sábado, 5 de setembro de 2009

VAMOS AO PONTO



O Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, da Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba, irá funcionar em espaço localizado na Galeria Lins, em Itabaiana. A meta é iniciar os trabalhos em meados de outubro vindouro.

A equipe responsável: Edgles Gonçalves, Wagner Lins, Débora Lins, Marcos Veloso, Fábio Mozart e Clévia Paz. Objetivos principais:

01- Fazer conhecer e divulgar a cultura regional;

02- Contribuir para a valorização e o estudo da cultura itabaianense;

03- Incentivar os produtores culturais;

04- Criar meios para a produção nas áreas de audiovisuais, teatro, artes plásticas e música;

05- Instrumentalizar os grupos artísticos locais e dar visibilidade à sua produção;

06- Desenvolver e divulgar tecnologia livre no campo da informática;

07- Trabalhar práticas de rádio comunitária, conteúdo e gerenciamento, além de técnica de operação;

08- Fortalecer a economia local, estimulando a geração de emprego e renda em economia solidária;

09- Formar educadores/multiplicadores populares;

10- Incentivar o turismo cultural e ecológico na região.

Música, teatro, dança, canto, literatura…! Expressões artísticas de todas as vertentes. O Ponto de Cultura Cantiga de Ninar vai reunir o que há de mais vanguardista, promissor e moderno na cultura do interior, sem esquecer das raízes locais, que precisam ser preservadas. Tudo isso por uma cultura mais humana, igualitária e democrática.

Ponto de Cultura é o Brasil, é o seu povo, é a sua força e seu talento. Ponto de Cultura é mais que um agrupamento de gente fazendo arte, é uma rede de pessoas imbuídas com o melhor que há da cultura de um povo e que faz da arte sua mais perfeita forma de expressão. “Não se inaugura um Ponto de Cultura, pois o Ponto é algo que já existia”, declarou o historiador Célio Turino, secretário nacional da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura e idealizador dos Pontos de Cultura.

O Brasil hoje tem cerca de 2.000 Pontos espalhados por todo o País. Cada qual com sua arte, com sua forma de implementar a cultura, desde a erudita até a dos povos mais tradicionais do Alto Xingu. São milhões de brasileiros que foram “desescondidos” por meio desta política pública que começa a tomar a forma de um grande movimento social nacional. “Se este projeto vai se tornar perene, depende de cada um se levantar e declarar: EU SOU UM PONTO DE CULTURA!”, conclamou o secretário de Cidadania Cultural, na abertura da Teia Nacional 2008, em Brasília.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A heroína da Confederação do Equador


A cidade de Itabaiana viveu, em 1824, a maior batalha já travada em solo paraibano, de brasileiros separatistas e republicanos contra os prepostos de Portugal. Os historiadores contam que os rebeldes, liderados por Félix Antonio Ferreira de Albuquerque, contavam com mil e quinhentos soldados. O combate se deu no Riacho das Pedras, com muitas mortes depois de quatro horas de luta. Cada grupo recuou: os legalistas voltaram para Pilar, e os revolucionários foram para Juripiranga, de lá fugindo para o Ceará. Entre eles estava o famoso Frei Caneca, um religioso que deu sua vida pela liberdade do Brasil.

Maria Joaquina de Santana era mulher do Capitão Félix Antonio, ela uma paraibana de fibra, que lutou até o último momento pela liberdade e pela honra do seu marido e de sua pátria. Ela foi o símbolo da valentia da mulher paraibana na Confederação do Equador, tendo um papel de destaque nas lutas dos revolucionários separatistas, os primeiros choques entre brasileiros e portugueses pela independência do Brasil. Em Itabaiana, os revoltosos esperaram reforço prometido de Pernambuco, que nunca chegou.

