quinta-feira, 4 de abril de 2013

Professor de cidadania

Professor Severino Lourenço


John Steinbeck escreveu que “o homem está só no mundo, e, sozinho entre os seus irmãos, não encontra conforto em parte alguma”.  A gente se olha no espelho todo dia e vê aquele rosto sem nenhum brilho e sem perspectiva. Outras vezes, nas noites insones, batem aquelas indagações cruciais da existência humana: o que estou fazendo aqui? Que missão indefinível e imponderável terei que cumprir? Muitas vezes nosso rosto aparece entre a esperança e a desesperança no espelho.

Tem gente que pensa: preciso esclarecer o sentido da vida. E sai por aí consumindo, arrotando grandeza, passando por cima dos outros, debochando dos mais tímidos. Outros procuram diferenciar o homem de um cão selvagem e constroem suas vidas numa escala de valores onde o semelhante é a razão principal de suas ações. Essa é a atitude desse homem simples de Itabaiana, professor Severino. Ele conquista pedaço a pedaço o direito de se olhar no espelho e respirar um ar de satisfação pessoal por fazer sua parte. Mestre em matemática, pensou um dia: por que não ensinar essa matéria tão ameaçadora para os estudantes, e dar uma chance para que os jovens de minha cidadezinha pobre e sem futuro possam sonhar em passar naquele concurso, arrumar um emprego decente, mudar de vida, ajudar a família? Assim pensou, assim faz. Abriu um cursinho de matemática para alunos carentes. Ensina com prazer a ciência das regularidades, regulando seu estar no mundo pela doação do seu talento e inteligência aos que deles necessitam.

Numa época tão marcada pelo egoísmo, pelo descompromisso e pela futilidade, no meio de tanta gente com muita embalagem e sem conteúdo, eu só tenho é que louvar a existência de uma pessoa assim, de bom coração, que pratica a bondade sem interesse algum a não ser o de servir ao seu irmão.  É o que se chama atualmente de atitude militante.

 

Ponto de Cultura resgata o orgulho afro

Suely Joventina (de azul) é neta do famoso músico popular Biu da Rabeca


“Você é muito bonita, morena”, disse um homem à garota bailarina do grupo “Meninas do Rio”. “Morena, não, que isso não existe. Eu sou uma negra bonita!”, foi o que respondeu ela. Isso na comunidade quilombola de Pedra D’água, no município de Ingá, perto da cidade de Serra Redonda, onde o conjunto de dança foi se apresentar, comandado pela professora Suely Joventino. Dançaram o trabalho “Salve minha Rainha Oxum”, que as meninas aprendem a não ter pudor de louvar a cultura dos seus ancestrais, apesar do peso centenário do preconceito.

Oxum foi apaixonada por Ogum e criou esses passes de dança para seu amado. Essa beleza estética e a história dos orixás foram levados para a população quilombola de Pedra D’água pelo grupo “Meninas do Rio”, e está sempre em cena nos eventos culturais de Itabaiana, cidade que ainda dá mostras de uma intolerância religiosa muito forte, criando uma visão distorcida e discriminatória da cultura alheia.

A sobrinha da professora Suely Joventino chama-se Arye e tem apenas cinco anos de idade, mas já dá os primeiros passos na dança. A menininha é quem abre os espetáculos, vestida de Oxum, sendo reverenciada pelas filhas de terreiro. Suely cria as coreografias e desenha os figurinos, ensaia e busca apoio para seu grupo de dança, formado por meninas de 5 a 16 anos.

