sábado, 20 de junho de 2009

Juiz de Mari bate recorde mundial

Depois de nove anos, retornei a Mari, onde vivi por doze anos. Pense num lugar longe! Pois Mari fica dois dias depois. Não é a distancia geográfica. Falo daquele distanciamento que nos impõe a vida. Eu morando aqui pertinho, em João Pessoa, e só nove anos depois retorno a essa cidadezinha que tem o melhor clima do Nordeste e algumas pessoas merecedoras de uma revisita.

Fui ao escritório do sindicalista Assis Firmino. O homem ta chique, com direito a ar condicionado e pose de executivo. É o manda-chuva do sindicato dos trabalhadores rurais, interino mas é. Como interino, fez umas reformas e tascou uma placa de bronze anunciando a “obra”, perpetuando seu nome, que Assis é a vaidade em pessoa.

Depois fui ao bar de Zezinho Kalai, onde encontrei o próprio e mais alguns papudinhos, do meu antigo time do “Pé Inchado” de tantas glórias garrafais. Tomei umas frias com bode assado e fui ao bar do Nelson, o melhor “pé sujo” da redondeza. Não pelas instalações, sempre sujas e desmanteladas, mas pelos freqüentadores e pelo tira-gosto de traíra. Soube que morreu meu amigo Biu Apaga Luz, um papudinho de respeito, pessoa humana formidável. Seu escudeiro Dedé também se foi, consumido pelo goró de Nelson do Bar.

Saio pelas ruas de Mari com o velho amigo Dr. Jean Monteiro. Revi a casa onde morei, agora abandonada e em ruínas. Mari teve sua geografia reinventada, as pessoas não me conhecem mais. Entretanto, até dos apertos e tristezas sinto saudades, quanto mais das alegrias e coisas boas construídas nesse lugar. Minha casa fica no centro, com vista para o bar. Coisa chique!

Quem me reconhece na rua é Caveirinha, que de pronto me dá um abraço, fala do filho que está com problemas no coração, diz que não está bebendo por conta desse aperreio. Caveirinha é um rapaz cordato, ingênuo e franco. Quando fundei a liga de futebol de Mari, botei Caveirinha no quadro de árbitros, chefiado por João Peão, um senhor da cabeça grande que a gente chamava “cabeça de navio”. João Peão não entendia nada de regra de futebol, mas como ninguém tinha convicção de sua ignorância, arbitrava os jogos e ditava regras. Por exemplo, numa partida ele marcou um pênalti que até o time favorecido achou tão absurdo que nem quis bater a falta máxima. João Peão não titubeou: “eu mesmo chuto o pênalti, pois ta na regra: quando ninguém quer bater, o juiz fica encarregado da cobrança”.

Caveirinha é dono de um recorde mundial, de que muito se orgulha: conseguiu ser agredido em três partidas de futebol no mesmo dia. Pela manhã, apanhou apitando uma pelada de veteranos, à tarde levou umas tapas no jogo de aspirantes da Liga, e à noite foi vítima de cascudos em partida de futebol de salão. Um dia, Caveirinha foi à minha casa em companhia de um sujeito, para certificar-se de sua façanha.

--- Fábio, diz a esse cara se eu não sou o único juiz do mundo que apanhou três vezes em três partidas no mesmo dia.

Confirmado o recorde, os olhos de Caveirinha brilhavam de orgulho:

--- Fábio entende de futebol, cara!

