domingo, 27 de novembro de 2016

POEMA DO DOMINGO


COMANDANTE FIDEL
Comandante Fidel
vão demolir sonhos
e construir muros
mas teu nome vai ficar
enorme – encobrindo
com a fumaça do charuto
as noites de bordel
do Caribe
e as longas noites
de choro e fel
do Terceiro Mundo.
Teu nome vai ficar
massivo, incisivo
démodé
kitsch
com o charme das coisas
que são eternas.
Definitivamente
as leis, editos e atos
da revolução
jamais irão
te alcunhar
velho despótico
porque não se esteriliza
o mito.

F. Mozart

sábado, 26 de novembro de 2016

MULTIMISTURA entrega o Troféu Traíra da Semana


* Justiça sem a prega mestra.

* Tapete que escondeu a lama da lagoa.

* Bebé e sua cruzada contra os neopentelhudos.

* Emerson Mofi, o repórter de porta de cadeia, ganha repúdio e nota de apoio.


Visite as partes íntimas do MULTIMISTURA (Bloco 1) no RadioTube:





quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Os elogios, publico; as críticas, escamoteio


Agradeço aos leitores destes versos mínimos pelo país afora. Não sei quem foi que disse que elogio é algo bom de se receber, mas não traz nada de novo.  Neste meu domicílio literário da Toca do Leão e no Recanto das Letras, tenho recebido vozes contentes por ter lido alguma coisa no espaço, o que já vale a pena ter pensando, produzido e postado os poemetos. O diálogo com os leitores ensina, sim. Aprendo que poesia é sempre um entrecruzar de olhares. Essa dinâmica fortalece meu caminhar trôpego no difícil mundo das palavras.

VITÓRIO SEZABAR é de Bom Jardim, Rio de Janeiro. Sobre os “poemas mínimos”, mandou dizer: “Como dizia o meu velho pai: ‘coisa" de quem sabe o que faz’! Dez pra você, poeta.

LUIZ CARLOS Zanardo, de Londrina, Paraná, já foi lavrador, bancário, marceneiro, vendedor, radialista e ator. Atualmente é formado em administração. Foi sucinto: “Perfeito. Gostei. Extremamente criativo.”

“De muita e boa criatividade, “escreveu Ene Ribeiro, uma moça de Goiânia, Goiás.
NORMA APARECIDA SILVEIRA MORAIS é de Suzano, São Paulo. Ela foi muito generosa com o velho leão poeta: “Belíssima coleção de versos. Em cada poesia uma mensagem de pura sabedoria. Aplausos mil.”

Sobre a crônica “No meio do nada”, Elischa, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, comentou: “Que belo texto, Fábio! Viajei em tua narrativa! com certeza estás certo em teu convite. Tempos atrás viajei pra Roma e parecia estar no Japão. Bom é visitar um lugar com poucos ou nenhum turista e duvido que tenha melhor lugar pra ser conhecido e visitado como nosso belo, verdejante, montanhoso ou árido Brasil. Um abraço, poeta!

Ainda sobre esta crônica, Norma Aparecida afirmou: “Muito bela narrativa e descrição. Fiquei aqui imaginando cada cenário, cada árvore de angico, cada passarinho, cada nascente que ainda pode restar escondido. Aplausos mil.


Então, é isso que eu digo, esse gosto de ter seu trabalho sendo lido e obtendo o retorno do leitor com sua objetividade de consumidor comum da obra literária, sem o formalismo e pedantismo dos críticos profissionais. 

domingo, 20 de novembro de 2016

POEMA DO DOMINGO


HAI-KAIS NA MADRUGADA

A foice do lucro martela
as mãos revolucionárias
de Carlos Marighela

Que queiras ou não queiras
novas mãos empunharão
outras bandeiras

Jaz fuzilado
a esmo
quem amou o próximo
como a si mesmo

Viveu amanhecendo
morreu em plena aurora
anoiteceu vivendo

Verdemente
a frutinha se põe
em semente

Noite inteira em serenata
muriçoca bemol
carapanã sonata

Crime que não se arrola
matar a aula
o melhor da escola

Forçando a rima
criando clima
as luzes de Paris
me deixam tão febris!

