sábado, 21 de março de 2015

Dia do narcisista

Hoje é dia do narcisista, o cara que pensa que o mundo gira em torno do seu umbigo. Não quero me gabar, porque isso é feio, ridículo, mesmo porque eu sei bem que somos complexos, intrigantes, vulneráveis, passíveis de erros. Mesmo uma máquina maravilhosa de inteligência e afeto como eu, um fenômeno de ideias, de sonhos e produção de arte, um ser para além do trivial, também pode ser modesto. Por isso, passo a palavra a um xará, o nobre Fábio Oliveira:

“Fábio significa, em pós-grego-contemporâneo, ‘o detentor do segredo das esferas mais ínfima’, sendo, assim, nome tão significativo e poderoso.

Em hebraico-germânico, fábio é ‘salvador das pátrias’.

Em pré-hepúblico-soviético, o sentido é deveras profundo: ‘aquele que mantém’.

Os radicais se estendem mais adiante - para trás -, chegando aos caros egípcios-pré-colombianos, para quem fábio é, apenas, “o semi-deus”.

Mas há um fábio - sim, apenas um, ele que foi escolhido pelo Criador para ser o único - que foge dessas banalizações idiotas, ignorando toda a etimologia de seu nome, assim como a riqueza histórica por trás de tudo. Isso porque ele não se chama fábio.

Chama-se Fábio Mozart. Que é anagrama de Criador.


quinta-feira, 19 de março de 2015

Memórias do medo


Em 1970 eu tinha quinze anos de idade e estudava numa escola particular em Itabaiana do Norte. Nossa educadora era uma mulher baixinha, enérgica e disciplinadora. Lembro de dois companheiros de sala de aula: Luciano Falcão, filho do chefe da estação ferroviária, Zé Falcão, e Ivan Oliveira, que depois entraria comigo nos quadros da Rede Ferroviária Federal, ele como maquinista, eu na função de Agente de Estação.

Eram tempos de muitas histórias de bravura e covardia protagonizados pelos brasileiros de todas as matizes, debaixo de um regime de força que já durava seis anos. Criados naquele clima de medo coletivo, os rapazes como eu pouco suspeitavam do terror que se instalou nas mentes das pessoas. Qualquer um poderia ser seu delator. Bastava uma palavra de protesto, um comentário, um ato qualquer de pretensa rebeldia para constar nos cadernos da repressão, sofrer humilhação, prisão e inquéritos forjados. Os estudantes foram proibidos de falar em política, através de um decreto do ditador do momento, o General Emílio Garrastazu Médici, considerado o mais sanguinário dos generais presidentes do regime militar. As lutas do povo eram castigadas com torturas, até assassinatos nos porões do Exército e Polícia Federal. A censura não deixava escapar nenhum protesto na mídia. Enfim, instalava-se a famosa “paz de cemitério”, onde o medo imperava.

No interior, o povo tinha mais medo da ditadura do que do Satanás. Em Itabaiana, muita gente foi presa, acusadas de subversão, vítimas de delações cavilosas.  No contexto daquele momento histórico, sem acesso a informações, os jovens não sabiam o que era democracia nem tampouco entendiam o significado do golpe militar para a vida do país. Depois, os sonhos de revolução e o desejo de combater aquelas infâmias invadiu muita gente moça, eu entre elas. Discutíamos política escondidos, onde livros clandestinos nos davam ideias bem diferentes do clima de repressão que foi imposto à sociedade.  

Virei militante, e isso é outra história. O que quero falar hoje é da minha escola primária e sua professora. Ainda está viva, essa mestra. Devo muito a ela pela base da formação escolar. Recordo que a rapaziada chamava o Presidente de “Garrafa Azul”, uma forma de galhofar com o poder absoluto dos militares. Eis que, um certo dia, minha professora me pegou apelidando o general. Essa senhora passou quase uma hora me humilhando diante da turma e exaltando a ditadura. No fim, me aconselhou a respeitar os superiores e mandou todo mundo cantar o hino nacional, de pé, em homenagem ao general presidente.

