sábado, 29 de agosto de 2009

“CORNO NENHUM ME GOVERNA"


Pinto de Monteiro

No fim do século dezenove, nasceu em Monteiro, na Paraíba, um poeta que se tornou legendário na arte de fazer repente ao som da viola, instrumento por sinal que ele nunca aprendeu a tocar. Cantando também era um desastre: voz feia e sem ritmo. Mesmo assim, foi um dos maiores, senão o maior poeta repentista do Brasil.

O nome dele: Severino Lourenço da Silva Pinto, que ficou conhecido como Pinto de Monteiro. Viveu e morreu pobre, cantando nos Estados de Pernambuco e Paraíba. Sua genialidade é incontestável, mas o ponto em que quero firmar tese é sobre o pensamento anarquista nos artistas populares. Numa ocasião, o poeta Expedito Sobrinho, cantando com o velho Pinto, terminou uma sextilha assim:

“Pinto tem setenta anos

Talvez não chegue aos oitenta”.

Ao que Pinto respondeu:

Eu vivo é cento e quarenta

Achando a vida moderna

Escorado na bengala

Coxeando duma perna

Quem me domina é Jesus

Corno nenhum me governa”

No Nordeste brasileiro, os homens nunca foram livres. Os que se declararam livres foram marginalizados e exterminados. O movimento de banditismo rural promovido pelos cangaceiros do começo do século vinte nasceu do inconformismo de homens valentes que não se submetiam à tirania dos coronéis. Os visionários religiosos comandavam multidões de fiéis esfarrapados, com a promessa de um mundo sem senhores e sem patrões. Se bem que o Antonio Conselheiro sonhava mesmo com a volta do rei português D. Sebastião.

Os escravos africanos fugiam do inferno do cativeiro para fundar seus quilombos, onde estabeleciam uma sociedade igualitária, na maioria das vezes. Nos fundos das matas, aprendiam com os índios, cada um era dono de seu nariz e viviam em comunidades harmônicas de respeito mútuo. Esse anarquismo primitivo, cultivado nas sociedades alternativas do Brasil, foi diluído pelo rolo compressor do capitalismo que esmagou as populações e suas experiências alternativas de vida.

A liberdade humana nunca ficou mais reduzida do que nos canaviais, nas casas grandes, nas fazendas dos sertões, nas estruturas sociais do Brasil colonial, seguindo-se a lógica da opressão ao longo da nossa história, até os dias de hoje. Entretanto, mesmo nas mentes mais presas aos limites de uma cultura de humilhação e desigualdades, o sentimento de liberdade, profundamente arraigado no ser humano, sempre brotou no homem simples, no escravo, no artista do povo que disfarçava seu discurso contestador nos folguedos e cantigas. Assim, o negro preservou suas raízes culturais e religiosas por meio do sincretismo.

Tomemos como exemplo o teatro popular de bonecos, que na Paraíba é chamado de Babau e em Pernambuco tem o nome de Mamulengo. As "estórias" são geralmente improvisadas, com diálogos inventados na hora, de acordo com as circunstâncias e a reação do público, misturando bichos - cobras, bois, cachorros, onças; e gente - vaqueiros, latifundiários, bandidos e entidades sobrenaturais como, o Diabo, a Alma, a Morte. Os personagens do mamulengo chamam-se geralmente Benedito, Cabo 70, Professor Tiridá, João Redondo, e são negros, na sua maioria, figurando quase sempre um vilão de cor branca. Resposta do artista do povo ao racismo latente nas relações sociais. Nas tramas do babau, geralmente a polícia é ridicularizada. Os patrões são igualmente escarnecidos e achincalhados pelo humor bruto dos bonequeiros. A “ordem estabelecida” é colocada em xeque diante da negação de qualquer tipo de autoridade nos episódios que se desenrolam em cima da empanada do mamulengueiro.

Essa quebra da hierarquia social nos folguedos populares é visível nos autos do Boi de Reis e Cavalo Marinho. Enfim, o ideário anarquista influencia toda a cultura popular. O que é o nosso carnaval de rua senão um momento em que a repressão estatal e a burguesa permitem essa momentânea quebra da hierarquia? Os afoxés, congadas e maracatus, os caboclinhos e blocos de sujos, os papangus e outras figuras do carnaval lavam a alma do povo, extrapolando os limites impostos pelo sistema. Nas diversas ditaduras que infelicitaram a vida do povo brasileiro, era durante o carnaval que se permitiam as críticas mais contundentes aos ditadores e às condições de vida da população.