A vida inteligente
escorre nos condutos
mansamente

Como um Narciso torto
quero estar belo e roxo
depois de morto

Um novo tempo despercebido
explode em nós
sem alarido

Numa dimensão sem porta
escrevo este poema nu
em letra morta

Não era hora ainda.
Por que o ser humano
sem cumprir-se, finda?

Pelas barbas de um rei assírio
como é vetusto o charme dessa rosa!
Como é antigo o cheiro desse lírio!

Acordar cedo
tecer a teia institucional
do nosso medo

Nos olhos teimosos
de quem foi embora
a luz inexistente
de uma tênue aurora

Nervosinho, aperreado
sem saber que, pelo tempo
será bostificado.

No Jacaré arrebol
músico aquático foi visto
roubando a cena ao sol


F. Mozart

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

No meio do nada

Lajedo do Pai Mateus em Cabaceiras foi cenário de filmes

Fazenda Lajedo, cariri da Paraíba, um lugar no meio do nada cercado de pedras, mandacaru, xique-xique, coroa de frade, facheiro e solidão. Bandos de pássaros de muitas espécies catam xerém farto no terreiro. O teju, desconfiado, vem comer a melancia e o abacaxi com os saguins. Sons de chocalhos dos bodes, monotonia, vento quente, rio seco. Terra de pedras: Lajedo de Pai Mateus, Lajedo de Manoel de Sousa, Pedra do Cálice, Muralha do Meio do Mundo, Lajedo do Bravo, cannion do Rio Soledade.
O bando de galos-de-campina voou e foi pousar na nossa mesa do almoço, olhos grandes e bicos sem cerimônia. O papa capim também chega junto. Depois, o casal de canários da terra e a família de saguins também chegam sem convite, acordando cenas virgens aos nossos olhos de citadinos.
No panfleto, a observação: “aqui, nada se tira a não ser fotografias, nada se leva a não ser saudade e nada se mata a não ser o tempo”. A área é de preservação ambiental.
Nesses caminhos caririzeiros, no entanto, um bicho anda escasso: o homem. No mundão seco, chão de pedras, casas abandonadas, seriemas debaixo do pé de juá, uma tragédia social e geográfica naquele lugar brutalizado pela paisagem amarga e áspera, sem água e sem terra fértil onde a chuva às vezes nem pinga por muitos anos.
O esforço é investir no turismo ligado aos esportes radicais e ecoturismo. Por isso, os bichinhos da fauna são tão paparicados naqueles ermos, calcanhar-de-judas apresentando uma beleza que só os desertos têm para mostrar com seus dentes afiados e seus espinhos ameaçadores. Soturnos currais de pedra seca, tristeza evocativa de antigos faustos. Córregos vazios, grotas de anjico que o povo do lugar aprendeu a transformar em oásis pelo milagre da adaptação ao meio. Mas, nem esse jeito faquir de viver foi suficiente para manter o natural em sua áspera terra. Faltam braços para revigorar o solo pobre, cheio de pedras e cobras, escorpiões e tejus desconfiados. O povo cansou de escavocar a terra que não ajuda.
Ora pois que, por via do cenário árido, a região passou a set de cinema. Até novela de TV andaram filmando. Lá foi a escassa população restante pastorear artistas e fazer figuração, aprender a receber turistas e mostrar seu paraíso desértico. Exaurido e reconhecendo a superioridade do deserto, o caririzeiro agora valoriza o pio da rola fogo-pagou e o clarão dos refletores do cinema nesse oco da Paraíba. “Somos a Hollywood nordestina”, diz orgulhoso o povo do lugar. De vão aberto na geografia da fome, rasgado para o vazio, o cariri aprende a ganhar a vida mostrando sua paisagem inóspita e emprestando-a para o audiovisual tupiniquim. Fora isso, a exploração mineral, principalmente a bentonita, uma argila vulcânica muito comum na região.
Pra quem gosta de viajar e fazer turismo de verdade (não para inglês ver), vale a pena visitar esse pedaço da Paraíba do Norte.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Prefeito de Itabaiana transforma sua cidade no maior município do Brasil