Jornalismo indecente

“A imprensa reflete o grau de democracia da sociedade e o Brasil ainda não atingiu maturidade política para conviver com uma imprensa livre” – Francisco Karan, autor do livro “Jornalismo, Ética e Liberdade”


“Somos picaretas, mas quem não é?”. Esta é a reflexão do jornal PARAÍBA HOJE, no seu editorial de lançamento, em maio de 2003. O jornal, que circulou em João Pessoa, dirigido por Vanildo Guedes Pessoa Filho, divulga com destaque: “Todo mundo sabe que é impossível, hoje, um veículo de comunicação – seja rádio, TV, jornal ou revista – sobreviver sem um comprometimento da linha editorial com quem está “bancando”, sobretudo o Poder Público. PARAÍBA HOJE chega às bancas sem a pretensão de ser independente ou imparcial. Não queremos cair no ridículo de mostrar que nossos profissionais são isentos dos vícios que a cada dia comprometem os princípios que norteiam a profissão de jornalista. A velha cartilha só existe hoje na memória de uns poucos ou nos escombros dos sebos culturais da vida”.

Essa rapaziada do tal jornal certamente tem diploma universitário, cursou faculdade de comunicação, sendo teoricamente pessoas comprometidas com um jornalismo qualificado, inclusive do ponto de vista do bem. Esse pessoal sai do banco da universidade com essa “garra” toda, suscitando alguma meditação. Primeiro, se eles têm essa convicção de que a imprensa precisa depender dos favores do dinheiro público, sem temer inclusive o escândalo que é admitir publicamente em um editorial, alguma verdade existe sobre o fato. Sem atentar para qualquer nível de responsabilidade social que um órgão de imprensa deve ter.
Depois, ficamos imaginando que tipo de educação tiveram essas pessoas na universidade, e que espécie de informação o homem comum recebe de pessoas e entidades com esse viés, que certamente leva à informação-desinformada ou à deformação. Sem querer apelar para filosofia barata, temo que isso é sinal dos tempos, um fim de civilização mundano e pobre humanamente, em que se perderam noções morais e éticas, que relegou a cultura humanística a um plano secundário. Que perspectiva temos de retirar o povo brasileiro dessa situação de miséria cultural e informativa, quando um jornal confessa que joga sujo e o sindicato da categoria, por exemplo, não se manifesta, e os confrades da província fingem que não é com eles? Pode-se argumentar que é um jornal insignificante, mas isso pode ser uma prova documental, um forte indício de que os que usam e abusam das empresas de comunicação estão preocupados apenas com a perspectiva de se tornarem ricos, opulentos, ou simplesmente “ganhar a vida” alugando sua consciência. O direito dos indivíduos a uma informação correta e imparcial não é respeitado em nenhum nível, conforme esclarece o editorialista do PARAÍBA HOJE, decretando que não existe liberdade de informação jornalística neste país. Para corroborar com essa convicção do “jornalista”, qualquer leitor de mediana inteligência sabe que a imprensa paraibana não cumpre o seu papel de questionar modelos vigentes que deveriam ser alterados em prol da sociedade, com raras exceções, dentre elas o colunista Rubens Nóbrega, do CORREIO DA PARAÍBA. Bater palmas para os poderosos do dia ou encetar campanhas oposicionistas em nome de esquemas políticos manjados, esse é o jogo, o lugar-comum de nossa pobre imprensa, que bem merece a companhia do PARAÍBA HOJE.

