terça-feira, 5 de julho de 2011

QUEM LÊ MEU LIVRO



Agnaldo Vasconcelos

Radialista e líder comunitário, Agnaldo Vasconcelos é fundador da Rádio Comunitária Lagoa FM, de Lagoa de Dentro (PB). Ativista cultural, Agnaldo exerce atualmente o cargo de Secretário de Cultura de Lagoa de Dentro, onde conseguiu realizar uma festa de São João autêntica, com poucos recursos, mas com muita imaginação, organização e respeito pelas tradições culturais do seu povo. 

No São João de Lagoa de Dentro tocaram as Bastianas e mais sete sanfoneiros da região, com vários grupos folclóricos dançando ao som do autêntico forró. 

A Rádio Comunitária Lagoa FM vai retransmitir o programa “Alô comunidade” a partir do próximo sábado (9), inserindo um bloco com noticiário da cidade e entrevistas com personalidades locais. É a rede de integração das rádios comunitárias cada vez mais se estendendo na Paraíba através do Projeto Tabajara.

O programa “Alô comunidade” é transmitido pela Rádio Tabajara AM todos os sábados a partir das 14 horas. Meu compadre Agnaldo Vasconcelos e o comunicador Leonaldo Ferreira serão os âncoras da Rádio Comunitária Lagoa no programa. Ele está lendo “Biu Pacatuba – um herói do nosso tempo”, meu livro que fala das lutas camponesas em sua região.

QUEM LÊ MEU LIVRO


Nina de Mandacaru



Nina se desdobra para manter acesa a chama da Rádio Comunitária Cactos de Mandacaru, em João Pessoa. Encontrei com Nina no Curso de Gestão e Políticas Culturais que estamos fazendo no Espaço Cultural. Ela recebeu o meu livro “Democracia no ar”, que fala da sua rádio e de outras experiências de rádios comunitárias autênticas na Paraíba. 

Dado o teor de sua coragem e disposição para as lutas pelo bem comum, Nina está entre os grandes nomes femininos na guerra pela democratização das comunicações em nosso Estado. As forças ocultas do poder dos grandes tubarões da mídia paraibana emperram a concessão da licença de funcionamento da rádio Cactos, mas a comunidade parece aspirar a um posto maior do que ser notícia policial escandalosa no rádio comercial. Querem ser sujeitos de sua própria história, e para isso lutam pelo seu canal de rádio de baixa potência. Desse modo, Nina encarna essa luta de Davi contra Golias. A vitória é improvável, mas o combate é necessário.  Axé pra Nina e seu povo guerreiro de Mandacaru com suas cinco bocas e sua cultura que vem desde o século XVIII.

Mandacaru, planta com espinhos e flores amareladas, terra onde o Padre Zé plantou milagres de solidariedade, distribuindo lotes de terras para pessoas pobres. Isso está registrado no livro “Mandacaru”, de autoria de Gerson, morador do bairro há mais de sessenta anos.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Andar com fé eu vou



Sem ter livre arbítrio, eu acredito no horóscopo. Ouço os astros todas as manhãs. É uma crença temperada pela comoção de ver em letra de imprensa os teus desvios de caráter, teus descaminhos. Ler os conselhos dos astrólogos, como mediadores de nossas vidas, apontando para as fronteiras da imaginação e do sonho. Isso é o que a gente anda procurando, fugir da realidade avassaladora, navegar pelas revelações trazidas pela Lua cheia no nono setor zodiacal, estremecer com as alusões subliminares a respeito de tua vida amorosa, tua saúde e insegurança, conforme aponta o Sol na quarta casa.

Meu mapa astral diz claramente que eu preciso passar pela fase de Lua Cheia, pela desestabilização emocional temporária, para então abraçar o período posterior, mais alegre e luminoso. “Faça seu dever de casa e continue sua vida normalmente, mas esteja com a alma preparada para os tumultos que o mundo anda produzindo e que inexoravelmente vão lhe perturbar, mesmo fazendo o dever de casa”. Talvez a comadre ache um exagero atribuir à influência dos astros a minha crônica crise financeira, meu desleixo histórico, minha falta de firmeza em quase tudo. Mas, como eu disse no começo, não tenho livre arbítrio. Sou inteiramente sujeito aos humores do Governo, da Justiça, da família, dos censores públicos, privados e interiores e do banco onde passo duas horas de castigo para doar pequenas, mas significativas quantias destinadas a encher as burras do sistema financeiro.

