quinta-feira, 6 de maio de 2010

Deixem-nos no quartinho dos fundos

Daciano Alves de Lima foi um homem imprescindível em Itabaiana. Houve época em que Daciano era presidente de tudo em sua terra: da banda 1º de Maio, da União de Artistas e Operários, da escola de samba, do Clube Carnavalesco Taiobas, da Câmara de Vereadores, da rádio comunitária e do time de futebol. Era tão meritória sua vida em nossa província que mereceu reportagem de página inteira na revista “O Cruzeiro”, a maior publicação da América Latina naquele tempo. Famoso maestro compôs um dobrado em sua homenagem. O título: “Dobrado Presidente Daciano”.

Em memória do seleiro Daciano, mestre também na arte de trabalhar o couro, o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar tem a honra de trabalhar com seu neto, o violonista e compositor Vital Alves, um artista incomum. Como um rio crescente de artistas que se unem, ameaçando se tornar um Amazonas de criatividade, o Ponto de Cultura sofre por falta de um espaço digno para acomodar seu teatro, a biblioteca e o futuro museu de arte popular.

Ainda não se dimensionaram, corretamente, a importância de um Ponto de Cultura numa cidade como Itabaiana. Houve uma grande expectativa em torno do projeto do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Os agentes que trabalham nas mais diversas áreas da cultura seriam reconhecidos pelo governo e passariam a receber recursos para ampliar as atividades de acordo com suas conveniências: recuperar espaços físicos, contratar oficineiros, criar informativos. Mas isso não se comprovou na prática. A grana do Governo só pode ser empregada no pagamento de oficineiros e compra de equipamentos. Resultado: não temos onde morar.

Voltando ao mestre Daciano, foi ele quem criou a União dos Artistas e Operários de Itabaiana, pelo menos foi quem deu vida, estruturou e dirigiu por muitos anos. Com sua morte, aos poucos a União foi sendo abandonada, só restando os escombros de sua sede. A prefeita atual, dona Dida, recebeu o prédio por comodato, onde instalou um telecentro. Ficou a área dos fundos, onde bem poderíamos construir a sede do Ponto de Cultura. Vai daí nosso apelo à prefeita e ao Secretário de Cultura, Dr. Pedro: cedam o quartinho dos fundos para o “Cantiga de Ninar”, que o mestre Daciano certamente aprovaria tal gesto de favorecimento a um projeto tão meritório e determinante para nossa vida social e cultural.

Dom Quixote de Mari


Não há como negar: Mari é um dos municípios que mais investem em cultura na região do baixo Paraíba, além de Sapé e São José dos Ramos. Com um dado curioso: em Mari, o investimento vem a custo quase zerado para os entes públicos. Como se dá esse milagre? Pela fé e entusiasmo de um sujeito, emérito filho da terra do folclorista Adauto Paiva, que dedicou sua vida pela difusão e preservação da cultura popular.

Pouco importa que a insensibilidade de alguns não permita o investimento em cultura como seria razoável. Raros são os gestores públicos que compreendem o efeito das ações culturais na imagem de uma comunidade e a respectiva contrapartida em desenvolvimento. Mari, pelos seus artistas e produtores culturais, constrói sua fortaleza de proteção aos bens imateriais e faz com que as novas gerações consumam produtos culturais de qualidade. Sob o amparo do galego da cultura, Neneu Batista, nomeado diretor de Cultura do Município.

Ele não fez como muitos, que pegam o cargo apenas para garantir seu salário. Ganhando pouco e sem quase nenhuma grana para seus projetos, Neneu Batista usa a imaginação, o poder de aglutinar as pessoas em torno de ideias comuns e o amor pela cultura de sua gente para promover cinema, teatro, artesanato, artistas e expressões culturais do povo em inúmeros projetos em benefício do seu centro do universo, que é Mari.

Para ser honesto, tenho também na maior consideração o poeta Antonio Costta, subsecretário de Cultura de Itabaiana, mas este já trabalha com mais autonomia, tem panos pras mangas, como se diz. Graças a ele e a mais alguns perseverantes sujeitos na terra de Zé da Luz, a cultura do lugar ainda não sumiu na voragem do engodo institucional e da irresponsabilidade de quem tem o dever de zelar pelo que é nosso, notadamente o bem maior de uma comunidade, que é sua própria cultura.
Neneu Batista é assim uma espécie de Dom Quixote a acreditar na vitória dos bons contra interesses mesquinhos e mercenários que vêm acabando com nossas tradições culturais mais nobres. Foi graças ao seu empenho que tivemos aprovado o Ponto de Cultura Ligas da Cultura, do assentamento Tiradentes. Mergulhado na ciranda burocrática, o pessoal do “Tiradentes” jamais seria vitorioso na conquista desse importante equipamento de fomento cultural sem o auxílio do Neneu.

