terça-feira, 22 de abril de 2014

Revisão é coisa séria


Nelson Rodrigues disse que alguém disse, certa vez, o seguinte: - o único erro que justifica o fuzilamento é o erro de revisão. Parece piada, mas nem tanto, nem tanto. Qualquer autor, vivo ou morto, tem cravado, na carne e na alma, um erro de revisão.

E segue a gostosa crônica gramatical do velho e bom Nelson: “No Brasil de hoje, é mais fácil achar uma girafa do que um gramático. E, se por acaso, ainda existir algum neto retardatário e obsoleto dos antigos gramáticos, será ele o primeiro a fingir-se analfabeto. Não reparem que eu misture os tratamentos de 'tu' e 'você'. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância.
Minha revisora Jandira Lucena está com os originais do meu livro “Artistas de Itabaiana” há bastante tempo, que essa professora é muito exigente e ciente da importância do seu trabalho. Faz questão de passar o texto várias vezes. Quem escreve sabe que precisa de uma segunda olhada no texto para detectar eventuais erros factuais, gramaticais ou de ortografia. Os mais caprichosos repassam até cinco vezes o texto. Um erro pode comprometer uma obra, levando para o fundo também o nome do revisor e da editora.
Um olhar de estranho é fundamental para detectar erros. Tem gente que imprime o material e lê em voz alta para ouvir bobagens na construção das frases. Outros tentam enganar o cérebro, modificando o formato do texto (mudando a cor, a fonte).
Amigo meu pediu um texto introdutório para seu livro. A edição saiu com um erro vergonhoso: prefácil. Abaixo do texto, meu nome. Não sei quem foi esse luminar da revisão que desmoralizou meu texto, mas, deixa isso pra lá. O título do livro não vou dizer pra não ferir os chamados brios do autor, meu compadre e amigo sincero e popular. Entretanto, faço um apelo a todos os leitores, ratos de biblioteca, fuçadores de sebos, detetives, investigadores e colecionadores de livros: quando virem um livro cujo prefácio virou “prefácil”, façam o favor de me avisar para o devido resgate e queimação na fogueira santa das regras gramaticais.  



segunda-feira, 21 de abril de 2014

Girafa, bicicleta e guarda-roupa

O canalha Ameba escreveu no seu Twitter: “Por um mundo sem parente te visitando aos domingos”. Ele acha um pé no saco receber parentes no dia em que você se programou para ficar em casa com aquele calção folgado, tomando sua cervejinha e vendo futebol na TV. Isto porque o intolerante protozoário pensa que jamais vai envelhecer, ficar sozinho em casa esperando a visita dos filhos. E não venha com discurso de “melhor idade” que isso é exceção. Geralmente a gente envelhece mal. Raro quem envelhece ativamente, enfrentando a terceira idade com dinamismo.
Minha mãezinha vai completar 80 anos em dezembro. Fui visitar meus pais ontem. Nossas visitas são acontecimentos sociais e culturais na vidinha dos meus genitores. O pai está sedentário, o cérebro reduziu as atividades, mas a memória tinindo. Não perde a capacidade de memorização e raciocínio, apesar de acometido de acidente vascular cerebral.  Enquanto seu Arnaud abusa de estimular os neurônios com sua memória prodigiosa, dona Iraci, sua esposa, anda esquecendo as chaves, deixando o arroz queimar no fogo ou se esforçando para lembrar o nome do neto mais velho. São os efeitos do tempo. Eu mesmo já ando confuso. Meus 82 bilhões de neurônios não se entendem entre si. Perco as datas, fico com aquela impressão de que está faltando alguma coisa nos bolsos quando saio de casa, tenho pequenos colapsos cardíacos pensando que esqueci os documentos, paro na estrada para conferir se está tudo no meu saquinho de carregar as tralhas. Com o pensamento voltado para outras coisas, outro dia esqueci de vestir as calças. Constrangedor. Isso tem cara de ser aquela doença que as pessoas começam a esquecer tudo... como é mesmo o nome?
--- É a tal PVC (porra da velhice chegando) – esclarece Ameba.  
Ontem, fiquei sabendo que minha mãezinha foi ao médico se queixar dos esquecimentos. Ela não me disse diretamente, mas o pai entregou o jogo. Foi na hora dele tomar os remédios. Chamou sua madame:
--- Iraci, lembra das três palavrinhas?
E ela, na bucha:
--- Girafa, bicicleta e guarda-roupa.
Não entendi! Ele explicou: o médico recomendou um treino para combater a amnésia. Decorar essas três palavrinhas que não têm nenhuma relação entre si e pronunciar de vez em quando.
Meu velho pai, malandro estudado, também trata de perder a memória providencialmente, para evitar antigas discussões do casal. Levei um CD de Alaíde Costa, cantora de bossa nova. Ela aproveitou para provocar o marido:
--- Arnaud, lembras de uma namorada tua com o nome dessa cantora?
 Ele encerrou a conversa inconveniente:
--- Lembro não.
Uma dose de esquecimento na hora certa sempre é bom.
Eu, avanço na meia idade, com anseios de terceira. Idade. Desconfio que preciso de ginástica cerebral. Cheguei em casa, tentei lembrar das palavras, não consegui. Liguei para minha mãe, ela repetiu imediatamente:
--- Girafa, bicicleta e guarda-roupa.
Os cérebros de papelão dirão que isso prova minha definitiva senilidade.
Sim, antes que me esqueça: a comercialização da Páscoa chegou ao cúmulo. O filho de Ameba perguntou:
--- Pai, Jesus era um coelho?

