Meu compadre Ameba mandou essa fábula natalina: “Tou
criando um chester aqui em casa. A mais poderosa produtora de alimentos
frigoríficos quer comprar meu chester. Recuso-me a vender. Eles dizem que meu chester
é pirata, que o deles é legítimo. Denunciaram meu frango bem dotado no Programa Nacional de
Sanidade Avícola do Ministério da Agricultura. Garantem que violei 25
instruções normativas e 18 decretos regulamentadores da criação de frangos.
Corro risco de ser preso por crimes contra a propriedade imaterial, contra o
patrimônio e a patente e contra a fé pública. Violação de direitos autorais,
porque a empresa assevera que foram eles os inventores do chester. Passaram
trinta anos pesquisando e fazendo experimentações pra criar um frango com muita
carne no peito e nas coxas, e sem gordura. De um desses experimentos saiu a
Mulher Mamão, uma mutação genética.
Meu chester entrou na clandestinidade. Vive disfarçado de
peru. Mas ta tomando todas as vacinas. Ele diz que só os imbecis não têm pressa
pra se vacinar. É apenas um frango anabolizado, bombado, com histórico de
atleta, mas tem sentimentos. Um galináceo consciente. Ele está triste neste
Natal de 2021 porque na mesa do pobre não teremos peru, nem chester. Carne de
boi subiu 40% e arroz subiu 60%. Não vai rolar arroz com passas nem pavê. Pelo
menos ficamos livres da piada sem graça do tio do pavê. Teremos pombo recheado
com farofa e pernil de rã, a famosa jia. Sardinha em lata e champanha cereser,
cachaça xiboquinha, licor de menta, vinho de jurupinga, vodka Natascha, Velho
Barreiro e cerveja Glacial. E vinho de Catuaba pra aumentar a libido e
estimular o sistema nervoso central.
Meu chester estará ausente desta mesa de Natal, porque ele
segue todos os protocolos de segurança. (Nesse momento, a música natalina toca
com andamento alterado, em ritmo lento)”.