quinta-feira, 2 de julho de 2009

Aprendendo a "ler" Itabaiana

Um dia Carlos Drumond de Andrade, numa carta pessoal, disse de certos bolinhos de polvilho que ele nunca comeria, que seu gosto ia ficar para sempre em sua boca, “com o gosto das coisas não vividas, mas imaginadas.” Foi a sensação que experimentei ao ler num só fôlego, como se diz, o livro de Edna Paiva, ITABAIANA DOS MEUS TEMPOS. Em 1970, eu tinha 15 anos e morava na Rua Meira de Vasconcelos, mais conhecida como Rua da Merda, onde anos depois fundei o único teatro que Itabaiana jamais conheceu, o Teatro Nautília Mendonça, junto com o amigo Marcos Veloso. Conheci muitas das figuras que desfilam pelo livro de Edna, elas como que tecendo um pouco da história social e política da terra de Sivuca. Para quem viveu aqueles tempos, a leitura das reminiscências de Edna é como uma viagem sem movimento por um momento em que o tempo ficou em suspenso.

O poeta russo Ievtchenko disse certa vez que o que interessa num artista não é sua vida, e sim sua obra. No caso de Edna, sua vida é sua obra; seu livro é um abecedário de como, onde e com quem sua vida aconteceu em Itabaiana, onde ela foi feliz, certamente. Sua nominata de personagens é um verdadeiro tesouro que nos ajuda a delinear um perfil, para uma compreensão mais aberta do que foi, principalmente, nossa high society dos tempos idos e vividos.

É um livro que todo itabaianense de minha geração terá prazer em devorar. E Edna nem precisou caprichar no estilo, porque, só citando os nomes dos nossos conterrâneos, ela deixa que Itabaiana nos fale, nos passe sua mensagem enquanto espaço, sons, movimento... Sua fala é sutil. Capaz de gerar sentidos, porque fala à nossa percepção, sensação e saudade até do que não se viveu.

A cidade é considerada pela Semiótica como lugar de manifestação do sensível. O livro de Edna funciona como uma chave para se “ler” a cidade, na apreensão codificadora do sensível. ITABAIANA DOS MEUS TEMPOS está insuflada de vida, essência de jogos entre o tempo preciso dos relógios e o tempo relativo da memória e do esquecimento. Invisível como um deus aos olhos dos mortais, o tempo concede aos memorialistas a graça de recriá-lo de acordo com o seu olhar sobre o seu mundo. Mestres ou amadores, os que escrevem sobre o passado comungam do momento mágico quando lançam seu olhar particularíssimo sobre o pretérito, detendo de certa forma a inexorável dissolução do universo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A paixão segundo Biu Penca Preta

Nos meus tempos de teatrista amador, nunca gostei de encenar a paixão de Cristo e teatro infantil. O primeiro porque lembro do ridículo das encenações nos circos mambembes de minha época em Timbaúba e Itabaiana. Paixão de Cristo, para mim, tem que ser uma super produção. Na versão amadora, vira inevitavelmente comédia. E teatro infantil sempre achei chato. Um bando de marmanjos com cara de imbecis, querendo que a platéia seja um magote de pequenos débeis mentais. Criança é inteligente mais do que se imagina, e texto infantil de qualidade é coisa rara.

Tentei dirigir duas versões da paixão, uma em Itabaiana e outra experiência frustrante em Mari. Na velha Itabaiana, final dos anos 70, escrevi um roteiro chamado “Auto da Paixão” para ser encenado na rua, durante a Via Crucis, no tablado de um velho caminhão. Para começar, perdemos o apoio da própria Igreja, porque o padre achou um sacrilégio o costume dos atores enfiarem piolas de cigarro nas bocas dos santos da Igreja Matriz, onde começamos os ensaios.

Os atores não colaboravam. Um tal Enoque, sujeito meio burro que fazia o papel de Judas, sempre beijava o homem errado na cena do beijo traiçoeiro. Além de problemas ligados ao consumo de álcool e outras substâncias químicas por parte do elenco, a encenação funcionou mal por causa de Biu Penca Preta, escalado para ser um soldado romano. Incorporado no personagem, Biu baixou a lenha com gosto no lombo de Jesus, que vinha a ser o vigilante Rossi. Esse mártir levou tantas chibatadas que não aguentou:

--- Biu, bate devagar que ta doendo!