E mais:

MULTIMISTURA dá aula de história e explica direitinho o caso da Programação da República Bananeira.

Escute a gravação no RadioTube:



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A falta que ele faz


O maluco beleza Raul Seixas andava perdido pelos Estados Unidos quando conheceu John Lennon, o astro do The Beatles, e sua mulher Yoko Ono. Em 1989, no programa do Jô Soares, Raul falou pela última vez na televisão. O desaparecimento de Raul Seixas foi o fim, de certa maneira, de um jeito distinto de se fazer rock no Brasil e de se viver a filosofia desse estilo musical que surgiu nos Estados Unidos em 1940. “O rock and roll morreu em 1959. Minha música é classificada por mim como raulseixismo e eu tou botando água na fervura da panela do diabo pela última vez”, disse, já meio destrambelhado pelo álcool e outras drogas, o cantor e compositor que marcou época, considerado pai do rock brasileiro.

Acompanhado pela banda “Envergadura moral” e reinventado pelo baiano e amigo Marcelo Nova, Raul cumpria a duras penas seus últimos shows, até morrer em agosto daquele 1989. Na entrevista histórica, Raul contou sobre seu contato com Lennon. “Ele me perguntou qual o nome de maior destaque no Brasil, Eu, meio sem saber o que responder, tasquei: Café Filho”. Esse Café foi o cara que substitui Getúlio Vargas por 14 meses quando o “pai dos pobres” deu um tiro na cara. Em 1955, no ano em que nasci, Café Filho não aguentou a pressão e se mandou. Foi substituído por Carlos Luz, então Presidente da Câmara. O General Lott botou pra fora o Luz e indicou Nereu Ramos, vice-presidente do Senado, para tomar conta da Presidência deste país esculhambado e ditatorial.

Não sei se Raul lembrou do Café Filho por pura galhofa ou porque admirava aquele político insignificante e fraco. O que sei é que hoje eu vejo companheiros como o ex-marxista Dalmo da Silva se posicionar a favor de Michel Temer e artistas do naipe de Vital Farias louvarem o golpista e execrarem a galera da esquerda que foi apeada do poder pelo golpe político judicial.

Raul é citado como um dos cem maiores artistas da música brasileira. Foi expulso do país pelos militares por não se enquadrar na ordem “moral e cívica” dos fardados. O vigor musical do maluco beleza continua até hoje. Suas ideias, com o tempo, mostraram-se na linha dos 80% de bobagens metidas a metafísicas e filosóficas. O resto é rock com aquele toque existencial e muita originalidade. Seu LP Krig-ha Bandolo!, de 1973, ainda hoje é considerado um dos cem maiores discos da musicografia tupiniquim.

Hoje, faz falta o pensamento metamorfoseado desse baiano encapetado. O que diria do golpe que derrubou a Presidenta Dilma? Como se posicionaria diante do lixo musical que se produz hoje? Eu, particularmente, gosto de sua pegada anarquista. “Todos os partidos são variantes do absolutismo. Não fundaremos mais partidos; o Estado é o seu estado de espírito”, afirmou um dia. “Ninguém tem o direito de me julgar a não ser eu mesmo. Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender”. Não julguemos Raul. Louvemos sua arte que é sua identidade. “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade”, assegurava.

(Para o poeta Paulo Seixas, raulseixista de Queimadas, na Paraíba)