domingo, 20 de abril de 2014

POEMA DO DOMINGO

Panelas de Nevinha da Cerâmica (Itabaiana/PB)


ENTRE PANELAS DE BARRO


Entre panelas de barro
Vive o poeta cantando
Alegre improvisando
Sobre a mulher e o jarro
Pode parecer bizarro
Mas cantar assim faz bem
Vive triste quem não tem
Essa viva consciência
Que a destacada eminência
É ser de barro também...

Sander Lee





A imagem é o "calcanhar de Aquiles" de qualquer político. Quem se envolve com o poder fica vulnerável junto com a instituição pela qual é responsável. Quem está no poder sempre tem alguma coisa a declarar, a prestar contas à sociedade, que é quem paga as contas, no final. Um assessor de comunicação sem traquejo deixa a imagem do chefe arranhada mais do que já é na realidade. Em Itabaiana, o prefeito Antonio Carlos tem o assessor de comunicação Carlão Safyra, profissional dos bons, que atende ao público e aos colegas da imprensa com presteza e gentileza. Um dos bons quadros da atual gestão.

Socialista insinua que Cássio traiu Félix, Cozete, Ricardo Coutinho, Cícero e vai trair Romero. Fora as traições particulares. Judas é pouco, disse Ronaldo Barbosa, Presidente do PSB de João Pessoa. Aliás, esse negócio de traição é comum nas atitudes dos políticos. Em Guarabira, penduraram o boneco de Cássio na forca do Judas. Maldade!

Inventar uma mentira perfeita só exige treino. Dois mil anos de pregação do cristianismo é um bom tempo.

Na Paixão de Cristo do Tribunal, Barrabás consegue liminar e garante liberdade.

Nordeste elegeria Dilma com o triplo de votos dos adversários. Separatistas se atiçam.

Estava eu vendo o jogo da Portuguesa com o Joinville quando o time de São Paulo saiu de campo. Lembrei das peladas no campinho torto de Entroncamento.

Perdoe se não compartilho mensagens edificantes no Facebook e não tiro fotos em frente ao espelho. É que sou sociopata.

Bairro Alta Vista em Itabaiana, 3 dias sem água. População apela para o banho de pincel.

Procissão que relembra sofrimento e humilhação de trabalhadores mal pagos reúne centenas de pessoas com destino à feira semanal. É a procissão dos aflitos.

Ataque de abelhas suspende Paixão de Cristo em Petrolândia. Judas e Barrabás foram os mais atingidos.

“Itabaiana é a única cidade do vale do Paraíba, e acho que a única no Estado da Paraíba, onde os estudantes pagam para utilizar o ônibus escolar.” – Um universitário itabaianense.

O longa metragem “Aparição”, de Jacinto Moreno, foi classificado para o Festival de Cinema de Boa Vista e vai bater em Portugal.

Mestre Carboreto, cacique da "Tribo Indígena Tupinambás", de Mandacaru, faleceu ontem, dia 19 de abril, dia do índio. Com ele, parte da cultura dos descendentes indígenas, que habitaram João Pessoa.

Meu compadre Fernando Melo já está recuperado e pronto para novas batalhas. Deixou o cigarrinho, no que fez muito bem. Fernando é um dos grandes nomes de minha geração em Itabaiana.