Desde 1970 trabalho com essa matéria, a palavra escrita. Naquele ano, um dos mais emblemáticos da ditadura militar recém instalada no Brasil, fundei o JORNAL ALVORADA, em Itabaiana, com o slogan: Aqui vendem-se espaços, não idéias. Depois disso, entre prisões, processos e outros tratamentos injustos que os donos do poder reservavam para os contestadores, fundei os jornais FOLHA DE SAPÉ, O MONITOR MAÇÔNICO e TRIBUNA DO VALE, colaborando no Timbaúba Jornal, A Folha (Itabaiana), Alquimia do Verbo, Umari Notícias, Força de Expressão (Sapé), Itabaiana Hoje e fiz parte da equipe de jornalismo do Portal “Conhecendo a Paraíba”, na Internet. Trabalhei como tipógrafo, fui diretor de imprensa do Sindicato dos Ferroviários e repórter do jornal O NORTE na década de 70, indicado pelo grande jornalista Cecílio Batista, também itabaianense. Desde então, publico crônicas e comentários esparsamente em jornais e revistas, versando sobre arte, fatos locais, apreciação histórica, sociológica ou mera composição literária. Sou autor dos livros PÁTRIA ARMADA, MANOEL XUDU, O PRÍNCIPE DOS POETAS REPENTISTAS, HISTÓRIA DE ITABAIANA EM VERSOS e A DEMOCRACIA NO AR, livro que conta a história do radialismo comunitário na Paraíba, área onde atuo desde 1990, tendo fundado as rádios Araçá, Zumbi dos Palmares e Vale do Paraíba.
Com essa vida de jornal, fui procurar o sindicato da categoria para o devido registro profissional. Do alto do seu preconceito, nosso amigo Land Seixas colocou tantos obstáculos que desisti de ser “jornalista profissional”. Land acredita que a formação acadêmica é indispensável ao trabalho do jornalista. Defendendo a sua categoria, ele acha que o dano causado à sociedade por uma palavra escrita erradamente, um texto fora do contexto, é muito maior do que aquele causado pelo “jornalista” que força a barra, inventa notícias, cria fatos e divulga informações com apenas uma versão, para servir a interesses de quem paga. Confesso que não sou um bom jornalista. Ainda hoje erro muito, com a humildade de estar sempre aprendendo. Mas nunca me deixei corromper, e isso não se aprende na universidade. Aprendi muito sobre ética com meu pai, Arnaud Costa, velho jornalista que muito honra as tradições de cultura de Itabaiana, a terra de Zé da Luz. Se, para ser jornalista profissional, para “ganhar a vida” nesse ofício é necessário abrir mão da independência, como esclarece o jornaleco citado no início, prefiro continuar fazendo meu trabalho de forma séria e responsável, mesmo que clandestinamente, sujeito à rigorosa fiscalização do sindicato de Land Seixas. Mesmo que o “profissional” Vanildo Guedes Pessoa Filho ache ridículo e ultrapassado essa história de ética na imprensa.

(Publicado no jornal TRIBUNA DO VALE, de Itabaiana, em março de 2003)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

"Fuleiragem music" domina rádio de Sapé

Uns chamam de “forró estilizado”, outros rotulam essas bandas de “fuleiragem music”. As bandas, por sua vez, batizam-se de “forró romântico”. Não passa de um modismo cuja receita é muita baixaria e machismo. Por tabela, essa música de péssima qualidade descaracteriza nossa cultura nordestina e introjeta na juventude comportamentos danosos à sociedade. As letras da “fuleiragem music” apresentam uma temática repetitiva e de uma estupidez sem limites. Os espetáculos de rua enfocam cenas de pretensas danças que normalmente só se assiste em boate ou clube privê.

O que mais causa apreensão é a forma como a mulher é tratada nas letras dessas músicas, e a regressão a que está sendo levado o relacionamento homem/mulher. O crítico de música pernambucano José Teles disse que “o que o movimento feminista levou décadas para construir, os autores desses repertórios estão destruindo em poucos e pobres acordes”. Nas letras, a mulher não é só objeto, é um objeto descartável, sem valor e sem caráter. Pegue-se uma letra da música de uma banda dessas, chamada “Tapa na cara”. É de uma grossura inacreditável. Tem um trecho que diz: “ela apanha pra dormir e acorda pra apanhar”. O cara bate na mulher em todas as estrofes e no fim se justifica: “os vizinhos não sabem a cachorra que ela é”.
A Prefeitura de João Pessoa, em boa hora, excluiu esse tipo de banda em seus eventos musicais de rua. Caruaru acaba de decretar que no São João não se toca música de “forró bundinha”, como também é chamado esse lixo cultural. É uma questão apenas de bom senso e respeito a certos valores morais, éticos e culturais que não dá pra desprezar em nome do sucesso, do aplauso do público entorpecido por esse tipo de música. Esses critérios de escolha do que se deve pagar com o dinheiro público é que fizeram com que as prefeituras citadas deixassem de programar “forró de plástico” em seus eventos.

