segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Paciência de pescador

À esquerda, Rosival do violão, do mosaico, do cinema e do Ponto 

Sabe o pescador amador que bota seu anzol na água e fica ao sol o dia todo, esbanjando paciência, suportando os mosquitos, formigas e lacraus, sem perder a calma? E depois de tanto trabalho, aliás, de tanta  capacidade de suportar incômodos, pesca um peixinho miúdo, um arranha cu vagabundo, sem muita sustância. E ainda tem os cabras azarados feito meu compadre pescador Maciel Caju. Só por desfeita, o peixe comeu sua isca e ainda deu uma cagadinha no anzol.

Assim é o trabalho do cara que aplica suas forças e mecanismos mentais em determinada ação voluntária, sem apoio de quase ninguém. É o sujeito que desafia o ridículo por trabalhar sem ganhar nenhuma remuneração numa sociedade onde o mais importante é o lucro financeiro. O pescador sabe que a maré não está pra peixe, que o poço quase secou, que o anzol enferrujou e os peixes sumiram. Entretanto, permanece no seu posto, volta a pescar, contra o frio, contra a indiferença, contra o preconceito, contra a má vontade dos peixinhos, até recolher cada vez uma pescaria maior.

Esse meu compadre Rosival é um desses raros elementos que lançam seu anzol e esperam até décadas em sua solidão de pescador de ilusões. Entretanto, não é nenhum fenômeno. Ele é somente um cara normal, cujas surpresas da vida vão se revelando nas curvas do rio do destino. Faz alguns anos que entrou no Ponto de Cultura Cantiga de Ninar para aprender técnicas de mosaico artístico. Virou mestre, deu aulas dessa arte. Depois, foi aprender violão com Vital Alves. De novo passou de aluno a professor, formou um grupo de aprendizes de violão, montou a Orquestra Som do Coração e sai por aí, mostrando com seus discípulos que é possível, sim, extrair do nada alguma coisa que preste.

Com seu jeito humilde, seu sorriso tímido, Rosival foi pescar seus piaus e traíras na arte do audiovisual. Fez cursos no Ponto de Cultura, aprendeu a mexer com câmeras e a ter uma visão artística do cinema. Num instante estava na equipe técnica de produções cinematográficas, pescador de sonhos que sempre foi. Agora mesmo exibe, orgulho, o curta metragem “Candeeiro”, onde figura na ficha técnica. Daqui a pouco, vai repassar seus conhecimentos na área para outros jovens, que esse é seu destino e sua missão de vida.

Pedro era pescador e Jesus lhe disse: “Pedro, vou te fazer pescador de homens.” Parafraseando, Rosival é tratador de animais na vida real, e algum deus misericordioso lhe disse: “Rosival, segue-me e eu te ensinarei como tratar e cuidar de almas sedentas de conhecimento”.

Bem aventurados os pescadores e os peixes que são seus sonhos. Numa luta ferrenha, pescador e sonho brigam uma briga limpa entre ilusão e realidade. Nasci pobre e continuo mais nu do que Adão. Minha riqueza é isso também, essa satisfação de doar o que tenho de melhor para meu semelhante. Por isso somos irmãos, eu e Rosival.


Alunos de violão de Rosival no Festival do Aboio, em São José dos Ramos, no dia 5 de dezembro

domingo, 7 de dezembro de 2014

POEMA DO DOMINGO



 

Universo à parte

Nas minhas barbas de cobre
em meus cabelos de cinza e prata
tem janelas que destampam e varam
outros tempos
e mistérios que a idade não conheceu.

Foram portais, certamente
foram insights luminosos
de céus abertos, trovões
de pensamentos de ostras
de guerras, festas e fados
escalpelando as ideias
zombando do meu argumento
mas existiram, quem sabe,
nos desertos do pensamento.

Josafá de Orós

sábado, 6 de dezembro de 2014

Programa de rádios comunitárias divulga entrevista exclusiva com o deputado Luiz Couto neste sábado

Luiz Couto (esquerda) fala sobre rádios comunitárias

No programa “Alô comunidade” deste sábado, dia 06 de dezembro, na Rádio Tabajara da Paraíba AM, o deputado federal Luiz Couto (PT), defende reivindicações do movimento de rádios comunitárias como a criação de um fundo financeiro, a anistia de multas e o aumento da potência de transmissão. O parlamentar gravou entrevista no seu gabinete, em João Pessoa, nesta sexta-feira, 5, ao lado do seu assessor José Moreira, Coordenador Geral da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária no Estado da Paraíba.