Sem comodismo, o galego Neneu Batista segue batalhando pela cultura de sua terra. Sempre na esperança de que a comunidade saia da letargia e os poderes públicos despertem para a necessidade da proteção e difusão da cultura e arte. Nas pequenas ações cotidianas junto ao chamado Terceiro Setor, a Diretoria de Cultura de Mari vem dando conta do recado. É assim que se constrói política pública cultural, com humildade, ouvindo as pessoas. Osvald de Andrade, na “Marcha das utopias”, disse que “no fundo de cada utopia não há somente um sonho, há também um protesto." A luta de pessoas iguais a Neneu Batista é uma forma de indignação pela indiferença dos que poderiam fazer muito pela preservação do conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos e costumes do povo e nada fazem de concreto.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Romualdo Palhano finaliza obra sobre o teatro em Itabaiana


O Doutor Romualdo Palhano está finalizando o livro "O Teatro em Itabaiana - Da União Dramática ao GETI". Para quem não sabe, o GETI é o Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana, que fez história na arte cênica a partir da década de 70 nessa cidade. Ele pede os originais das peças que encenamos nesses mais de trinta anos de atividades do grupo teatral para incluir na obra. Romualdo fala do grupo amador e suas peripécias até 2008 e pede a quem possuir fotos ou qualquer material sobre o tema para colaborar com esse apanhado histórico, enviando para seu e-mail: palhanojp@gmail.com

No dia 27 de junho vamos receber nosso amigo Romualdo Palhano, que chega de Roraima onde reside atualmente, ensinando na Universidade Federal de lá. Ele me pede para prefaciar sua obra sobre nosso grupo teatral, julgando-me um privilegiado porque testemunhei todas as fases do grupo, como um dos fundadores e principal dramaturgo. Vou fazer então um breve histórico do GETI e dos seus principais componentes.
Considero Romualdo um mestre supremo do teatro na Paraíba. Poucos pesquisaram tanto e dominam o assunto como o nosso dramaturgo. Fez doutorado em Cuba, sempre enraizado na temática do teatro paraibano, até chegar aqui na sua Itabaiana querida, terra onde aprendeu a compreender os refinadíssimos códigos do fazer teatral, no mesmo Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana que agora expõe em livro. Descobriu que Itabaiana já fazia teatro no final do século dezenove, na Rua Treze de Maio, onde funcionava um teatro com o nome de “União Dramática Itabaianense”. Será uma obra de fôlego, como se diz. O livro será utilíssimo para atores, críticos de teatro, encenadores, autores, professores e alunos. E na estante do itabaianense, não poderá faltar.

Tinha a idade de 20 anos quando fundei o GETI. Romualdo é mais novo uma coisinha. Na máquina do tempo onde viajamos em direção ao futuro, o tempo saltou de repente e nos vemos hoje maduros, com uma espécie de responsabilidade moral de contar nossa história para as gerações que virão. Não como valorização de nossos méritos, que isso é coisa vã. Não devemos ter a presunção de sermos notabilizados pelos feitos. Só a tenacidade e abnegação de alguns é que merece realce nesses mais de 30 anos. Hoje, outros jovens empunham a mesma bandeira da cultura e da arte. É para eles que Romualdo conta nossa história, não para servirmos de modelo, mas no intuito de valorizar o que fazem, porque tem substância e marcou um período histórico.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Diálogo improvável


─ Você não tinha morrido?

─ Ah! Mas isso foi há muito tempo... Não há morte. A vida é contínua, ilimitada, eterna.

─ "Viver acaba nos fazendo morrer", bem disse o ator Paulo José. Considero a frase irretocável.

─ O destino ordenou que eu viesse lhe ver.

─ Pois é... Estamos todos velhos. Você, por exemplo, só não assistiu ao dilúvio porque não foi convidado, mas ainda pisou na lama.

─ Gracioso! Você, sempre de uma estupidez congênita. E onde anda Jacira?

