Em maio de 2026 estou
celebrando os vinte anos do meu blog Toca do Leão. Há exatas duas décadas pedi
ao meu filho que abrisse um blog para publicar minhas crônicas e poemas. Eu,
analfabeto virtual assumido, queria apenas um canto onde pudesse guardar
pensamentos antes que eles evaporassem. O blog cresceu, virou coluna no jornal A União, o único impresso da
Paraíba, e todo domingo a Toca do Leão continua saindo por aí, tentando
transformar pensamentos soltos em memória escrita.
Dentro dele
nasceu a coluna “Tijolinhos do Mozart”, onde escrevo sobre o cotidiano: dias
comuns, outros meio malucos, pensamentos reais e outros nem tanto. São textos
simples, quase conversas comigo mesmo, sem precisar interromper ninguém. Nem
sempre escrevo para ser entendido; às vezes escrevo apenas para não guardar
tudo em silêncio.
Um blog
pessoal é uma janela aberta para pensamentos que normalmente ficariam
escondidos. Quando alguém escreve sobre a própria rotina, acaba revelando mais
do que acontecimentos: revela medos, fragilidades, versões de si mesmo. A
exposição não está apenas no que se diz, mas também no que fica escondido entre
as linhas.
Talvez por
isso eu tenha transformado a escrita numa espécie de terapia clandestina. Sou
um sujeito carregado de inibição e nunca me confessei a psiquiatra nem
psicólogo, mas desconfio que este blog seja minha tentativa silenciosa de cura.
No conforto do computador, transformo ansiedade em crônica e vulnerabilidade em
conversa pública.
Nesses vinte
anos já fui censurado em grupo de WhatsApp, processado, ameaçado por malucos e
colecionei intrigados. Pediram delicadamente que eu não publicasse mais os
“Tijolinhos” em determinado grupo porque eu falava demais de política. Na
verdade, o problema era outro: eles eram devotos do velho Bozó, personagem que
no meu blog costuma apanhar sem piedade.
Os
“Tijolinhos” acabaram virando um diário fragmentado da minha vida cultural,
política e emocional. Misturo memória, humor ácido, comentários sociais,
lembranças do interior da Paraíba, de onde vim, rádio comunitária, literatura
de cordel, velhas fotografias, amigos mortos, envelhecimento e as ironias do cotidiano,
tudo no mesmo fluxo narrativo.
Escrevo de
maneira informal, como quem puxa uma cadeira para conversar diretamente com o
leitor. Às vezes cito familiares, desafetos, frustrações profissionais e
episódios antigos. Por isso, o blog deixou de ser apenas espaço de opinião:
virou arquivo emocional, inventário afetivo de uma vida.
E tem quem
goste. O editor Sérgio Ricardo Santos, do portal DiarioPB, republica os
“Tijolinhos” no jornal eletrônico. De vez em quando, o sistema bloqueia
temporariamente o IP por segurança, tamanho o número de acessos.
Vinte anos
depois, continuo aqui, empilhando tijolos de memória para não deixar o silêncio
cimentar os tempos em que não havia celular, havia infância.

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