Na edição deste sábado, também será entrevistado o Major músico da Polícia Militar, Edmundo Alves, que fala sobre a história da banda militar e reminiscências de sua cidade natal, Areia, polo cultural do brejo paraibano.

O programa “Alô comunidade” é produzido pela Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares, transmitido pela Rádio Tabajara da Paraíba AM (1.110 KHZ - http://radiotabajara.pb.gov.br ) e Rádio Web Comunitária Porto do Capim (www.radioportodocapim.com.br ) além de ser reprisado por mais de doze rádios comunitárias e rádios a cabo em João Pessoa e no interior do Estado da Paraíba.

O programa tem edição e apresentação de Fábio Mozart, com técnica de áudio de Maurício José e produção de Dalmo Oliveira, Marcos Veloso e Beto Palhano. 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


Essa vida de locutor de rádio pirata

 

Por Fábio Mozart

“Piratas são vocês, que correm atrás do ouro; nós somos livres”, dizia a rádio livre do começo dos anos 90. A rapaziada corria o risco e adorava isso de mexer com eletrônica, montar um transmissor caseiro e botar sua rádio no ar, invadindo o espectro radiofônico que sempre foi da burguesia, de meia dúzia de tubarões. O movimento quase acabou, não existe mais aquela rádio livre cheia da mística anarquista de mexer com o lado mais sensível da dominação que é a comunicação. A geração que fez parte desse movimento nem mais se liga em rádio. Alguns se profissionalizaram, outros viraram professores acadêmicos, uns poucos ainda brigam na trincheira mais do que complicada das rádios comunitárias.

Comecei a fazer rádio na década de 70. Tenho mais de trinta anos de locutor de rádio pirata. Minha pirataria começou com Modulação em Amplitude. Enterrei o último transmissor AM nas matas que também hoje não existem mais, junto com o sentimento de prazer de partilhar com um grupo a liberdade de se expressar, sem compromisso com o vil metal. A frequência da rádio livre ficou vazia ou foi substituída pelas rádios de crentes “pegue pague”, picaretas das falsas comunitárias ou políticos venais. Acabou a subcultura alternativa que marcava as antigas transmissões livres.

De alguma forma, estamos regressando a essa época em que se emitia sinais de vida inteligente no rádio, sem fins lucrativos. São as rádio web, simples de operar e sem o perigo do cara pegar cadeia. Essas rádios estão se propagando numa escala muito grande. Tem de tudo no universo da rádio via internet. Em quase todas, a qualidade do conteúdo não é muita prioridade. O computador vai aceitando tudo. Nesse mundo da transmissão via web, destaca-se a Rádio Porto do Capim em João Pessoa, a única que ainda opera nos moldes de uma emissora comunitária, com seu conselho que fiscaliza os conteúdos. Devagar, vai formando seu conceito e reunindo gente que se interessa em fazer rádio diferente.

Na Porto do Capim, meu compadre Dalmo Oliveira leva do rádio convencional seu estilo próprio. Ele comanda a seleção musical, roda a música independente e mexe com o jornalismo incipiente da emissora. Falta uma melhor ordem na programação. As músicas são sempre as mesmas, organizadas em playlists repetidas exaustivamente. Melhor assim, porque ainda não é um negócio, não rola jabaculê. Sem a lógica do mercado, a publicidade e demais interesses comerciais não decidem que tipo de música vai tocar. Nessa atmosfera amadora e experimental, a rádio decidiu transmitir uma procissão de Nossa Senhora da Conceição dos navegantes no rio Sanhauá. Acho que é a primeira rádio web a irradiar uma procissão, ainda mais dentro d’água. Eu fui convidado a participar dessa transmissão. Será minha primeira experiência como locutor de procissão, já que até enterro cheguei a narrar nos bons e puros tempos das rádios de fundo de quintal.

A procissão vai ao ar (e à água) no dia 8 de dezembro, segunda-feira, lá pelas nove horas da manhã, no sítio www.radioportodocapim.com.br



 

 



Professora de Mari indicada para o Prêmio Leonilla Almeida

Ozaneide (à direita) incentiva o estudo do folclore e da arte popular nas escolas onde ensina

Teimo em acreditar nos seres humanos, no que eles podem ter de melhor. E levo a vida a divulgar essas pessoas, muitas vezes indivíduos humildes, avessos à publicidade. É preciso, no entanto, dar notícias dessas experiências de vida dedicadas ao bem comum e promover a fraternidade universal entre as pessoas de boa vontade.