Eu lamento ouvir nas programações de pretensas rádios comunitárias o dia todo tocando essas porcarias. Eu acho que todo mundo tem o direito de gostar do que acha que é bom, por pior que esse “bom” seja. Ainda mais que, sem opção, o ouvinte só escuta esse tipo de música, porque o esquema de jabaculê é tão forte que as rádios comerciais só tocam o “forró de merda”. Sem opção, o ouvinte passa a apreciar o lixo que lhe impõem. Mas daí a programar essa excrescência em uma rádio comunitária, é de amargar!

Primeiro porque rádio comunitária está fora dos esquemas do jabaculê, que é a grana correndo frouxa para os bolsos de programadores e locutores das rádios comerciais para tocarem até a exaustão o que mandam as gravadoras. Depois, acham que é chique tocar aquela banda que apareceu no Faustão, mas no fundo estão dando força ao subproduto da indústria cultural e menosprezando o respeito à nossa cultura e aos direitos fundamentais das pessoas.
Passei em Sapé e sintonizei a Rádio Comunitária Sapé FM, que na verdade pertence ao meu compadre Mestre Camilo, um palhaço de pastoril que veio do rádio comercial e botou sua tendazinha com o nome de comunitária. O dia todo, a rádio do mestre Camilo só tocou “fuleragem music”, igual às rádios comerciais. O mestre Camilo não é culpado por sua rádio imitar as comerciais e só programar essas músicas lamentáveis. Ele não sabe, e talvez jamais venha a ter essa consciência, de que são os padrões e valores que determinam o comportamento social e que a indústria cultural é que diz como nos comportar. Ou seja, eles dizem o que é importante aprendermos. Sem nem notar, mestre Camilo divulga na sua rádio a ideologia da indústria cultural que é reacionária. Mestre Camilo toca o que está na moda, aquilo que as gravadoras determinaram que a gente ouvisse para que o povo comprasse o que vendem. Um certo companheiro de rádio comunitária me disse um dia: “se a gente não tocar o que as rádios comerciais tocam, não vamos ter audiência”. Eu acho, no entanto, que audiência não é fundamental para uma rádio comunitária.

Na Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares, em João Pessoa, onde milito, a gente só toca música paraibana de qualidade. Sabe como a gente consegue manter a audiência? Botando o povo para falar na rádio de 15 em 15 minutos, o dia todo. O povo gosta de se ouvir no rádio. A comunidade mantém a sintonia na rádio porque sabe que estão falando de sua realidade, dos seus problemas e de coisas que estão acontecendo no seu quintal. Mas a maioria das “comunitárias” acha mais fácil tocar o lixo da moda para manter audiência.

A trilha sonora dessas rádios comunitárias que apelam para o esquema fácil de tocar baixaria anuncia apenas que são falsas comunitárias. Porque rádio comunitária é uma coisa nova, cujo objetivo é ajudar a mudar a sociedade, e a comunidade só assume a rádio de fato quando percebe essas diferenças. A questão cultural é fundamental para as mudanças sociais. As pessoas brigam por tantas coisas, mas não brigam quando nossa cultura é estuprada. E é o que faz esse tipo de música: estupra nossa cultura.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A reforma ortográfica de seu Nabunda

A Reforma Ortográfica, que pretensamente veio unificar o português falado nos países lusófonos, tem sido alvo de muitas críticas. O escritor português João Pereira Coutinho disse que é contra a Reforma Ortográfica porque “a língua pertence aos seus falantes, não a um conselho de sábios que se considera dono da língua”. Em artigo publicado na Folha de São Paulo, em 28 de setembro de 2008, Coutinho afirma que é visceralmente, filosoficamente e linguisticamente contra a Reforma. Ele alega ser incapaz de aceitar que “uma dúzia de sábios se considere dono de uma língua falada por milhões”. Ele se diz opositor da Reforma porque acredita que a língua é produto de uma história que está sendo ignorada. “A pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado”, assegura.