Brincando, o povo do país da ginga, do drible de corpo, do molejo do samba, dos passos codificados do terreiro e da malícia do golpe da capoeira, com seus cânticos, ritmos, danças, instrumentos, figurinos e adereços característicos, celebram em forma de procissão, de romaria, de roda, de bloco ou de desfile, sua alegria de viver e sua esperança de superar as correntes da escravidão, em busca da verdadeira liberdade, sempre negada e usurpada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Onde andará Nero, o gladiador?


Nero é um personagem de Itabaiana, tão fantástico que apenas uma descrição de Gabriel Garcia Marques junto com Franz Kafka poderia explicar. É um sonhador, na visão de alguns; um enganador, conforme o ponto de vista dos seus desafetos, vítimas de algum golpe do mestre em fantasia. Sim, porque desde que o conheço, Nero se destaca pela faculdade de imaginar, de criar ilusões sobre si mesmo e o mundo.

Um dia Nero imaginou que seria um grande lutador de boxe. Vestiu a fantasia e saiu por aí desafiando os adversários, reais ou imaginários. Para provar que era o cara, contratou combate com um tal de Tigre Paraguaio, lutador veterano em fim de carreira que andava pelos circos mambembes fazendo exibições ordinárias. Feito o acordo da marmelada, no meio da “luta” Nero acertou um soco no adversário, que chiou:

− Nero, vai com calma que essa pegou!

E Nero, entusiasmado pela torcida:

− Comigo é pra valer!

Levou um direto no fim do primeiro assalto que foi acordar no hospital. Mas continuou sua carreira de boxeador imaginário, inventando mil histórias de lutas fantásticas contra os maiores pugilistas da terra. Andava exibindo telegrama de um tal de Mike Tyson pedindo que Nero não o desafiasse, para o bem de sua fama internacional.

Alistou-se na Polícia Militar, de onde foi expulso por indisciplina. Entrou com ação na Justiça, alegando que foi vítima de um complô da Cia, KGB, Scotland Yard e outras corporações. Depois forjou notícia de jornal onde aparecia como o soldado que foi promovido a capitão por bravura e por ter enfrentado a máfia da própria polícia. Ainda hoje quer ser chamado de capitão, patente imaginária que arrumou na sua cabeça insana.

Essa figura me aparece em Mari, na rádio comunitária onde eu apresentava um programa jornalístico, acompanhado de Dedé “Braço de Radiola” − seu empresário, outro rapaz “viajante na maionese”, como se diz por lá. Queria promover uma luta beneficente, desafiando os homens valentes da cidade para um combate. Apareceu um tal de Genival Monteiro, metido a lutador de caratê e também meio lelé da cuca. Sendo um sujeito destemido, na condição de vereador, Genival metia a pua na prefeita que o odiava. Por vias do despeito, a prefeita garantiu a Nero um bom cachê se o nosso lutador aplicasse uma surra no adversário, adiantando por conta 200 paus. Nero pegou a grana e desapareceu da cidade, deixando Genival com água na boca e a prefeita frustrada por ter levado rasteira daquele “lutador” descarado.

Depois disso nunca mais soube de Nero, que se intitulava “o gladiador”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Teatro de Itabaiana comemora 33 anos de fundação


No dia 22 de agosto de 1976, o Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana – GETI – realizava sua primeira apresentação pública, com o espetáculo “A Peleja de Lampião com o capeta”, no palco do antigo Itabaiana Clube. Na foto identifiquei, da esquerda para a direita: Geni, Idalmo (que encarnou Lampião na famosa peça), Osório Cândido, professora Socorro Fragoso, Fábio Mozart (de barba a la Raul Seixas), Flaviano Almeida e Joaquim Lopes, o Neguinho. Foi na bebemoração, ao final do espetáculo.