Conto isso para lembrar a minha vivência particular da ditadura, nossos pequenos atos de resistência como a brincadeira de chamar o Médici de “Garrafa Azul” e, principalmente, o pânico que se instalou na sociedade. Aquela professorinha talvez nem gostasse tanto do regime, mas era preciso deixar claro que não aceitava nenhum ato de protesto em sua escola, porque “as paredes têm ouvidos”, qualquer um poderia ser acusado de comunista e passar a viver no inferno. Os delatores andavam apontando pretensos opositores que iam se explicar nos quartéis. Muitos deles inocentes, como éramos todos naquela escolinha primária.

Hoje, em pleno auge da democracia, vemos rapazes e moças nas ruas chamando a Presidente Dilma de “puta” e pedindo a volta dos militares. Não importa a motivação política, esse tipo de ofensa seria motivo de prisão e tortura no regime de força que manteve o Brasil sob as botas castrenses durante vinte anos. Muita gente pagou até com a morte por muito menos. Um professor meu, inadvertidamente, pichou uma parede com “abaixo a ditadura”. Foi preso e torturado no quartel do Exército.
Depois, em 1980, no final do terror de Estado que marcou nossa geração, eu escrevi uma peça chamada “Batalhão das sombras”, falando justamente do medo que foi a tônica daqueles tempos sombrios. Uma personagem declamava poema de Carlos Drummond de Andrade, o “Congresso Internacional do Medo”:

"Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas."




ANIVERSÁRIO

 Hoje é dia de São José, aniversário do meu compadre Beto Lucena, poeta da Academia de Cordel do Vale do Paraíba, sujeito da melhor qualidade. Hoje também é dia do diplomata, do carpinteiro e do marceneiro. Ajusta-se ao compadre Beto, que é um exímio “faz tudo”, cabra bom em trabalhos manuais e excelente conversador, capaz de convencer cego a comprar televisão, portanto, um diplomata.

PESQUISA

Aquele prefeitinho mandou seu assessor fazer pesquisa para saber o que o povo estava achando dele, o prefeitinho.

--- Você ta gostando do prefeito? --- pergunta o assessor abordando um cidadão.

--- Ele é um ladrão. É ineficiente, mentiroso, sem caráter. Nem sei se seria melhor cassá-lo, botar na cadeia ou expulsar do país.

O assessor escreveu em seu relatório: “Indeciso.”


TEM GENTE PRA TUDO

O que não se faz quando se precisa de um emprego! O desempregado viu um anúncio na Igreja: “Precisa-se de alguém que seja capaz de andar sobre as águas e remover montanhas”. No outro dia, apresentou-se como candidato ao cargo com um colete salva vidas e carregando uma pá.


NÃO SEI SE É VERDADE

Dizem que meu compadre Doutor Dedé andava aperreado porque os amigos dele gostavam de visitá-lo no Hospital, na hora do seu trabalho. Mandou botar um cartaz: “Aviso – os intrusos serão operados”. Não apareceu mais ninguém para atrapalhar.


PROMESSA

Prefeito de Itabaiana, Antonio Carlos, prometeu uma sede para o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Anuncia na próxima segunda-feira (23) o local. Em nenhum lugar está escrito que não se deve confiar na palavra de um homem. Até prova em contrário.


POETA EM SAPÉ

“Ser poeta em Sapé é o mesmo que ser padre em cabaré.” – José Louzeiro – (Devotos do ódio)


MARI

“Quando for para Mari, leve uma arma consigo. Por aqui, todo mundo anda armado.” - José Louzeiro – (Devotos do ódio)


POBRE

“Para a pequena classe média de Sapé, o camponês veio ao mundo cumprir a sina de ser pobre.” - José Louzeiro – (Devotos do ódio)


SARAU DAS ALMAS

“Toda alma tem que ficar em guarda permanente contra a mediocridade. Quem descuida, vira assombração.” – Entreouvido no Sarau das Almas, do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar.


RÁDIO SEM APOIO

“O comércio de Itabaiana não valoriza a rádio comunitária. Só nos procura para pedir ajuda. A organização não governamental que opera a rádio Rainha depende da boa vontade da cidade. Os recursos investidos na rádio saem dos bolsos dos diretores.” – Antonio Andrade, Presidente da Rádio Comunitária Rainha, de Itabaiana.