Aquela batalha, a mais importante da Confederação do Equador, ficou marcada pela figura de uma mulher corajosa. Já dizia o filósofo francês André Comte Sponville, que “a coragem é a mais admirada das virtudes, desfrutando um prestígio que independe da época nem da sociedade. Em toda parte e em qualquer tempo, a covardia é desprezada e a coragem é estimada”. Foi essa a impressão que deixou na história essa mulher, Maria Joaquina de Santana, cuja bravura, ao lado do marido, nunca será apagada das nossas mentes. Conta-se que o Capitão Félix Antonio foi morto na Fazenda Oratório, em Pedras de Fogo, vítima de traição de um “amigo”. A intrépida Maria Joaquina matou pessoalmente o assassino do marido, com um tiro de bacamarte.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

QUORUM NA TOCA


Pelo menos dez pessoas já confirmaram que leem diariamente o meu blog Toca do Leão, de forma que já tenho o quorum mínimo. Algumas delas até enviam mensagens, comentando as croniquetas aqui publicadas. Eis algumas dessas opiniões dos meus compadres:
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Fábio:
Parabenizo a todos que se empenharam na construção-aquisição deste equipamento-centro cultural para nossa injustiçada Itabaiana. (Ponto de Cultura).
A infância, a juventude e o povo desta terra não merecem tanto desrespeito (e exploração) como são tratados há muito tempo.
Parabéns ao núcleo (idealista?) que também através da História tenta superar o estado vexatório ao qual foi constrangida a população pobre, (como se aí tivessem ricos...), de nossa amada Itabaiana.
Fábio, Adeildo Vieira, Marcos Veloso, Clévia Paz e outros que pela cultura, pela educação, pela arte, fazem a boa política que contribui para a emancipação de nossa gente. (embora não conheça nenhum pessoalmente, mas pelo "ouvir dizer").
Vocês merecem muito nosso respeito, nossa atenção.
Um abraço fortíssimo e um desejo imenso de que as coisas dêem certo.
Para o bem dessa gente tão querida.
Força, moçada do Cantiga de Ninar
atenciosamente
Benjamim - Uepb
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Mestre Fábio Mozart, que bom que você colocou pro mundo a nossa visita em sua casa no Jardim Glória em Jaguaribe, neste último sábado. Estamos juntos. Aguardo seu contato para aquela visita na casa de Zenito para continuarmos a filmagem dos depoimentos sobre Idalmo, esse professor que a cidade toda conhece desde os anos petistas.
Abração,
Pedro Osmar
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Legal, amigo. Vou repassar em um dos meus programas, e com certeza te darei o crédito. Estou fazendo aos domingos, em São Paulo do Potengi-RN, das 10 às 12, um programa na Rádio Potengi-AM. – Radialista Hugo Tavares sobre “Onde andará Nero, o gladiador?”
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Beleza de texto, Fábio Mozart. Mesmo sem se ver Miro do Babau pra conferir, como é meu caso, sente-se que sua representação dele é soberba. - WJ Solha, sobre “Miro do Babau é o cara!”
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Grande Fábio:
Sua crônica lembrou-me o prof. Idalmo Silva e a prof. Bebé, até porque ambos foram meus mestres no período que vivi em Itabaiana: da 2ª metade da década de 1960 e 1ª da de 1970...
A profª. Bebé não tenho muito o que acrescentar, foi "normal", tirando o "incidente político" com o Idalmo... Já o prof. Idalmo, tenho três fatos que talvez ainda se lembre - do último lhe devo desculpas até hoje, embora mais de 30 anos já tenham se transcorrido, como o "crime" prescreveu, posso falar mais adiante...
O primeiro fato é que nunca consegui lhe devolver um livro sobre Rosa Luxemburgo e outro sobre História Geral - uma raridade de A. Souto Mayor, isso por volta de 1972, 73; já o segundo foi mais interessante - era Idalmo o Presidente da Seção Eleitoral onde fui 1º mesário e "escrutinador" nas eleições de 15.11.1976 (ainda tenho docts com o visto dele)...
Mas, o terceiro fato foi mais sério: uma brincadeira de gosto duvidoso, regada a muita cerveja e cachaça e tendo como comparsas o saudoso Zé Amâncio, eu e o não menos arteiro Arnaldinho do DER, lá pelos idos de 1977, quando protagonizamos uma grande farra, com algumas afilhadas de dona Nevinha, bem na calçada do nosso inesquecível mestre Idalmo, que, com toda razão nos deu uma tremenda bronca - afinal já passava da meia-noite..
Bons tempos aqueles em que mestres e alunos eram tão próximos e as aulas se estendiam muros afora...
Abraços
David Andrade Monte - Palmas-TO
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Olá Fábio,
sou filho do João Neto do DER.
Por mais que eu tente não falar "mal" da cidade onde nasci, situação que me parece eternizá-la no negativismo, não dá para “engolir” determinados casos.
Eu não tinha conhecimento sobre a enquete do Memorial de Sivuca, contudo, acredito que o referido empreendimento poderia atrair turismo à Itabaiana, mostrando os valores e importância do artista, até mesmo para a população local, que não reconhece os talentos que possui, sejam eles vivos ou mortos.
Devemos ter cautela e enxergar além, pois, uma vez o Memorial construído, permanecerá para sempre na cidade. Os prefeitos passam, mas a cultura de um povo permanece.
Atenciosamente,
Eduardo Alves
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Oi, Fábio Mozart, saudações teatrais.
Embora esteja há séculos fora da atividade teatral (mesmo que Regina Papini, ex-aluna da Piollin, tenha realizado uma montagem sem muita repercussão da minha peça "A Cara do Povo do Jeito Que Ela É", recentemente, em São Paulo) e esteja também muito ausente da Paraíba (estive um mês no litoral do Pará, na Amazônia, sem internet, e, agora, em Porto Alegre), tomei conhecimento da sua luta pela restauração da FPTA, que, com a participação de alguns contemporâneos, ajudei a fundar na qualidade de então representante da Confenata (Confederação Nacional de Teatro Amador) na Paraíba. Parabéns por sua iniciativa. Vá em frente. Afinal, você está querendo reativar um movimento que nunca acabou. Deformou-se, mas estava (ou ainda está) em estado cataléptico. Não está morto. Aliás, quem pensa o contrário, é porque entende que a Paraíba termina na Ponte Sanhauá. Vá em frente, rapaz. Não desista nunca.
Alarico Correia Neto