E Biu, sem querer acordo:

--- Comigo é pra se lascar!

Depois fomos apresentar o “drama” no palco do Cine Ideal. Na penúltima cena, da crucificação, fecham-se as cortinas para se arrumar a cena seguinte. Jesus crucificado implorou por um trago de cigarro que lhe foi posto na boca. O cigarro ateou fogo na barba postiça. Quando abriram as cortinas, a platéia não entendeu a cena insólita de soldados e apóstolos tentando apagar o incêndio na barba do suplicante com a água da bacia de Pilatos. Sem falar no pano que cobria as “partes pudendas” do crucificado ameaçando cair a qualquer instante, com Nossa Senhora tendo que segurar as ceroulas do Homem o tempo todo.

Em Mari, a encenação também foi na rua. O espetáculo muito organizado, mas teve uma cena que nos fugiu ao controle por causa do jumentinho que trazia Jesus, incorporado pelo meu amigo professor Marsílvio. De repente, o burrinho cismou com a multidão e saiu em marcha de perseguir fêmea no cio, dispersando os espectadores e mudando os rumos da História sagrada, já que Jesus foi derrubado do seu lombo, causando grande atribulação para a troupe e gargalhada geral na platéia.

Após muitos afagos e mimos de capim, o jumento voltou ao seu papel na cena, mas nada correu como se planejou, porque a turma do “quanto pior melhor” ficou torcendo para que o burrinho saísse de novo em disparada e Jesus, pálido em cima do pouco devoto animal, rezando para não ser novamente desfeitado. Por essas e outras deixei de levar a paixão de Cristo com grupos amadores.

Ética dos excluídos

Uma certa matrona de Mari, que se diz educadora, useira e vezeira dos modos da nossa burguesia corrupta de 500 anos, disse certa vez em meu programa de rádio que "todos roubam, uns mais, outros menos, mas o roubo é lugar comum na sociedade brasileira". E assim parece ser o caráter do brasileiro classe média/merda, aquele que tem como princípio a lei de Gerson: levar vantagem em tudo. Mas nem só de ratos burgueses se faz o cotidiano da nossa sociedade desigual e safada. Tem ladrão que nunca se enquadra na lógica perversa do capitalismo dito selvagem; tem, ainda, ladrões românticos, os que roubam para dar aos pobres, o que "rouba, mas faz", o traficante do morro que protege a comunidade pobre e desamparada pelo Estado. No Brasil que exibe uma das piores taxas de concentração de riqueza e desigualdade do mundo, neste navio negreiro Brasil, a gente trata os do submundo com a brutalidade de sempre, mas eles, os chamados excluídos, às vezes, são capazes de ações comoventes. Daí, a gente que já se acostumou, em silêncio, a admitir sem indignação as humilhações desumanas dos pobres nos hospitais, a impunidade assegurada aos ricos, a discriminação contra as minorias, nós que já achamos natural o massacre imposto aos mais humildes pela política cada vez mais excludente dos governos no Brasil, de vez em quando, a gente sente vontade de tomar vergonha na cara e deixar de ser pernicioso, e olhar melhor para esse país e seu povo.

Tudo isso pra dizer que, um belo dia roubaram o gravador da Rádio Comunitária Araçá FM, de Mari, o nosso aparelhozinho que serve para as entrevistas de campo. O ladrão roubou o gravador do carro de um amigo, em um bairro "barra pesada". Eu fiz um apelo no meu programa diário, tratei o ladrão por Vossa Excelência, argumentei que o gravador pertencia à comunidade, como toda a rádio, e que, se ele fizesse o favor de devolver o aparelho, todos ficaríamos gratos pela gentileza. Quando saí do estúdio, um rapaz de aspecto "suspeito" esperava-me para devolver o gravador, pedir desculpas e sustentar que, se soubesse que era da rádio comunitária, não o teria roubado. Esse ato serviu como uma lição de ética, mas uma ética diferente, em confronto com a moral acanalhada burguesa. Com a palavra o filósofo inglês Bertrand Russel: "O liberalismo acha perfeitamente natural o patrão dizer ao empregado: 'morrerás à míngua'. Mas não concorda se o subordinado responder: 'morrerás antes à bala!'". Os sem terra famintos promovem saques e a gente se horroriza, o governo rouba milhões de pobres aposentados e a gente fica indiferente.