Um ano depois, fundamos a Sociedade Cultural Poeta Zé da Luz, que depois passou a se chamar Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba, com o objetivo maior de divulgar a cultura regional. Além de Idalmo, participaram do primeiro espetáculo os atores Norberto Araújo, Ercílio Palhano, Romualdo Palhano, Roberto e Elizabeth Palhano, Osório Cândido e Agnaldo Alves. Nos bastidores, atuaram Flaviano Almeida, Luciana Pascoal, Geni, Carlos Alberto Lucena, Jandira Lucena, Joaquim Lopes, Weber Veloso e José Ramos. Desses, nenhum mais resta morando em Itabaiana.
O foco era usar o teatro para tentar emocionar o público com elementos de sua própria cultura. Fazíamos um teatro emergencial, sem grande apoio da técnica, mas fomos responsáveis pelo embrião da cultura artística organizada na terra de Sivuca.
No presente momento, o grupo ainda luta por um espaço digno onde possa realizar suas atividades, através dos companheiros Normando Reis, Fred Almeida, Marcos Veloso, Edgley Gonçalves, Das Dores Neta e Clévia Paz.
Nesses 33 anos, o grupo montou as peças “A Peleja de Lampião com o Capeta”, “Auto da Paixão”, “Nem só de pau vive o homem”, “ABC de Zé da Luz, o poeta do povão”, “Vozes da vida e da morte” e “O Batalhão das Sombras”, todos de minha autoria. Ainda montamos “Dorotéia Carvalhal, a mulher que se casou 18 vezes” (adaptação de cordel), “Dois perdidos numa noite suja”, de Plínio Marcos e “Hoje a banda não sai”, original de Marcos Tavares.

No próximo ano, o companheiro Romualdo Palhano pretende lançar em Itabaiana um livro que fala sobre a história deste grupo de teatro amador. Na ocasião, eu também estarei lançando um livro de crônicas com o título provisório de “A Voz de Itabaiana e outras vozes”. Aproveito e já recebo o diploma de cidadão honorário da terra de Zé da Luz, que muito gentilmente a Câmara Municipal me concedeu. Para quem não sabe, sou pernambucano de Timbaúba, mas radicado em Itabaiana desde garoto. Romualdo atualmente é doutor em Teatro pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UNIRIO – e professor da Universidade Federal do Amapá.

O grupo vivenciou muitas coisas nos 33 anos de existência. Fundamos um teatro de bolso (Teatro Nautília Mendonça), que depois foi engolido por um prefeito. Durante a ditadura, fomos presos em nome da segurança nacional, pelo crime de montar uma peça que falava da miséria do povo. Do nosso grupo saíram Romualdo e Palmira Palhano, dois nomes de proa do teatro da Paraíba. Despontou também no meio artístico o companheiro Agnaldo Alves, nosso “Pabulagem”, fundador e líder do grupo folclórico Acauã da Serra, de Campina Grande.

De resto, temos muitos motivos de orgulho por fazer parte daquele grupo de artistas amadores, renovando a fé nos atuais compaheiros que ainda teimam em guiar as novas gerações na luta por sua própria identidade, através das artes cênicas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MIRO DO BABAU É O CARA!





Em Mari vive um cidadão por nome Ramiro Freire, conhecido como Miro do Babau. Roupa extravagante, paletó vermelho, óculos escuros, cravo na lapela, chapéu “cheguei”, ele anda pelas ruas tocando um pandeiro e cantando velhas cantigas de boemia. É um sujeito verborrágico, quando se espalha é difícil juntar.

Figuraça, esse Miro do Babau, estrela de uma roda de exposição da arte do mamulengo promovida recentemente por um grupo de pesquisadores do Ministério da Cultura. De uma hora para outra, Miro foi transformado em “patrimonio imaterial da Paraíba”. Levaram nosso herói para um luxuoso hotel na orla de João Pessoa, onde também estavam os mestres Clóvis e Luiz do Babau, de Guarabira, mestre Paulo de Mogeiro, mestre Maestro de Bananeiras e mestre Inaldo de São José dos Ramos, além do mestre Vavau de João Pessoa. Tantos mestres mamulengueiros juntos, depois que abriram suas malas de bonecos foi um fuá medonho. O que saiu de beneditos, marias quitérias, cabos setenta e o diabo a quatro não foi brincadeira, ou melhor, foi brincadeira das boas a noite toda.