Preciso acreditar nos objetos celestes e suas interpretações dos eventos de minha vidinha besta. Sei que é uma estupidez, mais uma. Valorizar, entretanto, a própria estupidez é uma virtude, diz meu horóscopo. Se é coincidência eu não sei, mas o velhinho que morava perto de minha casa leu no seu horóscopo: “a música pode te levar aos confins da solidão”. De fato, por reclamar da música alta demais, foi mandado para um asilo de velhos.

O mundo é grande demais e deve existir um sujeito mais imbecil do que eu. Acredito em horóscopo, bíblia, tarô, simpatias, premonição, profecias, astrologia, Deus, energias, espiritualização, budismo, cabala, misticismo e o diabo a quatro. Dizem os entendidos que todo nativo brasileiro carrega em seu DNA a herança histórica das religiões católica e espírita. Incapacitado de ver fora do meu habitual e limitado campo de visão, balanço para entrar até em igrejas daquelas tipo “pegue-pague”, abertas dia e noite com aqueles pastores espalhafatosos que têm algo em comum com funkeiros e pagodeiros: gostam de som bem alto. 

Tem horóscopo que serve para certas classes: Os pais, pastores e ditadores têm o mesmo mapa astral: fanatismo, necessidade de dar conselhos a respeito de tudo. Autoritarismo sem limites. É moralista e está sempre com um plano para mudar a sociedade, mas não põe em prática seu plano. Só aceita a sua maneira de viver.

Meu mapa astral vai na jugular: “Signo do não perfeito, pois deixa as coisas para amanhã. Sente necessidade de poder e em momentos da vida faz papel de vítima (o pior é que cria energeticamente pessoas que lhe prejudicam). Dificuldade de dar forma aos seus sonhos. Escapista, irrealista, medo da realidade. Inércia em momentos onde o certo seria lutar, levantar a voz, se revoltar. Síndrome do gênio incompreendido. Falta de realismo (um dia... quando o mundo me compreender). Vem para esta vida para realizar o impossível”.

domingo, 3 de julho de 2011

Solidão no ar

Sinal de rádio prejudicado em Itabaiana

Os ouvintes de rádio em Itabaiana, Paraíba, reclamam da precariedade da recepção de sinal de rádio na região. Devido à sua posição geográfica, a cidade tem dificuldades em captar sinais de rádio, mas ultimamente a situação piorou, segundo informa José Dias, morador da localidade.

Independente das características específicas do relevo da região, a cidade sintonizava as rádios Tabajara da Paraíba (AM), Rádio Rural de Guarabira (AM), Rádio Princesa de Timbaúba (FM) e Rádio Campina Grande FM. Depois do advento da Rádio Itabaiana FM, do Sistema Correio de Comunicação, até a Rádio Comunitária Rainha, de alcance local, tem dificuldades de ser sintonizada em alguns locais da zona urbana.

Meu compadre Marcelo Geovanne deu um depoimento na Rádio Tabajara AM para o programa “Alô comunidade” e ficou frustrado: não conseguiu ouvir a programação no seu potente rádio. O compadre Gilberto Bastos, o homem da banda de um homem só, é taxativo: “rádio Tabajara AM tem audiência zero, a não ser no programa de Spencer Hartmann e quando retransmite jogos do futebol carioca pela Jovem Pan do Rio”. Acho que ele não tem completa razão. Pelo menos quatro ouvintes nos ligaram dos bairros de São José, Tambaú e Novais em João Pessoa, e outro de Cabedelo, dizendo que escutavam o programa. A solidão não é total. E pela internet já temos ouvintes cativos, no blog da Rádio Comunitária Zumbi dos Palmares. (www.radiozumbijp.blogspot.com)

O sinal da Tabajara está muito fraco na região e praticamente não existe em Itabaiana, onde as rádios AM deixaram de ser sintonizadas. As emissoras AM têm mais potencial no interior do Estado, mas não apresentam programas desenhados para a realidade dessas praças. A Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária está tentando viabilizar projeto que envolve muitas cidades do interior através da participação no programa Alô Comunidade, veiculado aos sábados (14h) na Tabajara AM. Mas a rádio só está pegando online, o que praticamente inviabiliza o objetivo de alcançar os ouvintes nessas regiões.