PS: Você sabia que a Federação Paraibana de Teatro Amador nasceu com ideologia e estrutura político-organizacional parlamentarista? Por que não faz uma pesquisa e escreve essa história da FPTA, incluindo a perseguição da PF a Ubiratan de Assis, seu primeiro presidente?
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Fábio, esse Eliel de quem você fala é aquele filho de Dona Severina que tinha um pequeno restaurante em frente à tipografia d’A Folha? Lembro bem dele. E de seu pai, também. Trabalhei na tipografia nos anos 60. Sou sobrinho de Djalma Aguiar.
Geraldo Xavier – Feira de Santana – BA (Sobre a crônica “Um Poeta Aquático”)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Manoel Pedro, o locutor do povão


Manoel Pedro é um sujeito dividido em três partes: alma artística, tronco de guerreiro e cabeça de locutor, com sua devida voz de barítono. A alma é a mais sensorial de todas, onde a faculdade de sentir compaixão do próximo o leva a assumir missões para elevar o bem-estar do seu povo. Militante político de esquerda, voluntário nas pastorais sociais da Igreja Católica e agora batalhador pelos direitos das crianças e adolescentes, na função de conselheiro tutelar.

Manoel Pedro foi meu companheiro em aventuras artísticas, políticas e etílicas. Contei com sua cumplicidade nas tarefas de organização do PT, do teatro amador, da rádio comunitária e tantas outras construções e desconstruções na sua Mari. Um caboclo calmo, de voz mansa, grande biriteiro.