PEGA PRA CAPAR

Evangélicos organizam boicote contra ‘Babilônia’. Também pensam em pedir a censura para algumas obras de João Ubaldo Ribeiro. Setores mais radicais dos crentes defendem a castração de autores pornográficos.


SEM ÁGUA

Viva São José! Mas, cadê as águas de março?


MATÉRIA PRIMA

“Precisa-se de matéria prima para construir um País” (João Ubaldo Ribeiro.)


quarta-feira, 18 de março de 2015

SOS Ponto de Cultura comove prefeito de Itabaiana

Moradores de rua instalados no porão coreto 


Meu compadre Carlão Melo me surpreende com uma ligação telefônica para comunicar que esteve com o prefeito de Itabaiana do Norte, senhor Antonio Carlos, ocasião em que relatou a situação do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, projeto tão importante para a cultura local e que se encontra em dificuldade, sem espaço físico para trabalhar. Embora eu não seja tão ingênuo a ponto de acreditar que as ditas autoridades competentes e constituídas estejam roendo as unhas de ansiedade e impaciência para auxiliar o Ponto, obrigo-me a crer que o senhor prefeito realmente resolveu dar uma penada pela causa da cultura.

Conforme informou Carlão, o prefeito já tem ideia do local onde funcionará o Ponto de Cultura, mas só anuncia na próxima segunda-feira, dia 23 de março. Neste dia estarei em Itabaiana para soltar meia dúzia de foguetes Caramuru, porque nada é impossível. Desde já, o prefeito descarta a possibilidade de instalar o Ponto no prédio da antiga União dos Artistas e Operários. Garantiu que vai reativar o telecentro no local.

Adianto que o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar aceita qualquer espaço público decente, até mesmo o porão do coreto da Praça Manoel Joaquim de Araújo, desde que bem equipado, limpo e com ar condicionado. Se o pessoal do Ponto for alojado ali, no lugar dos sem teto que atualmente ocupam o espaço, será tipo juntar o tomé com o bebé, como se dizia no tempo em que o coreto era palco de retretas e comícios. Sim, porque ali, influenciados pela rica história cultural e social do coreto, vamos montar uma programação de eventos para dar vida ao centenário equipamento público.


Aguardemos. 

terça-feira, 17 de março de 2015

Madame Preciosa limpa as penas para grande exibição no Sarau das Almas


Você conhece a Madame Preciosa, pois não? Uma senhora de seus 70 anos, ex-cigana do Egito, ex-cartomante e ex-fornecedora de horóscopo para magazines de meio de feira, os famosos almanaques. Agora, na flor da melhor idade, ainda fornece horóscopo.

Madame Preciosa é estudiosa dos astros, do Tarô e de outras ciências ocultas. Experiência não lhe falta nesse serviço de escutar as estrelas. Hoje é dia de São Beda, coisa que ninguém sabia e esse blog comunica, graças à cultura de madame Preciosa. Digam aí, quem sabia que hoje era dia de São Beda? E alguém aí por acaso conhece o tal santo? Pois... Cultura é isso, saber o que ninguém sabe e arrotar importância.

Mas, o que eu quero dizer é que Madame Preciosa finalmente vai ser apresentada à fina flor da sociedade de Itabaiana, uma cidade que fica no agreste da Paraíba. Na qualidade de esotérica, madame Preciosa será a estrela do Sarau das Almas, acompanhada do seu amante/secretário/escravo sexual/proxeneta Sonsinho e seu compadre e amante eventual, o malandro Ameba. A data do grande evento ainda não foi definida, mas desde já a grande dama das ciências ocultas e safadezas idem convoca seus admiradores e consulentes para a grande aparição desses personagens pitorescos. Madame Preciosa frequenta o mundo dos mortos, dos vivos e dos muito vivos, prometendo ler mãos, decifrar sonhos e revelar segredos de alcova e de tumba.