Miro do Babau parecia um dez réis trocado na roda de conversa, onde os mestres puderam contar suas histórias de vida, as dificuldades que enfrentam para manter sua arte e falar dos seus espetáculos. Muitos desses mestres já deixaram de brincar, uns porque viraram protestantes, outros porque não conseguem interessar as novas gerações para o seu “brinquedo”, que não pode enfrentar o que a indústria cultural impõe através da TV e outras mídias. Alguns ainda tentam resistir, mas não são incentivados pelas instituições do poder público que não valoriza esses artistas populares. “Só sou chamado para trabalhar no dia do folclore, assim mesmo de graça”, reclama Miro do Babau.

Mas ele não desanima. Tem o entusiasmo de criança, admirado pelos que assistiram sua apresentação em João Pessoa, basicamente pesquisadores, alunos e professores da UFPB. Na platéia, Emilson Ribeiro, pesquisador da cultura popular e responsável por esta área na Fundação Cultural de João Pessoa – Funjope. Apenas um prefeito veio prestigiar a apresentação do seu artista, que foi a prefeita de São José dos Ramos, Dra. Maria Aparecida Rodrigues, conhecida por Dra. Cida. Na conversa com o grupo, mestre Miro do Babau contou sua história, de um jeito apressado e impaciente como é seu estilo, mas depois “encantou a todos cantando uma das pérolas do seu repertório de cantor brega, mobilizando toda a platéia com a sua crença na maravilha da vida”, conforme afirmou um dos pesquisadores. Um jovem por nome Jonas acompanhava o mestre Miro, fazendo o papel de Mateus, que é o cara que fica na platéia interagindo com os bonecos, falando diretamente com eles. São chamados também de “secretários”, os que dialogam com personagens como os policiais, o capanga, o coronel, o padre, o catimbozeiro, o boi, a cobra e tantos outros.

O mestre Inaldo de São José dos Ramos também foi destaque na apresentação, principalmente na cena do coveiro carregando o morto. A incelença e a movimentação de cena, executada de forma solene e poética, silenciou a platéia. No final, ficou a certeza de que esses artistas de uma arte em extinção ainda não estão isolados do mundo. Alguns, como esses pesquisadores, buscam caminhos que possibilitem a manutenção do brinquedo e a continuidade do babau.

Quanto a Miro do Babau, voltou para Mari nem orgulhoso nem mais consciente do seu valor como artista. Continua com sua vida de alegrar as pessoas com suas canções bregas e seu teatro de bonecos pra quem quiser ver/ouvir, sem se preocupar com esse negócio de preservação da cultura popular. Mas eu sei que ele é o cara. Muita gente em Mari, inexpressiva culturalmente, faz tudo para aparecer, sem conteúdo ético, moral ou cultural, na ânsia de dar vazão ao seu estrelismo estéril. Vaidades vazias diante de um Miro do Babau, esse sim, um artista que orgulha a terra do mestre Antonio Galdino, o maior mamulengueiro de Mari, já falecido.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Bolo no ventilador


Um dia, o cerimonial do governo do Estado da Paraíba andou por caminhos nunca dantes navegados, com a licença de Camões. E foi por obra e graça de um sujeito totalmente avesso a esse negócio de formalidades. Quem o conhece sabe do que falo. Trata-se do músico e poeta Pedro Osmar, que foi indicado para representar a Associação Paraibana de Imprensa na festa de aniversário do governador, o também poeta Ronaldo da Cunha Lima.

Pedro, na condição de diretor de cultura da API, apresentou-se na entrada da festa em trajes, digamos, não muito convencionais: bermuda básica, chinelos e camiseta. Os porteiros foram logo implicando com o homem, mesmo ele portando o convite oficial. Consultado, Ronaldo mandou Pedro entrar, conhecendo sua espontaneidade.

Toda a Paraíba oficial estava no salão nobre do Hotel Tambaú, a nata da sociedade, as madames com seus vestidos delirantes, os homens nos seus melhores ternos, a minoria que detinha e detém o prestígio e o domínio na nossa Paraíba provinciana estava toda lá para homenagear o governador. Começando o cerimonial, os oradores se sucediam na louvação ao aniversariante. E haja coquetel, bajulação em prosa e verso ruim, em uma noite que prometia muita badalação para mais de 500 pessoas. Pedro Osmar estava no seu cantinho, quase invisível, mas mesmo assim um incômodo à nata da sociedade ali presente.