Muitas as derrotas e decepções daquele nosso grupo de amigos. Mas a gente sempre sobrevivia, devidamente recuperados por umas meiotas no bar de Nelson, com tira-gosto de traíra. Manoel Pedro foi ator na peça “Mari, Araçá e outras árvores do Paraíso”. A estréia foi uma grande vitória, lembrada também como a noite em que a tia de Manoel Pedro não morreu. Explico: tudo pronto para o início da apresentação, todo mundo nervoso, e nada de chegar o Manoel. Com uma hora de atraso, aparece o cara quase chorando, justificando a impontualidade pelo falecimento de sua estimada tiazinha. Todo mundo triste, quase suspensa a apresentação, mas Manoel foi firme: “vai ter a estréia, porque o espetáculo não pode parar”. Depois se soube que a tia de Manoel Pedro não havia morrido, era tudo onda do negão para dar cabimento à demora. Parou no bar para calibrar os nervos.

Soube que Manoel Pedro foi expulso da rádio comunitária que ajudou a fundar. Honestamente, não sei se a tal rádio merece o locutor do povão, como dizia Chico Tadeu, nosso amigo comum. O silêncio de um cara como Manoel Pedro é talvez um grito contra o autoritarismo. Mas isso é outra história.

Na foto, da esquerda para a direita: Nado Mago, eu de bigode e o nosso Manoel Pedro velho de guerra.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

HUGO SARAIVA E O GOLPE DE 64


Arnaud Costa (no microfone) Hugo Saraiva e o empresário Zé Nunes, em comício memorável na Itabaiana da década de 60

No ano de 1963, foi eleito Hugo Saraiva para o cargo de prefeito de Itabaiana. Líder popular, Hugo estava à frente da prefeitura quando, em 1º de abril de 1964, os militares desviaram a rota da democracia, depondo o presidente João Goulart e mergulhando o país em uma longa noite de terror.

Em Itabaiana-PB, a História registra pelo menos dois fatos ligados ao golpe militar, um deles, indigno e infamante, que foi a ação de meia dúzia de pessoas desleais, apontando nomes para a repressão. Por conta disso, muitos foram presos, alguns torturados sob a acusação de pertencerem ao Partido Comunista. Dizem que um ex-prefeito da cidade foi o chefe dessa turma, confeccionando ele mesmo a lista dos que deveriam ser presos. Nas primeiras horas do golpe, foram presos os estudantes Israel Elídio de Carvalho Filho e Francisco Almeida, o Chico Veneno, além do tipógrafo Nabor Nunes de Oliveira. Muitos foram perseguidos, outros perderam os empregos, alguns fugiram.

O outro fato, esse repleto de honra e nobreza: contrariando o desejo de parte dos que o apoiavam, o prefeito Hugo Saraiva se recusou a aprovar o golpe. Pelo contrário, solicitou do seu secretário Arnaud Costa, meu pai, a redação de um documento oficial onde se arriscava a interceder pelos seus conterrâneos presos e protestar contra as arbitrariedades cometidas pelos militares, no afã de brutalizar a legalidade do país. Acuados e indefesos, os demais prefeitos tiveram uma posição de covardia, receando a cassação e até mesmo a prisão física. Mas Hugo Saraiva foi altivo. Sem temer retaliações, decidiu lutar, mesmo diante do chicote da repressão que promovia prisões e perseguições aos políticos.

A sociedade civil estava também encurralada diante das ameaças. Em questão de meses, foram cassados inúmeros vereadores, prefeitos, governadores, deputados e senadores. A situação do país se agravava, tornando-se intolerável. Os militares começaram a fechar o cerco em torno do prefeito Hugo Saraiva, lembrado pela reação desfavorável dele ao golpe. Nesses momentos delicados da vida política do país, muitos capitularam. Faziam fila os colaboradores do regime nos quartéis, para denunciar seus desafetos. De Itabaiana, liderava essa corrente de reacionários o ex-prefeito Antonio Batista Santiago, que não descansaria enquanto não visse o prefeito Hugo na cadeia ou com seu mandato cassado pelo regime.