Sem saber nada de Acordo Ortográfico, semi-analfabeto que é, o chaveiro pernambucano Everaldo Cabral tascou a seguinte frase em sua barraca de fazer chaves: “Xave é 1 rial”. Seu Nabunda, como é mais conhecido, de início ficou arretado com as galhofas dos amigos e passantes, por conta de ter trocado o “ch” de chave pelo “x”. Todo mundo queria corrigir seu Nabunda, que logo virou atração na pracinha onde ganha a vida fazendo chaves. Percebendo que era negócio esse negócio de escrever “errado”, seu Nabunda, um intuitivo da arte do marketing, escreveu diversas frases numa placa. Algumas das “pérolas”: koncerta i amola tizora faka i alikte – Fásso k.rinbo – Dô haúla di putugez.

Ao resolver escrachar nos erros, seu Nabunda descobriu seu maior acerto. “No Brasil, fazendo as coisas erradas é que dá certo”, raciocina ele. Com essa brincadeirinha, seu Nabunda é o chaveiro mais famoso do Recife, com uma disputada barraca na esquina da Rua da Soledade, na Boa Vista, ou “Soliedade” como prefere chamar.

Já o juiz de futebol português Carlos Xistra andou desfacilitando a língua, conforme os termos da súmula sobre apresentação de cartão amarelo ao jogador Micolli, do Benfica: “O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitar o guarda-redes visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com o auxílio à utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu. O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto, mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento, desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior à zona do externo, felizmente desacertando-lhe. Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva”. Agora me arresponda: é possível unificar línguas tão diferentes?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Xico Sá e as bundas secas

Xico Sá é jornalista e escritor. Inscreveu-se na cruzada em defesa das bundas grandes, esse “latifúndio dorsal” em extinção devido ao modismo das mulheres que agora só pensam em malhar nas academias e passar fome para ter um corpinho de bailarina, um ideal de beleza padrão Gisele, aquela que parece um vara-pau da bunda seca.

Xico escreveu uma carta ao sociólogo Gilberto Freyre, reclamando de outro modismo em larga escala entre o mulherio, principalmente entre aquelas chamadas da “meia-idade”. Isso porque Gilberto Freyre foi o maior divulgador da beleza morena da brasileira. Só que agora toda mulher só quer ser loira. Ele lembra Sonia Braga e outras morenas que viravam as cabeças (ambas) dos homens em tempos idos e vividos. Agora a moda é alisar os cabelos e pintar de loiro.
Gilberto Freyre, do lugar onde está comendo sua rapadura e tomando seu suco de pitanga, deve estar imaginando o que diabo vem a ser “chapinha”, instrumento desconhecido nas casas grandes e senzalas. Ele que escreveu o livro “Modos de homem & Modas de mulher”, em 1986, sabe muito bem que o saboroso eram as carnes macias, boas de se apalpar, das fofinhas de antigamente. Nossa geração foi sentimentalmente educada para apreciar as fofinhas. De repente, a indústria da moda transformou as mulheres em massas musculosas de zagueiro central. Bundas duras, corpos musculosos. Por isso, a campanha de Xico Sá pela volta da fartura da bunda.

Esse camarada admirador das roliças formas femininas apela ainda ao sociólogo do
Apipucos que por favor psicografe um manifesto, um panfleto em favor da volta das morenas e fofinhas “para evitar a catástrofe definitiva”. Para ele, as cheinhas ou desapareceram ou estão meio desgostosas.