O ladrão que devolveu o gravador da rádio popular ainda acredita que os de sua classe podem ter voz algum dia, e a rádio popular pode ser esse canal. Por isso, ele sorri ao afirmar, meio envergonhado, que ouve a rádio todos os dias. Ele ainda sorri, mas qualquer dia vai começar a ranger os dentes. A rádio comunitária, como obra em aberto que é, pode ser - e de fato tem sido - o referencial de uma revolução silenciosa (nem tanto!) que os sem comunicação estão fazendo neste país, e que por sua natureza, vai além da comunicação pura e simples. Trata-se de construir e desconstruir discursos ideológicos e políticos. A verdadeira rádio comunitária está em permanente estado de construção/desconstrução no cotidiano social. Um dia os tubarões das rádios e TVs comerciais nos chamaram de "rádios piratas". Nós respondemos, taxativamente, que piratas são eles que correm atrás do ouro. Corremos, isso sim, atrás desse relacionamento, dessas trocas culturais, abrangendo a afetividade, o imaginário popular, o novo saber e sentir comunitário, que faz um ladrão devolver o produto do roubo, porque, de um jeito ou de outro, ele tem certa consciência de que a rádio comunitária é uma apropriação coletiva dos instrumentos da comunicação mediática. São as classes subalternas em luta pela superação do conflito entre a subalternidade e o poder conservador hegemônico da sociedade.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Crise no jornalismo matuto

Ao chegar na rodoviária de Itabaiana, sou abordado por Lourenço jornaleiro, perguntando pelo “Tribuna do Vale”, nosso mensário que circula há seis anos na região do vale do Paraíba. Os assinantes reclamam que suas assinaturas não foram renovadas. Nos últimos meses não receberam as edições do jornal. É a crise! Só se fala nisso no Brasil. Essa tal de crise vem sendo desculpa para muito incompetente.

Em tempos de dificuldades, as empresas precisam redobrar os esforços para cumprir o que prometeram aos clientes. Isso nós fizemos. Publicamos o jornal e entregamos na casa de cada assinante até o último mês do contrato, mesmo assumindo prejuízo financeiro. Agora, vamos esperar passar o tempo de vacas magras para voltar.

Neste ano de 2009, o jornal TRIBUNA DO VALE completa seis anos de circulação no Vale do Paraíba, com algumas interrupções. O jornal, como bem cultural, tem a propriedade de fixar a vida que passa. Daqui a cem anos, os pesquisadores estarão se debruçando sobre as coleções do TRIBUNA DO VALE, pois um jornal centenário oferece uma oportunidade singular em termos de registros históricos, documentando a vida em suas tristezas, emoções e sobretudo relatando com responsabilidade e respeito, como é nosso caso, os fatos ocorridos.

Enquanto não comemoramos nosso centenário, vamos fazendo história, e nos credenciando perante nossos leitores. Na edição de janeiro de 2003, quando registramos o episódio da invasão da redação deste jornal pela Polícia Federal, e a prisão dos seus redatores, escrevi que o TRIBUNA DO VALE comemorava o primeiro ano de existência em Itabaiana e cidades circunvizinhas, ostentando a fama de se antecipar e abrir caminhos em vários aspectos, nessa seara do jornalismo matuto. Somos pioneiros, em Itabaiana, no formato tablóide francês. Que se saiba, em Itabaiana jamais circulou um periódico com esse formato. Depois, a TRIBUNA também é pioneira na rede mundial de computadores, sendo o primeiro jornal da região a ter sua edição on line, na Internet. (Atualmente estamos com nossa página fora do ar). No aspecto de gênero, somos o primeiro periódico itabaianense a ser dirigido por uma mulher, o que nos coloca com muito orgulho na vanguarda social, pois atualmente as mulheres avançam, com sua capacidade e sensibilidade, no comando das ações que exigem disciplina, tenacidade e sentimento. Ponto para a jornalista e radialista Clévia Paz, nossa estimada amiga.