Quase um ingênuo, creio na beleza viva de vidas dedicadas a servir ao próximo. Por isso criei o Prêmio Leonilla Almeida, a ser entregue para mulheres que tenham feito alguma coisa pela humanidade, diploma que entregamos todo ano em março, mês feminino. Em 2015, já temos algumas candidatas, entre as quais a professora Ozaneide Vicente, de Mari.

Professora Ozaneide Vicente é cantora, atriz e folclorista, além de educadora. Fundou comigo o Coletivo Dramático de Mari, Rádio Comunitária Araçá e foi parceira nos projetos sociais que empreendemos naquela cidade, nas décadas de 80/90. Foi com ela e outras pessoas abnegadas que trabalhamos por mais de dez anos na Pastoral da Criança, ação social da Igreja Católica que orienta e acompanha as famílias pobres em ações básicas de saúde, educação e nutrição. Com Ozaneide, Marizete Vieira, dona Maura e dona Benedita, criamos o sopão comunitário para crianças da periferia.

Eu não sou essa tampa de crush toda, tenho cá meus defeitinhos, mas adoro realçar as virtudes dos amigos e parceiros. Então viva o bom caráter, os honestos, os criativos em prol da sociedade. Sempre com vontade de comprovar a tese de que a humanidade tem jeito, que as pessoas são boas e o bem no fim sempre vence.

A data da festa de entrega do Prêmio Leonilla Almeida já está escolhida. Será no dia 7 de março, no Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Talvez, não sei, é apenas um palpite, o Ponto de Cultura continue no mesmo lugar. Se a gente der jeito na falta crônica de dinheiro para pagar o aluguel do prédio. Mas, isso é para outras ações entre amigos que iremos empreender. Aguardem, e sigam-me os bons, tomando lições de humildade e amor ao próximo com essas mulheres do Leonilla Almeida.



terça-feira, 2 de dezembro de 2014






A estrela caiu.Ta no Apocalipse: “E o quinto anjo tocou a sua trombeta e vi uma estrela que do céu caiu sobre a terra e foi-lhe dada a chave do poço do abismo.”

O velho vestido de garoto, papel de Roberto Bolaños na série mexicana de TV “El Chavo Del Ocho”, é muito pior do que Renato Aragão. Ou seja: a produção mexicana foi uma porcaria. A gente conseguia achar graça na falta de graça do programa. O sucesso dele já deve ser tema de muitas teses comunicacionais pela América afora.

Continuo em pleno domínio dos meus talentos de pedante. Não gosto do Chaves, do Pelé, do Faustão e de caminhar pelas manhãs de Jaguaribe, gordo, velho e manco. Odeio Papai Noel, “povo de Deus”, música gospel, crente imbecil, noticiário fútil e outros subprodutos da mídia merda. Já passado da meia idade, do que eu gosto mesmo é de sorvete e de xavasca. A bem da verdade, não tenho mais idade pra essas extravagâncias.

Acho que já nasci velho. Ao contrário de Roberto Bolaño, que virou menino aos 50 anos e foi encaretando ao longo da carreira.

"Ao dizer, vaidosamente, que Dilma faz no governo o que ele prometeu na campanha, Aécio compromete seu desempenho como chefe de oposição, submetendo-se ao destino dela." - José Nêumanne Pinto.

"Jesus era negro. A etnia diz que seria impossível Jesus ser branco. A Igreja criou a imagem de Cristo loiro, porque é mais fácil amor o bonito do que o feio, conforme o padrão de beleza dos que criaram os dogmas do Catolicismo." - Jornalista Fernando Paulino em entrevista no "Alô comunidade"

Adiado lançamento dos livros de Tião Lucena e Efigênio Moura em Itabaiana, marcado para 20 de dezembro. Será no próximo ano, em data a ser escolhida.

Zé Limeira é um santo louco, canonizado por outro maluco, Orlando Tejo. Limeira sofre a mesma angústia de São Cristóvão: muitos o têm na conta das lendas. Ando procurando o texto “O mundo louco do poeta Zé Limeira”, peça de José Bezerra Filho. Vou apelar para meu compadre Rômulo, filho de Zé Bezerra que agora é meu conterrâneo de Itabaiana, de papel passado e tudo.