Suely ministra oficina de dança afro no Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, onde ensaia seu grupo de dança infantil. Ela vem obtendo o reconhecimento da comunidade pelos seus espetáculos de revelação cultural do povo negro – beleza, religião, dança, estética – ao ritmo do afoxé, maracatu, frevo e capoeira.
"Meninas do Rio" dançam na comunidade quilombola de Pedra D'água


quarta-feira, 3 de abril de 2013

Blogueiros criam fundo para batalhas judiciais



Por Luiz Carlos Azenha*

Reunidos ontem (2) na sede do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, em São Paulo, blogueiros, ativistas, militantes de partidos políticos, movimentos sociais e advogados decidiram, por consenso, criar um fundo para socorrer financeiramente colegas que sejam alvo de processos judiciais, ameaças ou violência em todo o Brasil.
O fundo de emergência será inicialmente organizado pelo Conselho Nacional da blogosfera, formado por 26 ativistas de todo o Brasil no mais recente encontro da entidade, em Salvador, na Bahia. Uma conta bancária receberá as contribuições de internautas, por enquanto em nome do Barão de Itararé. Decidiu-se também que a entidade terá um corpo jurídico exclusivamente devotado à defesa de blogueiros.
Segundo Altamiro Borges, presidente do Centro, a judicialização do debate político e a ameaça a poderes nunca antes questionados multiplicou o número de ações, que incluem ameaças, agressões e assassinatos.
“Os coronéis acostumados a mandar sem contestação ou crítica, seja em nível nacional, estadual ou local, encontram na Justiça frequentemente o caminho para calar ou intimidar a blogosfera”, afirmou Altamiro. “Com isso, escapam do debate das questões políticas de fundo, como a da democratização da mídia, para um terreno no qual dispõem de maiores recursos”, aduziu.
Presentes, os blogueiros Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Lino Bocchini — além deste que vos escreve –, que enfrentam na Justiça ações movidas por grandes corporações da mídia, declararam que não pretendem recorrer ao fundo, nem agora nem no futuro. Conceição Lemes, editora-chefe do Viomundo, explicou: “Há gente que nem dispõe de advogado e que, por falta de recursos, se cala diante de autoridades em várias partes do Brasil. Não é o nosso caso”.
Eduardo Guimarães deixou claro: “É importante que o fundo de apoio a blogueiros tenha critérios claros e pré-estabelecidos para aqueles que serão beneficiados em caso de necessidade. Sugiro que os que se interessarem por tal apoio façam uma contribuição mensal — pequena, talvez simbólica –, de forma que integre o esforço que está sendo empreendido e, assim, faça jus ao eventual apoio do qual poderá vir a precisar. Dessa maneira, não haverá questionamento sobre quem vier ou não a ser apoiado”.
Embora as decisões futuras ainda dependam do Conselho Nacional, vários oradores lembraram como absolutamente prioritário o caso do jornalista/blogueiro Lúcio Flávio Pinto, do Pará. Editor do Jornal Pessoal, Lúcio Flávio foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar Cecílio do Rego Almeida, a quem acusou de ser grileiro de terras.
*Publicado originalmente no blog Viomundo

Uma noite para ouvir histórias, música boa e reconhecimento pelo fazer meritório


Mayara Montenegro no monólogo "De janelas e luas" - Inspirado no poema "Ismália", de Alphonsus de Guimaraens


Será no sábado, dia 6 de abril, na Câmara Municipal de Itabaiana. Vamos juntar nossos colaboradores do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar e mais uma porção de convidados para uma experiência artística interessantíssima. 

Primeiro, uma atriz vai contar histórias de encantamento, narrativas de amor e dor quando a gente vai conhecer Maria das Quimeras e Ismália. A primeira sem medos, sem dores, virgem de qualquer desamor. Ismália: solidão, angústia; lua cheia, loucura. Maria das Quimeras e Ismália; dois extremos, tendo como equilíbrio a voz da Narradora, que transporta o público ao universo da história criada. É assim que se apresenta o monólogo “De janelas e luas”, com Mayara Montenegro. 

Depois vamos ouvir o fino da música brasileira com o conjunto “Chorinho prateado”, de Cabedelo, tendo à frente mestre Wilson do Bandolim. Entre um e outro som, entre histórias, tons, semitons e canções, vamos entregar diplomas de honra ao mérito cultural e social, o Prêmio Leonilla Almeida, para três fortes mulheres de Itabaiana. Uma delas é a Margaret Bandeira, destaque na luta pela preservação da memória cultural desta terra. A outra é a professora Rose Luna, atuante na valorização da educação de qualidade. No fim, vem a artesã Nevinha da Cerâmica, nome já consagrado no mundo todo pelo seu trabalho original com o barro da terra gentil, sustentável e mui bela. 