Fazer jornal no interior é uma missão de vida, antes de ser um empreendimento comercial. Somos o primeiro jornal sediado em Itabaiana a circular em 12 cidades da região. Nessas comunidades, a TRIBUNA DO VALE já se consolidou como um veículo de debate das questões que interessam ao povo e aos seus governantes, com respeito e competência.

Sobre o episódio da invasão de nossa redação pela Polícia Federal, 14 dias após a posse do presidente Lula, registramos nosso orgulho por mais esse pioneirismo. Fomos presos, eu e o compadre Marcos Veloso, acusados de incentivar a livre manifestação do pensamento, através de uma emissora comunitária de baixa potência. Esse fato ficou registrado no rol das lutas libertárias de Itabaiana, onde o Brasil aprendeu as primeiras lições de liberdade, ainda no período colonial. Sem querer ser heróis de nada, nós, que fomos detidos por abrigar projetos de livre expressão, sofrendo a repressão política do governo do PT, aparecendo na mídia nacional como os primeiros presos políticos da era Lula, hoje vemos o Brasil ser denunciado na Organização dos Estados Americanos por conta da violência praticada contra as rádios comunitárias. Por não se tratar de um delito, como afirmou o Juiz Emiliano Zapata, ao absolver os redatores da TRIBUNA DO VALE, não é um crime de repressão. Muitos juízes brasileiros não consideram crime o funcionamento de rádios comunitárias sem licença, pois o Estado é omisso, ao não dar resposta aos pedidos de concessão de canal.

Mas isso é outra história. Hoje queremos apenas comemorar a sobrevivência, por seis anos, desse pioneiro projeto de comunicação, agora com mais um registro histórico: somos o primeiro jornal de Itabaiana impresso em policromia, em edições com 10 páginas. A Tribuna vai retornar porque é um projeto de vida, antes de ser um empreendimento.

sábado, 27 de junho de 2009

Briga de Galo em Mari

A inspiração para esta croniqueta me veio após leitura de um livrinho que remete a lembranças da velha Pilar e da encantada cidade de Mari. O livro tem por título “Pilar”, de José Augusto de Brito, filho de seu Augusto e de dona Mocinha, sujeito que, igual a mim, dedicou sua vida a trazer ao conhecimento “de meia dúzia de abnegados que me leem, a vivência, os tipos característicos, as belezas imorredouras e fatos alegres e tristes” da querida terrinha. No livro, José Augusto insere uma crônica falando de sua vida profissional “na difícil e antipática missão de cobrador de impostos”.

Começou em Princesa Isabel, nos confins do sertão paraibano, e foi parar em Sapé, onde reinava um coletor duro na queda, o itabaianense Roderico Borges, vigilante vinte e quatro horas na tarefa de cobrar os impostos devidos ao Estado. Na volta de Roderico, a coletoria teria que duplicar a arrecadação.

Pois o nosso José Augusto foi mandado por Roderico à cidade de Mari, para fazer uma devassa, substituindo o coletor João de Barros que só pensava em briga de galos, esquecendo o dever de cobrar impostos. Só que José Augusto, de tanto se envolver com galistas, virou também um aficionado desse esporte, tendo prazer em ver os galos se despedaçando em uma arena. Em vez de se preocupar com os talões e notas fiscais, com a repressão aos sonegadores, o homem estava se tornando mesmo um especialista em esporões, bicos e todo o ritual das brigas de galo.
Na cidade de Pedro Tomé, a sonegação andava solta, mas o coletor era juiz de briga de galo, e dos bons! Quase todos os habitantes da cidade eram galistas, menos o padre e mais meia dúzia de sujeitos esquisitos. “Só se falava em rinha e aposta. O coletor, só ele, possuía mais de cem galos de briga”, constatou Augusto.