Cercado pela repressão, Hugo Saraiva renunciou ao cargo para não sofrer a desfeita de ser cassado, com seus direitos políticos cancelados. As botas dos soldados puderam enfim entrar na prefeitura e procurar documentos comprometedores contra o prefeito que saía pela porta da frente. A velha Itabaiana, cenário de batalhas históricas pela liberdade, não se rendeu. Representada pelo seu prefeito, Itabaiana disse não ao golpe dos militares.

No seu lugar, assumiu o vice-prefeito Everaldo de Moraes Pimentel, que fez uma administração exemplar, marcada pela honestidade e zelo com a coisa pública. Um detalhe: naquela época, votava-se para prefeito e para vice-prefeito. O médico Everaldo Pimentel obteve mais votos do que o prefeito eleito.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma vida dedicada à morte


Uma vida inteira dedicada à morte. Esta frase sintetizaria a trajetória de um homem simples que se dedicou a cuidar dos mortos no cemitério de Itabaiana. Trata-se de Azarias Cunha da Costa, que durante muitos anos foi administrador do cemitério e aprendeu a conviver com os sentimentos de tristeza, de finitude, de medo, de abandono, de fragilidade e insegurança que acompanham o ato de sepultar alguém, e disso fez sua missão de vida. Passou o tempo todo cuidando do cemitério como se fosse sua casa.

Diz um ditado: “teme mais a morte quem mais temeu a vida”. Azarias não teme a morte, porque durante toda a sua vida, até se aposentar recentemente, como pessoa inteligente que é, foi estimulado a profundas reflexões sobre a própria vida. No cemitério, Azarias teve um importante curso intensivo e saudável de balanço emocional, e hoje vê a morte com aceitação de paz, com dignidade e bem estar emocional.

Azarias é um caso singular de alguém que amou seu trabalho e a ele se dedicou a ponto de, agora aposentado, ainda viver traçando projetos para melhorar nosso campo santo. Quem vai à sua casa, encontra-o debruçado sobre mapas e plantas baixas do cemitério, como um devotado amador.

Quando não tinha de cuidar de nenhum sepultamento no cemitério de Itabaiana, Azarias aproveitava o tempo livre para corrigir seus mapas ou ler sua Bíblia e seus velhos livros de filosofia. Cuidar de cadáveres é um ofício penoso, pelo menos para quem não tem o hábito. Azarias adorava, e adora, aquele ambiente de paz do cemitério. Para ele, o melhor lugar para trazer a filosofia para a prática é o cemitério. “A filosofia trata da existência e do ser. A morte está nesse meio”, afirma. “Eu não gosto de filosofia acadêmica. Prefiro estar com o povo. Fico vendo como as pessoas tentam adocicar a morte com eufemismos e como desejam a imortalidade. Veja esses túmulos: todos são grandes e têm o nome das famílias em letras garrafais. Mesmo mortos, querem ser imortais”, filosofa Azarias.
Minha homenagem àquele que, no desempenho das suas funções no cemitério de Itabaiana, sempre o fez com enorme profissionalismo, dedicação e sobretudo na dignificação daquele espaço tão nobre que serve à nossa cidade.

domingo, 30 de agosto de 2009

A fazenda modelo do Dr. Odilon Maroja



Vila de Guarita, no município de Itabaiana

Meu estimado amigo, jornalista Geraldo Almeida, fez a gentileza de me ofertar dois livrinhos de sua editora Itabaiana Hoje, acabados de sair do forno. No mesmo final de semana, recebo do meu outro dileto amigo Beto de Zé de Paulo o livro de crônicas “Águas do Povo”, de autoria do itabaianense Reginaldo Alves de Araújo, radicado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

O livro de Reginaldo ainda estou lendo. Belas crônicas de sua terra adotiva, a cidade de Aquidauana. Histórias dos pioneiros daquele eldorado no coração do Brasil. Já li os dois volumes, presentes de Geraldo, até porque são brochuras com 39 páginas.