POEMA DE DOMINGO


ANTES QUE VENHA O DILÚVIO


Fábio Mozart

Há que se soltar o Touro
como um justiceiro forte,
que alague de sul a norte
com uma mijada.


Há que se fechar estrada,
fazer piquete na rua,
deixar a elite nua,
numa cilada.


Há que se apertar o laço
nessa gente sem-vergonha
sem mais demora.


Carece gritar ao mundo
nosso brado retumbante
logo agora.


É preciso arrebanhar
e trancafiar, deter
a camarilha.


Antes que o Touro brabo,
diante do descalabro
dessa quadrilha,


encha as medidas do T
com seu orgulho ferido,
numa explosão,


mande tudo pelos ares
com uma forte e concentrada
evacuação.

sábado, 2 de julho de 2011

OAB contra programas apelativos

Baixaria em programas de rádio e TV será combatida na Paraíba

Por: Juliana Lichacovski


Preocupados com a falta de respeito aos direitos humanos e à dignidade do cidadão em programas de rádio e TV veiculados no Estado, a Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Paraíba (OAB-PB), a Associação Paraibana de Imprensa (API) e o Sindicato dos Jornalistas darão início este semestre à campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”. Na segunda-feira, dia 4, as entidades devem se reunir na sede da OAB-PB para dar início à estruturação da campanha, que será lançada no dia 30 de julho, durante uma audiência na sede da OAB-PB. A ação tem o objetivo de conscientizar as empresas jornalísticas de seu papel social e as empresas patrocinadoras desses programas para a vinculação de sua marca ao incitamento ao crime, atentados aos direitos humanos de minorias, preconceito racial, homofobia, dentre outras violações aos direitos humanos e cidadania propagadas através dos programas. 

De acordo com o advogado, membro da Comissão do Fórum de Ética e Mídia da Paraíba e representante da OAB-PB, Alexandre Guedes, a partir do lançamento da campanha, será realizado um acompanhamento permanente da programação de rádios e TVs de todo o Estado. “Vamos publicar uma lista dos programas que incitam o preconceito, a apologia ao crime e não respeita a ética jornalista”, disse. O advogado informou que durante a campanha no Estado, a população também terá meios para denunciar todo e qualquer conteúdo de incitamento ao crime, o preconceito racial e a homofobia, bem como qualquer conteúdo que ataque as minorias, crianças e adolescentes.

Além disso, as entidades que estão à frente do movimento pretendem debater o tema com os anunciantes, que segundo Alexandre Guedes, são os maiores financiadores dos programas que desrespeitam a Constituição, a cidadania e os direitos humanos. Eles serão chamados pela Comissão do Fórum de Ética e Mídia da Paraíba para conscientização quanto ao exercício de sua responsabilidade social e cidadania junto à comunidade. “O trabalho da campanha é estratégico. É muito difícil retirar esses programas do ar por força da autorregulamentação, já que esses programas possuem alta audiência das classes C e D. Nosso objetivo, então, é trabalhar junto às empresas que financiam esses programas para que eles tomem a decisão de colocar um fim nisso, deixando de patrocinar esses programas, que não se sustentam sem seus anunciantes”, explicou o advogado. 

Para o coordenador do curso de Comunicação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Dinarte Bezerra, as empresas de comunicação também devem ser cobradas. “A notícia é uma mercadoria, então, também se deve enquadrar a empresa de Comunicação no Direito do Consumidor”, destacou. A presidente da Associação Paraibana de Imprensa (API), Marcela Sitônio, destacou, porém, que a campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania” não tem a intenção de ser contra o profissional de Comunicação à frente desse tipo de programação.

“Queremos melhorar a programação no Estado e fazer com que certos temas deixem de ser banalizados”, lembrou a presidente, destacando que após o lançamento da campanha, programada para o dia 30 de julho, uma Comissão, formada por representantes da OAB-PB, Associação Paraibana de Imprensa (API) e Sindicato dos Jornalistas, terá a incumbência de fiscalizar o conteúdo veiculado em rádios e TVs do Estado.

DENÚNCIAS
 A campanha ‘Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania’ nasceu em 2002,  fruto de deliberação da VII Conferência Nacional de Direitos Humanos e é uma iniciativa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. O espírito da decisão foi criar um instrumento que promovesse o respeito aos princípios éticos e os direitos humanos na televisão brasileira. A nível nacional, qualquer conteúdo pode ser denunciado através do número 0800-691-619. A ligação é gratuita.