O jornalista Arnaud Costa lançará seu livro “Fatos pitorescos do futebol”, pequeno anedotário de nossos craques do passado. 

Um dia antes, na sexta-feira, a atriz Mayara Montenegro fará oficina de preparação vocal para jovens do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar.

Que acham do programa? E não paga nada, é só se chegar. Os camaradinhas do Ponto de Cultura estão ajudando muito. O presidente da Câmara, Welingson Chaves, fará as honras da casa. A gente se vê por lá.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Zé da Luz: um alfaiate que vestiu sua poesia de ritmo e melodia



Humberto de Almeida

Lá íamos nós, A Morena e eu. Dessa vez, porém, passando por Itabaiana, esqueci o Sivuca, pois, os mortos, como todos sabem, não levantam mais, para lembrar de outro nas mesmas condições desse sanfoneiro arretado, como diria outro bom parahybano, o autor de Tudo X-Caçarola, o Dapenha, o desconhecido poeta Severino de Andrade Silva, criador do conhecidíssimo poeta Zé da Luz. Uma beleza! Quem escuta um poema de Zé da Luz, tem vontade de escutar – o bom mesmo é ouvir – outro e depois outros mais. É como o primeiro gole do peregrino sedento na lâmina fina de água que desce da fonte.

Enquanto me dirigia à cidade do poeta, lembrava a Morena do pedido feito por ele a outro parahybano da gota serena, como diria o seu conterrâneo Sivuca, para prefaciar o seu livro. Zé Lins, como sempre, matou a pau: “Você não precisa de prefácios, Zé, a sua prosa fala com mais autoridade que qualquer palavra de apresentação”! Aproveitei, também, para lembrar que antes de saber do comentário do autor do Menino de Engenho, por estas plagas, há muito já havia traçado umas mal-traçadas, onde dizia que certos poetas dispensavam apresentação. E Zé da Luz era um deles!

Mas o que sempre gostei em Zé da Luz foi a sua poesia com gosto de terra molhada; o cheiro gostoso de esterco de boi solto no curral; a brisa soprando macio por cima de versos e rimas; o cantar dos passarinhos e os banhos de rios belos como o meu rio Jaguaribe. Enquanto seguia pelo que resta das poucas plantações que ainda esverdeiam o caminho, declamava baixinho, saboreando o ritmo gostoso de um de seus poemas. E assim, durante toda a viagem, bastava um descuido para me flagrar comendo poesia.

Em Zé da Luz, dizia enquanto caminhava em busca do seu berço poético, canto e saboreio a mais pura das poesias matutas. Zé da Luz não parece procurar a palavra certa para a rima do seu verso. Ela aparece fagueira, sorridente, brincando de esconde-esconde, entre uma palavra e outra. Um improvisador como poucos! Espécie de Pinto de Monteiro mais poético, e de brilho verbal desconcertante.

A espontaneidade dos versos de Zé da Luz só encontra comparação na poesia, também cheia de improvisos, de um Catulo da Paixão Cearense, outro poeta que se deixa levar pelo verso como uma criança, somente confiança, deixa-se levar pela mão de sua mãe. Em nenhum outro poeta poderia encontrar tamanha sensibilidade e pureza no versejar. Por exemplo, versos como “parece que eu tô vendo/Nos teus óio piquinino/Dois vagalume acendendo/Na noite do meu distino”, é puro Zé da luz!

Diminuo a velocidade do carro e, quase parando, encomprido o olhar praquelas verdes margens. Lá dentro, meio as mais diversas plantações de milho, inhame, macaxeira, feijão e outros, deve estar a cacimba onde poeta desejou ser um caçote, em um de seus mais belos poemas (A Cacimba): “Quando eu vejo essa cacimba,/Qui ispio a minha cara/E a cara torno a ispiá/Naquelas águas quilára/Pego logo a desejá… /Desejo, praquê negá?…/Desejo sê um caçote, /Cum dois óio desse tamanho/Pra vê, aquele magóte/De moça tumando banho”.