─ Jacira, tão presente na minha saudade. Só tenho este retrato dela.

─ “O retrato é apenas uma mentira que as pessoas emolduram de verdade, com medo da velhice”.

─ Mas como vai você?

─ Eu vou às vezes bem, às vezes mal, conforme a lua. E você?

─ Continuo como fiel depositário das dores do mundo.

─ Verdade...

─ “O que é a verdade?”, perguntou Cristo a Pilatos.

─ Mas, Jacira? Tenho sonhos recorrentes com ela. Sonhos eróticos.

─ Sempre soube que ela foi sua amante.

─ Desejei-a muito, mas nunca adulterei com ela.

─ Quem olha uma mulher para desejá-la, já adulterou com ela em seu coração.

─ Fala como um pastor tradicionalista. Se não há um homem que não tenha olhado para uma mulher para desejá-la, então somos todos violadores da fidelidade conjugal. Penso que se desejo uma mulher, recai sobre mim o mesmo delito de a ter possuído.

─ É lógico. Assim, podemos todos nos entregar sem medo do inferno aos prazeres do sexo.

─ Reúna suas mais distantes lembranças para imaginar esses prazeres. É o que nos resta...

─ Jacira. Era uma mulher e tanto. Apenas um pouco insolente. A petulância daquela mulher lhe trouxe a antipatia de todos, menos a sua.

─ Gosto das mulheres prepotentes.

─ Acho que você a amava.

─ O amor, como a medicina, é tão somente a arte de ajudar a natureza. Não foi o nosso caso.

─ Um ciclo foi cumprido. Eu sou inferior a ela hierarquicamente na escala da humanidade.

─ O grande canalha Arnaldo Jabor garante que o amor “é uma bobagem inventada pelos poetas provençais do século XIII e traduzida pelos irmãos Campos”. Antes não havia amor, só sacanagem e sólidas amizades.

─ Isso é como sífilis: quando você acha que já foi embora, a coisa volta.

─ O amor é um barato que já foi legal, mas está superado. Há outros esportes mais modernos. Isso também é do Jabor.

─ Amigo, como desabou seu gosto literário!

─ Você nem sabe, mas sou autor de notáveis proezas sexagenárias! Tenho uma amante mais ou menos estável.

─ Vou considerar como verdade o que diz. A verdade tem muitos nomes e atende a quem chamar mais forte. No seu caso, a capacidade de evocar imagens do passado é admirável. E muito robusta.

─ Ironias à parte, pra aumentar meu cacife literário, cito Maciel Melo: “Não sei se morrendo vivo, mas sei que vivendo morro.”

─ Onde mora atualmente? Saiu do seu lugar naquele subúrbio?

─ Aquele lugar é muito grande, só cabe em mim. Meu universo pessoal. Foi lá onde conheci Jacira. Onde eu estiver, terei sempre meu universo, que independe do geral.

─ Eu moro entre flores, no campo santo. Gosto daqui. Não lhe dou meu endereço para evitar a aflição de esperar cartas.

─ Mas como é que é? Você já foi ou ainda é?

─ Tenho uma timidez que vai comigo ao túmulo. Nunca me declarei a ela. Hoje eu navego por instrumentos. O céu está nublado, acho que vai chover.

─ Acredito hoje nos fantasmas que me habitam. Vou embora, então. E levo o inabalável propósito de nunca mais voltar.

─ É uma coisa capaz de me enternecer: a prosódia dos mortos. Você fala bem. Eu vou gastando o meu latim para explicar a Jacira que estou falto de vida, mas pleno da arte de excitar as almas.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Um autêntico filho da puta


Conheci um autêntico filho da puta. Acompanhem a narrativa do sacana:
”Fui a uma loja hoje de manhã e estive lá por uns 5 minutos.

Quando eu saí, vi um amarelinho (cor de merda), com sua motocicleta, todo prepotente (eles se sentem 'otoridade'), preenchendo uma multa. Corri até ele e soltei o famoso:

-Espera aí, amigão, não faz isso não, dá uma chance!

Ele me ignorou e continuou escrevendo a multa.

Então eu o chamei de babaca metido a polícia!

Ele me olhou e, sem dizer nada, deu uma olhada em um dos pneus do carro e começou a fazer outra multa.

Então eu falei:

-Que merdinha de profissão a sua, heim?