Nasci pobre, continuo mais nu do que Adão. Porém, e sempre tem um todavia, a não ser minha insignificante pessoa, ninguém tem a chave dos meus sonhos. Isso não é sensacional? Por mais escravos que sejamos, ninguém bota cadeado nos nossos pensamentos. Hoje é o dia internacional da abolição da escravatura.

Hoje também é o dia do samba. Nas redes sociais, estão tocando réquiem para o ”Sabadinho bom”, ótimo projeto musical da Prefeitura de João Pessoa que foi desvirtuado e esculhambado.

REPIQUE DE VIOLA ENTRE SANDER LEE E FÁBIO MOZAR, HOJE DE MADRUGADA

MOZART:
Você nunca mais glosou
Nem louvou Itabaiana
Ficou com medo do ronco
Da onça suçuarana
Poeta ruim é assim
Fala fino e não me engana
E nessa luta insana
Vou lhe puxar a terreiro
Pra fundar academia
Pelo mês de fevereiro
Do ano 2015
Vá afinando o pandeiro.

SANDER LEE

Mozart, meu canto é ligeiro
Feito colibri no ar
Se esse tal de direito
Tem me impedido cantar
Mas com as férias chegando
Irás ver o que é glosar
.
Meu canto é de espantar
O mais portentoso vate
Impressiona uma estátua
E um cachorro que late
E quem gostar de bom ouro
Terá o melhor quilate!

MOZART:

Então ficamos empate
Nesse joguinho de rima
Porque na minha viola
Futucando a corda prima
Sai cada som de repente
Que até velório anima


Rua abaixo, rua acima,
Vamos vender o cordel
Que poesia matuta
Tem gosto de doce mel
Tanto é benquisto na igreja
Como aclamado em bordel








segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O show da educação tem que continuar



Foi o que declarou meu compadre professor Severino Bilunga (foto), ao embarcar para Rondônia, onde vai mostrar seus trabalhos na Feira de Rondônia Cientifica de Inovação e Tecnologia – FEROCIT. Bilunga vai levar seus inventos, seus métodos e teses pedagógicas para esta feira, o que é motivo de orgulho, claro, para os seus alunos, amigos e conterrâneos.

Então, nossa cidade não é feita só de pessoas egoístas, burras e de mentes atrasadas, mas também nessa geografia humana se encontra pessoas iguais a Biu Bilunga, inteligentes, criativos e, acima de tudo, solidários. Ele reserva um pouco do seu tempo para dar aulas gratuitas a jovens que se preparam para concursos públicos e dá reforço em matemática para estudantes no Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. 

Na contramão desse esforço severino pela educação local, leio no Correio da Paraíba que Itabaiana tem o maior índice de abandono escolar na Paraíba do Norte. Exatos 29%, números que chegam perto de países em guerra crônica, tipo Afeganistão. Imediatamente, na cabeça dos mais antigos, vem a lembrança de ícones da educação que já se foram, nomes como da professora Marieta Medeiros e do professor Lauro Maciel, e também evocamos tempos idos onde nossos números da educação eram muito menos vergonhosos. 

Evasão escolar se dá quando o aluno precisa sair da escola para trabalhar, ou porque não tem mais interesse na escola que é ruim, desconfortável e sem atrativo algum, dificuldade de aprendizado porque nossos professores desmotivados não avançam na profissão, falta de transporte escolar ou incentivo dos pais. Seja qual motivo for, a responsabilidade é de toda sociedade, incluindo gestores e mestres, que são pagos para assegurar as condições de ensino e aprendizagem. 

Em conversa com um compadre conhecedor das mazelas locais, ele deu uma opinião interessante a respeito da evasão escolar em Itabaiana. Conforme essa tese, evasão escolar em Itabaiana é maior nas localidades fronteiriças com os municípios de Salgado, Mogeiro e São José dos Ramos, porque eles têm transporte escolar. Com a chegada de novos ônibus, essa evasão tem diminuído.

De qualquer forma, temos orçamento fraco na rede de ensino por conta do abandono e evasão escolar, entre outros motivos, diminuindo os investimentos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) cuja distribuição é feita de acordo com o número de alunos efetivamente matriculados. 

Feito esse registro negativo, meu abraço ao mestre Severino Lourenço, apostado sempre no futuro, dando seu melhor para a educação e a ciência, honrando as cores do time itabaianense por onde percorre com seu arsenal de truques e sacadas educacionais.