De minha parte, coloco um adendo à melancólica carta de Xico Sá, aquele que se diz apreciador de uma bela bunda, “uma jambo-girl”. Diria ao mestre de Apipucos que a involução das modas de mulher também se dá no quesito respeito. Hoje as jovens mulheres se deliciam nas praças, cantando e dançando ao som de músicas que as chamam de putas, cachorras, safadas e raparigas. Essas músicas falam de como se deve bater e humilhar as mulheres. São as bandas de duplo sentido e de apelo sexual fazendo a cabeça da juventude e moldando-lhe o gosto musical da pior forma possível. Isso também é trágico.

terça-feira, 16 de junho de 2009

AO MESTRE COM CARINHO

O incomparável Graciliano Ramos costumava dizer que ninguém nasce com adjetivos. Eles nos são aplicados quando crescemos, por amigos e por inimigos, muitas das vezes sem um juízo de valor.

Eu particularmente sou avesso a essas colocações, em relação à determinada pessoa, porque em certas situações torna-se até piegas e desajeitado. Deixo de lado as divagações e volto ao começo.

Quando garoto, no desabrochar da adolescência, em meados da década de setenta, fui trabalhar na Delegacia de Serviço Militar de Itabaiana. Uma das primeiras pessoas que lá encontrei foi ARNAUD COSTA, também funcionário daquele órgão. O caráter de um homem é muito subjetivo alguém definir. Mas, em contraposição aos brutamontes oficiais do Exército que comandaram aquela unidade, lá estava ARNAUD, distribuindo bondade e muita paciência aos civis que ali trabalhavam, desacostumados com os excessivos rigores da vida militar.

Vendo-o acessível, desenrolado e inteligente, acompanhei-o em outras atividades que ele exercia, dentre elas a jurídica, mais precisamente na área penal.. Generoso como ele, prestou relevantes serviços á sociedade itabaianense, principalmente no tribunal do júri, onde defendeu inúmeros réus,em sua maiorias pessoas desprovidas de recursos para cobrir as despesas no curso do processo.

Orador versátil, empolgava nas sessões do tribunal do júri, sob os olhares das multidões que invadiam os auditórios para assistir os debates orais com os representantes do Ministério Público e assistentes de acusação. Equipara-se a outros artistas da arte retórica e eloqüente das lides forenses paraibanas, tais como Osmar de Aquino, Joacil de Brito Pereira, Raimundo Asfora, Pedro Gondim e tantos outros.

Os juristas não cansam de afirmar que a grande arma do advogado é a palavra – falada ou escrita. ARNAUD não se destacou somente na arte da retórica. Sua verve no campo da escrita sempre foi inconfundível, com um poder de persuasão perante as autoridades judiciárias. Sua prosa sempre foi pautada na coerência, e quando necessário perlustrava entre o popular e o erudito - de Zé da Luz a Brecht.

Apesar da sua vasta cultura – autodidata -, diga-se de passagem, ele não possuía nenhuma graduação, mas mesmo assim empolgava juízes, promotores, defensores públicos, advogados militantes e serventuários da justiça, pela maestria com que abraçava as causas criminais, em sua maioria, coroadas de êxito.

Alguns, principalmente aqueles mal resolvidos na profissão de advogados, verdadeiros chicaneiros, chamavam-no de rábula, mas de uma forma rancorosa e preconceituosa. Assim se expressavam porque ele incomodava. Outros profissionais, como os Cabos, Sargentos e leigos, que atuavam como Delegados de Polícia, não sofriam qualquer patrulhamento. Os rábulas, verdadeiros heróis do seu tempo, mereceram uma homenagem do grande Ronaldo Cunha Lima, nos seguintes versos:

Sem anéis de titulados
mas na vida acostumados
aos seus enredos e fábulas,
muitos devem a liberdade
a esses doutos da verdade
os meus amigos, os rábulas.

