domingo, 23 de novembro de 2014

sexta-feira, 30 de março de 2012

Notícias de Hugo Saraiva


Hugo Saraiva assinando termo de posse na Prefeitura de Itabaiana em 1963, ao lado do seu secretário Arnaud Costa (Foto Wilson)

Outro dia, uma paciente no consultório psiquiátrico perguntou de onde eu sou. “De Itabaiana”, respondi sem muito interesse em conversar. “Meus pais são de lá”, disse a moça. Surpreso, descubro que ela é neta do ex-prefeito de Itabaiana, Hugo Saraiva, cujo mandato foi cortado pelos militares em 1964. No meu livro “A Voz de Itabaiana e outras vozes” falo da bravura desse itabaianense que ainda está neste mundo, um dos poucos prefeitos que resistiram ao golpe militar. Meu pai foi seu secretário e redator da nota de repúdio contra o golpe.

A moça gostou de saber que seu avô era reconhecido em sua terra pela fortaleza moral, inteireza cidadã e retidão cívica. Pediu um livro que levei depois. Ela leu e fez elogios sinceros. Desculpem se pareço pedante, mas coisas assim mexem com o lado sentimental de um velho memorialista. Pediu para autografar um exemplar. Mandar para Mato Grosso, onde vive seu avô.

Possivelmente o velho Hugo vai se emocionar ao ler as crônicas que contam suas peripécias na política de Itabaiana. Comoveram até às lágrimas a sua neta. Pois é, minha cidade não merece os governantes insensíveis que tem. Nossa História virou uma sucessão de estupidez desde quando homens do quilate de Hugo Saraiva, Josué Dias, João Quirino Neto e Arnaud Costa abandonaram o barco da política local.

Fico pensando no milagre do livro. Daqui a cem anos, alguém vai ler meu livro e conhecer a história desse Hugo Saraiva. As coisas andam mudando de rumo aqui, tenho enfrentado ventos de frente, ventos ressentidos, até não tenho coragem de ajustar as velas e tocar o barco, como um velho almirante que perdeu o tesão pelo mar. Entretanto, encontrar uma leitora assim tão íntima do meu mundo me deixou orgulhoso e menos contrariado com a vida.

Somos mesquinhos e o que nos move é a necessidade de sermos reconhecidos, seja lá como for. Para mim, valeu a pena escrever o livrinho que emocionou alguém. Sim, ia esquecendo: a médica entrou no papo, pediu um livro, encantou-se com nossas histórias de conterrâneos. Sabe como é: médicos psiquiatras são como decoradores que adoram uma beleza interior.

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