Como a renda caiu, Roderico Borges resolveu fazer uma visita de surpresa à coletoria de Mari. Chegou no dia da feira e encontrou a coletoria fechada. Procurando saber do paradeiro do coletor, um cabra o levou a um galpão onde já estavam galos que cocoricavam, homens que palestravam e criadores dos bichos. Logo depois começaram os risos, insultos, gritos, cochichos, gargalhadas e papos de galistas, sopesando galos num clima de véspera de luta. E nada do coletor José Augusto!
De repente, escolhidos os dois galos para a primeira luta, as pessoas que se espremiam deram lugar para passar um homem de ar solene, suor escorrendo pela face. Chegou perto da rinha e ficou observando os galos inquietos, elegantes e rijos, cocoricando. O homem sisudo pegou nos galos, examinando-os. Apalpou, sentiu a rigidez dos músculos, observou as asas, as pernas o pescoço, o peito. Examinados os esporões e tudo o mais para ver se havia alguma fraude, deu-se a ordem para o início do combate. Foi aí que Roderico Borges saltou da arquibancada e gritou:

--- Aposto dez no galo preto e cem como o juiz está removido da Coletoria de Mari!

Olga Benário, Graciliano e outros heróis

Desconfio que a interlocução de diversas vozes que estão interferindo, de formas diversas, no processo de averiguação dos fatos relacionados com Leonilla Almeida, terminará na produção final de um livro, como pede nosso ilustre Maciel Caju, um dos que acham que o tema merece ser estudado com rigor em sua amplitude histórica. Várias sugestões de redirecionamentos da pesquisa de Arlen Cezar Tavares de Oliveira já apareceram, ele que é sobrinho-neto da heroína de Campo Grande (Itabaiana-PB), essa mulher de imensa coragem pessoal e firmes convicções ideológicas que esteve presa na Ilha Grande, juntamente com Graciliano Ramos e Olga Benário Prestes.

Assinalo neste artigo a última correspondência que recebi de Arlen Cezar que, com sua curiosidade intelectual e o desejo de desvendar as origens de sua família, traz a lume novas e oportunas informações. Fala, sobretudo, da existência de um filho de Leonilla Almeida, que viveria na cidade de Caxias, por nome Epiphanio, o qual foi nascido na prisão da Ilha Grande. Outra informação diz respeito à fuga de Leonilla de Campo Grande, na década de 20, com a ajuda de sua irmã Amélia, que vem a ser avó do nosso estimado amigo Fred Borges, colunista social do TRIBUNA DO VALE. Quando seu pai Antonio Félix Cardoso estava prestes a morrer, em 1942, Leonilla voltou a Campo Grande para pedir perdão, negado pelo patriarca que nunca entenderia os diferentes caminhos e o estilo de vida, bem como a visão de mundo daquela mulher avançada para sua época.

Arlen destaca também as citações do grande Graciliano Ramos com referência a Leonilla Almeida e seu esposo, na obra “Memórias do Cárcere”. É assim que, na página 127 deste livro, Graciliano descreve nossa Leonilla: “A certeza de que estavam ali os revoltosos de Natal acirrou-me a curiosidade, embora não me arriscasse a pedir informações ao desconhecido cauteloso. Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonilla e era casada com Epifânio Guilhermino”.
Quanto ao esposo de Leonilla, o escritor alagoano assim o expõe: “Epifânio Guilhermino, terrivelmente sério, falava baixo e rápido, sublinhando com movimentos de cabeça afirmações categóricas, sem pestanejar. Ferido em combate, ficara meses entre a vida e a morte; uma bala o atravessara, deixando-lhe duas cicatrizes medonhas, uma na barriga, outra nas costas. Livrara-se por isso do espancamento. E restabelecido, até gordo, ali se achava, em companhia da mulher, apanhada a mexer num fuzil-metralhadora”. Trata-se de um olhar específico de uma pessoa que se destacou no mundo literário brasileiro como dono de um estilo seco e direto. Graciliano diria, em carta à irmã Marília Ramos: “Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso não há nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos”.

Outros olhares podem ver como eram tratados os homens e mulheres partidários de renovações políticas e sociais, que ousavam desafiar o sistema. A tortura era lugar comum. Na obra de Graciliano identificamos a coragem de heróis do porte de Epifânio e Leonilla, que deixaram sua marca no trabalho literário do escritor alagoano, cujo enfoque está direcionado para a natureza humana dos que conviveram com ele na Ilha Grande, durante o terror do Estado Novo de Getúlio Vargas.