Acompanhei bem de perto o trabalho advocatício de ARNAUD COSTA, em algumas cidades, onde o meu pai foi Delegado de Polícia. Daqueles tempos é que me despertou, como também em outros profissionais, o interesse pelo direito, especialmente a área criminal, onde atuo até hoje. Vi-o na militância, sem rodeios. Tanto fazia atender um cliente num palacete, como em um casebre, lá nos cafundós da Paraíba, em que a mobília se restringia a dois tamboretes e uma esteira. Eu, na condição de Escrivão “ad hoc”, com uma máquina de escrever nas costas, tinha que me virar para que os depoimentos saíssem a contento.

Na acepção da palavra, o advogado criminal atual perdeu um pouco esse contato com a realidade. Principalmente porque, se é incontestável que o universo criminal tem na sua origem apurar o fato delituoso e a sua autoria, também é verdadeiro que o profissional da área penal deve acompanhar a transformação de um boletim de ocorrência em inquérito, o inquérito em denúncia ou pronúncia, estas em processo, os processos em decisões condenatórias, as decisões condenatórias em internações compulsórias nos estabelecimentos prisionais, estes por sua vez abrigam profissionais da medicina, psicologia, serviço social e outros. Logo, impossível qualificar o trabalho desenvolvido por ARNAUD COSTA, de forma limitada e preconceituosa. Porque a sua atividade sempre exigiu uma gama de outros conhecimentos, senão jamais teria entrado numa sala de audiência, lado a lado com os operadores do direito. A atividade por ele exercida foi sempre mais além – é o que os pedagogos chamam de interdisciplinariedade. A soma de tudo isso faz com que eu o trate não como um simples rábula, mas sobretudo, um conhecedor de gente, dos seus problemas sociais e de como resolvê-los.


JOACIR AVELINO SILVA
Delegado de Polícia Federal
no Estado de Alagoas. Email:joacirpb@uol.com.br

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um herói do nosso tempo

Fomos encontrá-lo no seu recanto de trabalho e fé, na Cidade Cristã. Não gosta de publicidade, não é do seu temperamento nem condiz com sua fé religiosa. Fala com a serenidade de quem acredita no seu projeto de vida. O dele é servir ao próximo.

Funcionário aposentado do Banco do Brasil, Melcíades Brito nasceu em Campina Grande. Fundou em Sapé uma instituição filantrópica, a qual oferece amparo para mais de 600 pessoas diariamente, entre jovens e adultos. Lá funcionam uma creche, um centro de convivência do idoso, uma unidade escolar, um centro profissionalizante e um posto de saúde.
Pode parecer estranho, mas muita gente em Sapé não conhece as atividades assistenciais desenvolvidas pela Cidade Cristã. Ele realiza esse trabalho em uma circunstância histórica em que as pessoas não acreditam muito na capacidade do homem de se dedicar ao seu semelhante, em que a importância de se entregar a uma causa já não se vislumbra mais. O neoliberalismo, a face materialista da humanidade torna o ser humano duro e egoísta. O idealismo de Melcíades Brito é tão distante das paixões mundanas e dos conflitos ideológicos que, às vezes, incomoda. Políticos de Sapé já saíram dos seus cuidados para tentar inviabilizar os projetos sociais da Cidade Cristã em Brasília, nos órgãos do Governo Federal.

Faça uma visita à Cidade Cristã, para revigorar suas forças espirituais na contemplação de um trabalho social que tem a energia Daquele que disse: "A caridade é o caminho da salvação". Melcíades serve a Deus seguindo seu Mandamento: "Ameis uns aos outros como eu vos amei" (João 15-12). Esse homem generoso, espécime difícil de se encontrar, é um lutador pelo bem comum, mas "sem perder a ternura jamais". Com ternura, ele compõe músicas (gravou um CD belíssimo), escreve livros de meditação espírita e "combate o bom combate". Nesta terra onde o individualismo prevalece, Melcíades Brito, na sua humildade evangélica, é uma figura maior, não porque escolheu essa condição, mas porque a atitude dele, no cotidiano da luta pelo bem-estar dos pobres, torna-o notável e magnânimo. Vivendo para o seu semelhante, é um verdadeiro herói do nosso tempo.