Ele começou a escrever uma terceira multa!

Foram mais uns 5 minutos ali fora, discutindo ou tentando discutir. E quanto mais eu xingava, mais multas ele preenchia.

Depois que eu vi que aquilo não iria resolver, saí dali e fui pegar o meu carro no estacionamento, na outra quadra, e fui embora.

O importante mesmo é ter tentado ajudar!

Faça isso sempre que possível. Você sentirá a alma lavada”.

(Piada gentilmente repassada pelo compadre Maciel Caju, outro filho da puta)

domingo, 2 de maio de 2010

Obscenidades


Estou escrevendo uma novela apresentando uma recatada dona-de-casa que recebe regularmente misteriosas cartas obscenas. O “perseguidor” acaba por transformar a vidinha pacata dessa mulher. Ela guarda as cartas numa gaveta da escrivaninha, onde o marido as encontra.

As memórias dessa mulher, descritas pelo Leão, estão em um documento reservado, que não sou depravado ao ponto de deixar exposto na blogosfera um material que aborda o amor sexual em toda sua profundidade e complexidade. O material não pode ser considerado contrário ao pudor. É uma obra de arte. Mas num país sem cultura e cheio de tarados, melhor será disponibilizá-lo aos adultos que desejarem ler. Só precisam enviar mensagem para nosso blog, que remeteremos eletronicamente os capítulos da novela.

Dinamizando esses contatos, dou-me o direito de introduzi-los no enredo dessa produção literária. Por exemplo, recebendo uma solicitação do meu estimado amigo poeta Maciel Caju para anexar seu nome aos felizardos e especiais leitores da novela secreta, posso muito bem incluí-lo em uma das fantasias do homem ou da mulher, personagens da narrativa. Como não vou me dar ao trabalho de solicitar autorização para usar o bom nome dos meus eventuais leitores, certamente terei que responder a diversos processos na Justiça, assunto que considero de irrelevante importância. Penso cá com meus botões da algibeira que esses incidentes processuais serão muito úteis futuramente, para alavancar uma provável edição impressa da novela. Quem entende de marketing sabe do que estou falando. Imagine essa chamada: “Leia o livro que já foi processado 20 vezes antes mesmo de ser publicado”. Isso sim é que é safadeza, diria meu compadre Erasmo Souto, ele mesmo um autor de obras descaradas, mas dessas devassidões ingênuas, de matutos. A minha não, é coisa fina, erotismo requintado, extremoso e chegado ao psicológico.

Minha novela é uma espécie de “As relações perigosas” versão cabocla. Uma coletânea de cartas refratárias a todas as convenções e moralidades. Se tem arte na novela? Não posso dizer que seja uma obra prima de abordagem do erotismo, nem aposto na sua originalidade. A ousadia está na transgressão baseada no desejo impedido de encontrar sua satisfação. Minhas personagens trafegam nos limites do possível e do impossível. Interessados?

sábado, 1 de maio de 2010

1º DE MAIO E ALIENAÇÃO


Com o pretexto de assinalar o dia do trabalho, quero aqui denunciar a exploração a que são submetidas as pessoas adeptas dessas igrejas “de resultado”, seitas alienantes que fazem uma lavagem cerebral no sujeito e o obrigam a trabalhar de graça, sob pressão psicológica e tortura mental.

As vítimas são geralmente depressivas e de baixo nível intelectual e social. São obrigados a trabalhar nas igrejas “pela obra do Senhor”. Esses pobres terminam por serem excluídos do convívio social e até da família. Muitos apresentam problemas psicológicos sérios.

Os tais pastores, missionários, bispos et caterva não pagam impostos e ganham muito dinheiro fanatizando a população carente. Será que o Ministério do Trabalho fiscaliza esses ambientes “santos”? Onde abrem um templo de fanáticos seguidores da doutrina neopentecostal, desaparece o passado cultural da comunidade convertida.
No Brasil, as pessoas adoram viver em ilusão, taí o sucesso das novelas. Tudo bem que se venda ilusão, com as facilidades legais que existem, mas exploração da força de trabalho é outra coisa. Deveria ser combatido.

Quanto ao 1º de Maio propriamente dito, lembro aqui uma frase do Luiz Marinho, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, de onde saiu Lula: “A Força Sindical é correia de transmissão do governo Fernando Henrique”. Isso ele disse em 2001. E agora, a CUT é o que mesmo?