A Madame solicita apenas que este blogueiro não mencione seu nome civil, para evitar problemas com a dona Justa. A fofa cartomante me revelou, depois de obter minha sincera promessa de não publicar a notícia, que foi condenada por um tribunal de São Paulo porque, dizendo ter poderes sobrenaturais, enganou uma vítima, fazendo-a crer que sua família corria perigo, com isso obtendo R$ 20 mil para desfazer o “trabalho”. Terá de prestar serviços comunitários na Prefeitura de Itabaiana, como assessora para assuntos mediúnicos, e ficar em abstinência sexual por doze meses. Pena pesada para esta alma idem.



segunda-feira, 16 de março de 2015

O VERDADEIRO ADVOGADO

Junior Barbosa

Por Joacir Avelino


                   Rui Barbosa, o maior jurista brasileiro de todos os tempos, quando do seu famoso discurso, conhecido como  Oração aos Moços, em 1920, por ocasião da colação de grau da turma da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco naquele ano, revelou que advogava há cinqüenta anos, e que  iria morrer como Advogado.
                        Faço essa introdução, como forma de homenagear os advogados itabaianenses, a exemplo de Júnior Barbosa,  que hoje milita em São Paulo, mas não esquece as suas origens. Causídico recém formado, não faz cerimônia para ninguém das dificuldades que enfrentou para conquistar o tão  sonhado canudo. Fala da profissão como um sacerdócio, diferentemente de muitos que buscam apenas levar vantagem, numa obediência à famosa “Lei de Gérson”.
                        Não é nada fácil para um novel jurista entrar num mercado de trabalho deveras saturado, principalmente num país onde a lei nunca exprimiu a vontade da maioria. Pelo contrário. Os legisladores buscam aprovar os anseios da minoria, das oligarquias que sempre mandaram e desmandaram neste Brasil, de forma imoral, política e juridicamente falando. Sobre esse tema, Rui, certa vez pronunciou: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
                        Os lidadores do direito, sem meias palavras, não raro se deparam com magistrados arrogantes com os miseráveis e servis para com os poderosos. Esquecem que entre os Juízes de qualquer instância e os advogados não há hierarquia nem subordinação, cabendo a ambos a consideração e o respeito. Na prática, não é bem assim.
                        Ao longo da bela carreira advocatícia, empunha-se a bandeira de luta pela justiça e liberdade, apesar das injustiças e humilhações, da justiça tardia, mas na certeza de um  saldo  positivo para aqueles que não desistem, não se apequenam diante das adversidades, porque o direito, ainda segundo Rui Barbosa, deve ser encarado como meio de justiça, e quando o operador jurídico se deparar com um conflito envolvendo o direito e a justiça, deve-se lutar pela última.
                        Ao profissional da advocacia foi-lhe entregue uma única arma: a palavra – escrita ou falada. Com ela em mãos, procura fazer a sua revolução, quer seja no tribunal do júri, nos tribunais, nas salas de audiências, nos debates, nos memoriais, nos processos e arrazoados, enfim,  numa convivência nem sempre pacífica e  harmônica nas lides forenses.

                        Ia me esquecendo. Ao conversar com Júnior Barbosa sobre concurso público, ele de pronto disse: “se tiver que me submeter a um concurso público, somente se for para defensoria pública, para que possa continuar a defender os menos favorecidos”. Perfeito. Esse é o pensamento do verdadeiro advogado. Não será um gênio, como foi  Rui Barbosa, mas será, com certeza, feliz nessa trincheira infindável entre o bem e o mal.

domingo, 15 de março de 2015

POEMA DO DOMINGO


Desarmar o inimigo
Jogar no mar o desprezo
Subir no palco e cantar
A paz a plenos pulmões

Desarnar o inimigo
Brindar ao antagonista
Passar o amor em revista
Sem querelas opoentes

Desatar o inimigo
À luz desse armistício
Quero a vida que me resta
Em bonança e placidez

Desenhar o inimigo
No quadro branco de odara
Perdoar, virar a cara
Em nome da benquerança

Destruir no inimigo
A sanha vil, fraticida
Pois é desinteligente
Marchar em batalha vã

Dedilhar com o inimigo
Essa canção sussurrada
Que chama em rara cantiga

Para o encanto da vida

f. mozart