujo” é especialista em galinha torrada com macaxeira. Seu garçom, o Cícero, é uma figura descontraída e brincalhona. O dono, Domingos, simpático e bom de papo. A turma gosta de beber na calçada, jogando dominó. Uma das qualidades do bar: não tem som. O show é ao vivo quando Roberto da Sucan resolve cantar velhos sucesso da jovem guarda, acompanhando-se ao violão.

No bar do Domingos encontrei Geraldinho, itabaianense filho de Geraldo Auto Peças, um misto de mecânico e político, que se deu bem na primeira profissão, mas derrapou na segunda, conforme testemunha seu filho. Ficamos relembrando histórias de nossa terra com Palhano e outros itabaianenses que moram no Geisel, talvez o bairro de João Pessoa que tem mais moradores oriundos de Itabaiana por metro quadrado de João Pessoa. Por lá aparecem Roberto, Damião do táxi, Sari, Doca, Marcos Veloso e tantos outros filhos da velha “Rainha do Vale”, escondidos no vale do Cuiá.

O papo descambou para política, que é o prato de resistência de todo cabra de Itabaiana, cidade onde o povo gosta de uma fofoca politiqueira como macaco gosta de banana. Geraldinho se diz frustrado com as lideranças políticas de sua terra. Acha que os políticos caíram na descrença do povo por excesso de mentira e esperteza. Na frente de uma garrafa de cachaça, nenhum segredo está a salvo. Disse que ainda bota uma peinha de esperança no ex-vereador Manoel Medeiros. “Se ele for candidato a prefeito, muito provavelmente terá meu voto”, confessou Geraldinho.

O Bar de Domingos é um lugar cálido, na Rua Adauto Toledo, Box 37, perto do mercado do Geisel. Sopra um ventinho quente na calçada onde se bate um papo descontraído sem pressa nem hora, que quase todos dali são aposentados ou desempregados. Pela tranquilidade que oferece, é um oásis de paz no meio da violência dos subúrbios. E se a coisa pegar, chama-se “Justiça”, um mulato de quase dois metros de altura, segurança da rapaziada. Ele costuma dizer que o Geisel é o único bairro de João Pessoa onde tem “Justiça”.

O bar do Domingos é vizinho ao bar do Osvaldo. Lá, o relações públicas atende por Sílvio Lixo, um rapaz inteligente e conversador, comunicador do povão na Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares. O Osvaldo fecha as portas na hora do almoço e só volta de tardezinha. É feito rádio comunitária: não vive preocupado com a concorrência.