Hoje, 20 de abril, é dia do aniversário de Augusto dos Anjos que nasceu em 1884 e morreu em 1914. Ainda hoje é considerado o maior poeta da Paraíba, e um fenômeno da arte poética no Brasil. Nasceu na zona rural de Cruz do Espírito Santo, que depois passou a ser território de Sapé.  

sábado, 19 de abril de 2014

O time que só pegava descendo


Meu amigo e meu irmão Trajano era o técnico do time Mangueira, do sítio Entroncamento no município de Cruz do Espírito Santo, onde trabalhei na estação ferroviária nos anos 1990. Era uma pequena confraria de ferroviários que bebiam juntos, trabalhavam juntos e moravam juntos. O time era uma desgraceira só. Peladeiros matutos. Uma linha dura como o governo da ditadura, meio campo lerdo como gato de venda e um ataque cardíaco de tão ruim, ineficiente. Mas isso não era capaz de afligir o comandante do time, porque na retaguarda tinha o juiz Bodeiro, também ferroviário, cuja função era descontar nossa ruindade no apito. Não tinha pra ninguém. A Mangueira ganhava todas dentro de casa.

Aliás, nossa “casa” era um campo mais irregular do que o gol do Flamerda contra o Vice Vasco, um descampado morro acima onde as vacas pastavam. Foi daí que surgiu o famoso “drible da vaca”, quando o atleta tinha que se livrar de um boi, bezerro ou vaquinha. Só que, no nosso campo, a vaca jamais ia pro brejo. A gente sempre jogava descendo, isto é, nosso lado do campo era invariavelmente o de cima. Na lei de Bodeiro, a regra era clara: o dono da casa joga em cima e não tem revezamento. O visitante começava e terminava as partidas, quando terminava, subindo morro acima.

Eu era o lateral direito, camisa 2 conhecido por Jacaré. Meu lado do campo era uma colina que eu descia na banguela e voltava meia hora depois, fazendo da língua gravata. A rigor, só apoiava o time uma vez. Ficava por lá mesmo, era substituído. Nossos adversários, invariavelmente, não tinham o gostinho de tirar o zero do placar. Quando conseguiam subir o morro e vazar nosso goleiro, que por sinal era meio míope, o juiz Bodeiro inventava uma irregularidade.

Só houve uma vez em que perdemos de goleada. Trajano brigou com Bodeiro por causa de um jogo de bozó, logo no domingo em que iríamos enfrentar o Flamengo da Fazenda Onça. O peste do Bodeiro começou por botar a gente jogando morro acima, uma covardia com quem não aguentava esse esforço, por não ter costume. Depois, expulsou nosso melhor jogador, o meia Batata, e deixou o jogo correr frouxo. O escore foi contundente: Mangueira 0 X Flamengo da Onça 12. 

O Mangueira Futebol Clube participou do campeonato amador de Cruz do Espírito Santo em 1991. Contabilizou 19 partidas, 19 derrotas, apenas 4 gols marcados e 88 sofridos. O time da Mangueira era escalado assim, no velho esquema 4-2-4, pelo técnico Trajano: Catatau, Jacaré, Enxuga o Rato, Barata e Bolo Fofo; Batata e Sardinha; Mão de Onça, Papagaio, Bonito e Piaba. O dono das camisas era Zé de Biu de Nena. 


quinta-feira, 17 de abril de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Arquivo Afonso Pereira é meu vizinho





O Arquivo Afonso Pereira está comemorando 16 anos que foi instalado na Praça João XXIII, em Jaguaribe, João Pessoa. Nesses anos todos, sou seu vizinho. De minha casa, observo os movimentos daquela casa de cultura dedicada à memória do Professor Afonso Pereira, intelectual que participou ativamente de movimentos educativos, científicos e culturais na Paraíba do Norte. 

Lá estão armazenadas fotografias, documentos e informações outras que registram as atividades do patrono, guardados e conservados pela sua esposa. A biblioteca tem cerca de quatro mil livros, mas ninguém lê! Nesses anos todos, poucas vezes vi alguém visitando o arquivo. Eu mesmo só entrei uma vez nas salas bem conservadas e muitíssimo organizadas do arquivo. Lá tem um auditório para palestras e eventos. Só raramente alguns intelectuais, amigos do Patrono, se reúnem para lançamento de livro ou outro evento. 

Na parede frontal do Arquivo, um artista pintou símbolos musicais e caricaturas de músicos jovens aprendizes, indicando que aquela casa de cultura recebia a juventude para estudos e manifestações artísticas.  Parece um Ponto de Cultura, na fachada. Mas, falta vida, não tem atividades artísticas e educacionais para a comunidade. Parece-nos um clube fechado, de certa forma contrariando os ideais do patrono, professor Afonso Pereira da Silva, que nas palavras de Antônio de Pádua Lima Montenegro,  “sempre se devotou e buscou a concretização do ideal de que é preciso educar para libertar. Por isso, ele se tornou um bandeirante, um guerreiro da educação, impregnado da saudável obstinação de promover o desenvolvimento e lutar pela redenção de muitos conterrâneos”.