Os discursos tão chatamente típicos desse tipo de evento se sucediam, e Pedro ia enchendo o saco devagarzinho. Chegou o momento de convidar os representantes das entidades presentes, e o nome de Pedro Osmar foi solenemente ignorado. Tudo caminhava para um desastre iminente, mesmo porque Pedro começou a ridicularizar os enfastiados convidados e suas madames.

Na hora de cortar o bolo, Ronaldo Cunha Lima já estava, ele também, entediado com aquele bajulismo irritante, doido para tomar sua cachacinha num boteco qualquer, declamar seus versos no meio de pessoas espontâneas e francas. O Mestre de Cerimônia iniciou o ritual de corte do bolo, esquecendo de convidar o diretor da API para participar do festim. Foi um erro de consequências fatais para o bom andamento da cerimônia. Pedro meteu as duas mãos dentro do imenso bolo e começou a jogar em volta, sujando as preciosas roupas das madames e os trajes formais dos cavaleiros. Aí, meu camarada, foi quando a porca torceu o rabo, a vaca tossiu e a arara cantou. Achando pouco, ele pegou o resto de bolo e jogo no imenso ventilador de teto.
No meio do tumulto, alguém acionou a polícia. Em segundos, a porta do hotel estava coalhada de policiais. Veio a rádio-patrulha, a cavalaria, o canil, a guarda municipal e os demais meganhas para deter o atrevido poeta que bagunçou a festa do governador. Pedro Osmar só não foi preso porque Ronaldo saiu com ele do hotel, abrindo fileiras no meio dos soldados, conduzindo-o para local seguro.

Depois disso, Pedro achou por bem dar um tempo. Viajou para São Paulo, deixando a Associação Paraibana de Imprensa com a ingrata missão de se desculpar com o governador pelos inconvenientes causados por seu representante naquela fatídica festa. O prejuízo maior: as fotos das madames não puderam ser publicadas nas colunas sociais do dia seguinte. Ninguém queria aparecer como personagem de pastelão!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009


Jornalista Arnaud Costa (meu pai) escrevia no Timbaúba Jornal, na década de 50. Quando publicou esta crônica, eu ainda não havia nascido.

UM APARTE

Arnaud Costa

O Professor José Cavalcanti

Imagine-se um homem completamente paralítico, deitado numa rede, impossibilitado de ler, escrever e até de satisfazer as mínimas necessidades fisiológicas; um mancebo de paciência ascética, que trazia o mundo para dentro de casa através da literatura, à qual devotava suprema abnegação; um mestre paciente, metódico e perspicaz; um cidadão altivo, pachorrento, por vezes humilde e dedicado, quase sempre − e ter-se-á uma pálida idéia do que foi em vida o Professor José Cavalcanti de Lima, cuja consagração ao ensino ultrapassava os limites de um apostolado, duma paixão inconteste.

Quem, como eu, teve o privilégio de conhecer o antigo Diretor do INSTITUTO BATISTA de Itabaiana, não ignora o fato, incomum e paradoxal, dum Professor, ainda que primário, sem poder ler e escrever as lições marcadas diariamente, para mais duma centena de alunos do seu educandário às expensas do sacrifício e da dedicação do Mestre desaparecido. Apesar dos pesares, o Professor Cavalcanti lia, escrevia e contava, por intermédio da sua irmã, auxiliar indispensável do Colégio, que punha em prática o engenho oriundo da inteligência privilegiada do mano.

Possuidor duma memória aguçada, dono dum espírito elevadíssimo, cuja resignação ao sofrimento e à dor constrangia os corações mais endurecidos, o Professor Cavalcanti ensinava quotidianamente, com a venerável dedicação dum verdadeiro mártir, muitas vezes ainda sentindo as atrocidades das dores que o atormentavam quase todas as noites. Vivia do ensino. Senhor duma dedicação altruística, tratava os alunos com o maior carinho, nunca aplicando ensinadelas, jamais infligindo castigos.

Era assim o Professor Cavalcanti. Mesmo sem ter alisado os bancos duma escola, mesmo sem conhecer os salutares benefícios duma sabatina, conhecia como ninguém, todas as matérias que ensinava, acrescida de inglês, francês e latim.