Finalmente, terra à vista! Estamos em Itabaiana, a terra do poeta e de um povo hospitaleiro! Um povo que não só orienta aqueles que ali chegam e se sentem perdidos, mas faz questão de mostrar o caminho! E, quando possível, guiá-los até um lugar seguro. O seu falar arrastado, os eles sem força e os erres comidos, características essas tão bem observadas pelo Zé Lins, soam gostosos em nossos ouvidos! Foi, sem dúvidas, a fonte onde bebeu o nosso poeta. Zé Lins tinha razão: a poesia desse alfaiate tem luz própria. Nada de prefácios!

 


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Arnaud Costa lançará novo livro no próximo sábado (6)



O escritor e jornalista Arnaud Costa estará, neste sábado, 06, lançando mais um livro de sua lavra.  Trata-se do “FATOS PITORESCOS DO FUTEBOL”. O lançamento do livro ocorrerá às 20h na Câmara Municipal de Itabaiana, terra do poeta Zé da Luz.
Na organização deste evento cultural está a Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba e o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, coordenado pelo multimidia e também escritor Fábio Mozart, filho de Arnaud Costa.
Na ocasião, o Ponto de Cultura entregará o Prêmio Leonilla Almeida à artesã Nevinha, professora Rose Luna e a Margaret Bandeira. Como atração cultural, está programada apresentação do grupo “Chorinho Prateado”, de Cabedelo, com o mestre Wilson do Bandolim, e monólogo teatral.
(Do blog do Professor Josa – Mari/PB)

"Não creio em Deus, creio no Diabo"




Antigamente, morria de medo da Semana Santa. Minha vó Joaninha cobria os santos com uns panos roxos, a casinha ficava com aparência mórbida. Medo do diabo, quem não tem? O diabo é a morte, é o mal, o lado negativo das coisas, a sombra do abismo sem fim da ignorância.

Conheci um cara que costumava dizer: “não creio em Deus, eu creio no Diabo”. Como pode crer em um sem acreditar no outro? Deus e o Diabo são assim como as duas faces da mesma moeda.

Um sujeito chamado Jorginho acha que urge discutirmos mais sobre essa cultura universal chamada Deus. Até onde faz bem ou mau à humanidade? A crença num deus tão violento quanto o Deus da Bíblia reforça a banalização da violência? As religiões podem se intrometer na vida política de uma sociedade? O que está sendo feito com o dinheiro do dízimo e para onde ele vai? É correto sermos obrigados a ouvir pregações em locais públicos, como transportes coletivos, por exemplo? Existe alguma lei que proíba isso? Jorginho está atarantado com essa onda de neopentecostalismo ultraconservador que assola o país. Ele e mais alguns têm medo da construção lenta e gradual de uma sociedade dominada pela religião, como nos países comandados pelos muçulmanos ortodoxos. 

O cara que acreditava no Diabo nunca saiu por aí pregando sua fé. Se ousasse, talvez morresse trucidado pelos cristãos mais radicais, esses que queimam terreiros de umbanda e quebram estátuas de santos católicos. Até quem não crê em nada é visto como inimigo infiel pelos “talibans” evangélicos.

Marcos Ramos escreveu: “Sim, eu creio no diabo. No diabo das religiões que matam em nome de Deus. No diabo dos dogmas romanos que afastam as pobres almas do caminho. No diabo do dízimo evangélico que afasta os pobres do Altíssimo. Creio, sim, no diabo! Creio no diabo da teologia que tenta explicar o mecanismo de funcionamento da salvação. Creio no diabo da idolatria que faz homens se prostrarem diante de imagens de barro preto e fétido. Creio no diabo das regras, costumes e modas gospel das milhares de igrejas que surgem a cada dia para enriquecer espertalhões. Creio no seu diabo, que agora lendo minha exposição, se contorce de raiva demoníaca travestida de piedade e com seu pensamento vão me diz: “Coitado!”

Tenho medo de crer nesse Deus dos talibans. Não sei quais são os efeitos colaterais. Também não creio no diabo, esse “garoto propaganda” de todas as religiões. Essas entidades nos privam da liberdade com falsos valores e apegos. Só a liberdade cria.