Segundo o site www.eticanatv.com.br, em 2010 foram fundamentadas 217 denúncias em todo o país. No ranking dos mais denunciados estiveram o programa ‘Pânico na TV’ (Rede TV), ‘Brasil Urgente’ (Band TV), ‘Se liga Bocão’ (Rede TV), ‘A Fazenda’ (Rede Record) e o programa ‘Chumbo Grosso’ (Rede TV)

Heróis da resistência no ar


Da esquerda para a direita: Manoel Batista, Luiz Trindade, Genival Monteiro,  Marizete Vieira, a esposa do então deputado Avenzoar Arruda, o próprio parlamentar ao seu lado, Ricardo Locutor e o companheiro João Batista, do movimento de rádios comunitárias de Pernambuco, que veio dar uma força.

O Instituto Vladmir Herzog lançou a coletânea audiovisual Os Protagonistas dessa História. A obra é composta por 12 DVSs com depoimentos de 60 jornalistas que atuaram contra a Ditadura Militar nas décadas de 1960 e 1970.

A notícia lembra companheiros com quem tive a alegria de conviver e dividir o mesmo palco de luta pelo direito de expressão através das ondas do rádio. Acompanho, com emoção, a saga do companheiro Marcelo Ricardo, da Rádio Comunitária Diversidade do Jardim Veneza, que teve os equipamentos da sua emissora sequestrados pela Polícia Federal e responde a processo na Justiça Federal, pagando pena de multa pelo “crime” de dotar sua comunidade de um veículo de comunicação.

Ásperos vestígios da luta de Marcelo ainda atingem Juliana da Rádio Independente do Timbó, em João Pessoa, que também paga pela sua independência com processo judicial e multa pesada para uma comunidade mal provida de tudo, incluindo cidadania. A coragem de enfrentar essa luta é o atributo desses jovens, o que sempre os distingue não só como militantes de uma causa justa, mas como seres humanos cheios de intrepidez e de moral forte.

Quando for registrada a história dos comunicadores populares que atuaram contra a ditadura sob a qual ainda vivemos, os que rompem os protocolos da burocracia e o poder dos monopólios da mídia comercial, deve-se incluir o nome do meu companheiro Luiz Trindade, de Mari, fundador da Radio Comunitária Araçá, sujeito insubordinado que não se submete  a regras impostas pela ditadura do capitalismo e vai atrás do que é seu por direito. Por isso Luiz Trindade assumiu a luta pela reforma agrária no Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra e pela reforma agrária no ar, através das rádios comunitárias.

Na foto acima, registrei um ato público realizado em Mari, em frente à Rádio Comunitária Araçá, quando aquela emissora foi fechada pela primeira vez. Naqueles tempos de conflitos, década de 90, fazer rádio comunitária era uma experiência de alto risco, só compartilhada por homens e mulheres realmente interessados na democratização da comunicação radiofônica, sem picaretagem nem politicagem, interesses pessoais e troca de favores. Atiçávamos a besta da repressão com a espada da palavra, tendo como resposta a prisão, os processos, a perda dos equipamentos e os prejuízos pessoais. Ainda hoje, Marcelo Ricardo não pode fazer concurso público, por exemplo, porque tem a ficha suja nos arquivos da repressão.

Meu compadre e companheiro Luiz Trindade ainda continua em pleno vigor cívico? Não tive mais notícias de Trindade e suas lutas. O que sei é que a rádio comunitária por quem tanto ele e os demais lutamos não é a mesma. Digo isso com grande mal estar, assim como percebo que companheiros por quem tinha admiração se revelem medrosos, indignos de assumir suas posições, timoratos diante de qualquer intimidação de um chefezinho qualquer. Chegam até à repressão censória de suas próprias palavras.

Há algo de heróico na resistência de um Marcelo Ricardo. Ao resistir e assumir suas posições, ficou só, mas não deixa de sustentar suas verdades e seus objetivos de vida. A rádio Diversidade, combalida, ainda luta para garantir sua licença para funcionar, enquanto falha o apoio de quem deveria estar nessa fileira de luta.

Luiz Trindade, Marcelo Ricardo, Juliana e tantos outros desse naipe se apresentam como heróis da resistência. Os frouxos e oportunistas não estarão nos anais da História.