Polemista, escritor, jornalista e exímio manejador da palavra, o ilustre homem desaparecido deveria ser imitado pelas gerações futuras. A sua memória deveria ser legado à posteridade, como exemplo para aqueles que, mesmo destituídos de aptidões, mesmo portadores de defeitos físicos, necessitam vencer honestamente na vida.

A rede tosca e sem apetrechos era a sua cátedra, a sua banca de trabalho, o seu posto de vigília. Nunca recebeu auxílio oficial, assim como nunca precisou de esmolas. Certa vez foi visitado pelo Governador José Américo, tendo sido, na oportunidade, alvo dos mais alcandorados encômios, das mais alvissareiras promessas. Mas, com o tempo o Chefe do Governo esqueceu o prometido, e a vida seguiu o seu ritmo normal até a morte, há pouco, do pranteado educador.
E, como reminiscência desse homem extraordinário, Itabaiana tem hoje, graças à Câmara Municipal, a “Rua Professor José Cavalcanti” − última homenagem a quem prestou os mais relevantes serviços à terra comum.

Arnaud Costa

Transcrito do Timbaúba Jornal de 23/04/1955

sábado, 22 de agosto de 2009

AINDA SOBRE SIVUCA


AINDA SOBRE SIVUCA

Joacir Avelino


Sobre o seu artigo “Palavra fora de contexto”, gostaria de emitir minha opinião a respeito dos comentários em torno do músico Sivuca. Ele sempre enalteceu o nome de Itabaiana por onde passou. Por causa dele muitos brasileiros passaram a entender que não havia apenas a Itabaiana do Estado de Sergipe, mas também existia uma no Estado da Paraíba. Lembro-me que certa vez, na década de 70, assistia num dia de domingo ao programa Fantástico da Rede Globo, quando de repente surge uma reportagem sobre os músicos brasileiros que mais faziam sucesso no exterior. E eis que aparece Sivuca, com sua fisionomia albina, de barba, já um homem experiente, com sua sanfona, companheira de todos os momentos. A certa altura da entrevista o repórter pergunta de onde ele é. A reposta vem na ponta da língua, sem titubear: “sou de uma cidadezinha do interior da Paraíba, chamada Itabaiana”.
Eu, particularmente, já assisti a vários shows de Sivuca ao vivo, um inclusive muito interessante, aqui em Maceió, onde resido, em que com sua sanfona praticamente regia a orquestra sinfônica da Paraíba, quando de uma apresentação ao ar livre no papódromo, este assim chamado em homenagem ao Papa João Paulo II, quando esteve por aqui. E na ocasião, a certa altura do espetáculo, fez questão de falar da sua origem itabaianense. Da mesma forma que regia a orquestra do seu Estado, fez ver à platéia que outras orquestras do mundo, especialmente na Europa, também tinham esse privilégio, inclusive já estava com viagem marcada para se apresentar diante de uma orquestra na Áustria. Em dezenas de outras entrevistas que assisti, sempre que perguntado sobre sua origem, orgulhosamente Sivuca respondia: sou de Itabaiana, pequena cidade encravada no interior da Paraíba.
Ao ler o seu artigo lembrei-me de um disco em vinil que adquiri na década de oitenta, quando residia em Cuiabá. Era uma “seleção de ouro” do Sivuca, cujo lançamento tinha o selo da extinta Beverly. Dentre as doze músicas escolhidas, duas retratavam Itabaiana no seu âmago: “Feira de Itabaiana” - não confundir com “Feira de Mangaio”, um clássico do autor, além de “Alagamar”. Essa seleção trouxe o que de melhor Sivuca gravou em termos de forró, o verdadeiro ritmo nordestino.
Agora vem essa história de alguém que plantou uma notícia falsa de que Sivuca em algum momento renegou sua origem. É aquela máxima popular: uma notícia mentirosa, repetida várias vezes, às vezes torna-se verdadeira. Essa rede de boataria sempre existiu, principalmente em cidades do interior.
Em vez de estarem plantando mentiras, os boateiros de plantão poderiam reverenciar melhor os filhos de sua terra, porque se não fizerem isso, os outros dificilmente farão. Por que não se fazer uma enquete para se saber se na entrada de Itabaiana caberia uma placa com os dizeres “Itabaiana – terra de Zé da Luz” ou “Itabaiana – terra de Sivuca”? A sugestão foi dada, agora só cabe aos itabaianenses decidirem.