Um deles, escrito por Cláudia Lopes Cavalcante, chama-se “Porque Deixei Campo Grande”. Relato da trajetória de vida da professora Cláudia, apresentado pelo próprio Geraldo Almeida de Aguiar. Para ele, “dona Cláudia foi professora muito estimada na comunidade da Escola Elementar Mista Solon de Lucena, na margem esquerda do rio Paraíba, construída pelo prefeito Fernando Pessoa, em 1926”. Ela foi a última professora naquela escola, “já que na gestão do prefeito Luiz Paulino foi construída uma nova escola em terras de José Dias de Oliveira.”

O outro livreto é uma relíquia da literatura itabaianense, escrito por Mário Melo, contando a viagem que fez no começo do século vinte à Fazenda Modelo, em companhia do Dr. Odilon Maroja. O relato foi publicado no jornal “O Município”, da cidade de Itabayanna, como se grafava na época. O autor conta que partiu de Itabaiana para Salgado de São Félix a cavalo, passando por Guarita, “uma pequena povoação que antes era conhecida por Lauro Muller, nome em homenagem ao ministro que mandou fazer a estrada de ferro e a belíssima ponte ferroviária”, ainda hoje existente no vilarejo. Na viagem, os excursionistas visitaram as obras do “templo cathólico de estylo góthico”, que vem a ser a igreja de Guarita. O autor demonstra certa depressão ao passar “entre meia dúzia de casas brancas, sem estylo, sem arte, sem alinhamento”. Guarita permanece quase do mesmo jeito.

Os viajantes são recebidos na fazenda modelo, na povoação de Salgado de São Félix, “uma pequena vila semelhante à Guarita, si bem que mais povoada, tendo uma rua única, de cerca de cincoenta metros de largura, que se estreita mais adiante num lastimável desalinhamento, para se alargar aproximando-se do leito do rio”. De utilidade pública possui apenas duas escolas municipais, uma agência dos correios e a capelinha consagrada a São Félix. Quem olha para o oriente, vê um prédio de estilo não definido, aparentando um “pomposo palácio”. É a casa do dono da fazenda Modelo, cujas terras penetram no Estado de Pernambuco, com as propriedades Salgado, Alagamar, Campos, Amazonas e São José, estas duas últimas em terras pernambucanas. Nessas fazendas plantava-se o algodão e se praticava a criação de gado vacum. Na época, Odilon Maroja fazia melhoramentos genéticos em búfalos e outras raças como a famosa vaca leiteira “Hollandeza”. Na fazenda ainda imperava o “Caracu”, primeiro boi trazido para o Brasil, de origem portuguesa, bom de carne, de trabalho e de leite.

Resumindo, o autor destaca a fazenda Modelo de Odilon Maroja como “um empreendimento notável pela situação geográfica e geológica, pela uberdade do solo e condições climáticas”. Sem falar na administração modelo.

Hoje você chega a Salgado, vindo de Itabaiana, e vê o antigo “pomposo palácio” dos Maroja caindo aos pedaços, em ruínas, corroído pelo descaso, denotando o desrespeito à memória do lugar. Ruínas urbanas e rurais, porque a fazenda Modelo nasceu antes do povoado. É a gênese de Salgado de São Félix, que deixa à margem sua riqueza histórico-cultural. Lastimável o fim de uma fazenda que já foi considerada modelo no começo do século vinte, hoje um imóvel esquecido pelos herdeiros e pelo poder público, em processo quase irreversível de degradação.