Em outro trecho de “Memórias do Cárcere”, o escritor menciona a “Sala 4”, local de prisão de Leonilla e outra figura feminina notável, Olga Benário Prestes, mulher do comandante revolucionário Luiz Carlos Prestes, entre outras como Eneida, Elisa Berger, Cármen Ghioldi, Maria Werneck, Maria Joana e Rosa Meireles, descritas assim por Graciliano: “Leonilla e Maria Joana foram recolhidas à sala 4. Do terraço, no banho de sol, vi-as lá embaixo, num pátio, em companhia das outras mulheres. Eram dez ou doze, formavam círculo e faziam exercício atirando uma à outra, a desenferrujar os braços, uma bola de borracha”. Assim segue o mestre de Alagoas, contando os detalhes daquela experiência traumatizante nos porões da ditadura, que reuniu elementos tão díspares no aspecto social, e tão parecidos no compromisso moral e político de sofrer as dores do mundo.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

João Dantas, o tribuno do povo

A Geração itabaianense da década de 50 certamente conheceu o mestre Daciano Alves de Lima no apogeu de suas atividades artísticas, culturais e políticas. Foi um homem que, com esse passado e categoria, bem merece dar nome a uma rua importante da velha terra de Zé da Luz. Esclarecendo que Daciano foi amigo e cunhado de Zé da Luz e, por seu intermédio, a obra do grande vate matuto ganhou o mundo. Abrindo ainda outro parêntese para anunciar, com orgulho, que Zé da Luz está entre os 100 maiores poetas brasileiros do Século XX, na opinião dos mais renomados intelectuais do país.

Mas voltemos à Itabaiana da era de 50 a 60, com um grupo de intelectuais, artistas e operários fundando a União dos Artistas e Operários de Itabaiana, sob o comando de Daciano, Neco Frizo e outros baluartes, entre eles um alfaiate de nome João Dantas que, semi-analfabeto, era um tribuno inflamado, para deleite e atratividade de tudo quanto era inauguração, comício, reunião e velório. Sua voz de tonalidade arrebatada encantava os conterrâneos e empolgava a juventude itabaianense, segundo testemunho do professor Odésio Amorim, na época, telegrafista da velha Estação Ferroviária. Toda essa elite intelectual e política reunia-se na União de Artistas e Operários, um clube beneficente que, de certo, teve influência dos ideais maçônicos, posto que, no frontispício de sua sede, estava lá a simbologia do esquadro e compasso a marcar, na simplicidade de uma agremiação operária, o sonho de fraternidade dos fundadores da União.
Destacando-se dos líderes pela oratória, surgia sempre o João Dantas; quando a multidão enxameava os ambientes festivos, nas reuniões alegres ou de desagravo, quando a massa acorria aos comícios do velho PSD, liderado por José Silveira, lá estava João Dantas que só falava devidamente paramentado de gravata. Orador consciente dos seus dotes e carisma, não dispensava a vestidura tradicional, a guarnição de todo tribuno, que era o paletó de linho e a indefectível gravata. Sem gravata, não havia discurso de João Dantas. Tanto que, convidado de última hora para “dar uma palavrinha”, o virtuoso da palavra recusava a honra, mas sem gravata não lançaria a luz da sua oratória.

O oficial dos arreios e selas que foi Daciano Alves de Lima juntava seus amigos em sua oficina da Rua da Gameleira, e era João Dantas quem dava o tom que agitava o marasmo da Itabaiana de então, nas lutas políticas lideradas pelo populismo de centro-esquerda de um político de origem conservadora, mas que foi, no restrito espaço da província, um estadista. Este era José Silveira, para cuja vida política o tribuno popular João Dantas dedicou o melhor do seu talento, a viveza de sua imaginação, o requinte do discurso mais profundo e fervoroso. E foi em plena passeata de campanha de José Silveira, na subida do Alto dos Currais, que o coração de João Dantas parou e sua alma subiu a outro status, sempre de gravata, enfileirando-se na galeria dos grandes tribunos populares nascidos em Itabaiana. Era uma lenda viva, um singular líder do povo que, na sua humildade, sempre foi fiel aos ideais de fraternidade e união de classes.

Seu ídolo político, José Silveira, mandou construir uma casinha que ofertou à viúva, um reconhecimento do generoso político ao seu seguidor mais fiel, ao orador que traduzia os sentimentos do povo e transvertia toda emoção da palavra nas grandes manifestações de massa de Itabaiana de outrora, no tempo em que ainda havia mais vida inteligente neste planeta às margens do Paraíba.